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Escrito por Administrator   
Terça, 07 Agosto 2018 13:18

Começo um texto que não sei o que será. Ou o que não dará. O espírito só fornece o primeiro verso. São duas horas e alguns poucos minutos do dia três de novembro (2016).

Duas, três doses acalmaram a mega sede, afinando a ponta de gel da caneta nova. Sinto que guardo velhos sons e antigas ressonâncias de ontens e amanhãs em mim. Os livros de meu pai que compulsei e revolvi com ávida ânsia me projetam dor e amor. Rituais sons melosos e tristes de campanários ressoando sobre a relva viva da noite expio. Sinto sim sons úmidos algo salinos e malévolos gritos insípidos, cones rugindo do esôfago (de uma pedra de catedral pecaminosa). De repente, me arrebenta a nudez do cio e como não me aquieto choro e gemo. Sei que escrevo esse texto no corpo, não na alma. Explorando abismos desertos, ou mesmo cegos, indomadas verdades ou ascéticos dutos de velhos relicários abandonados da alma.

 

A imaginação emudecida acorda a meio de silêncio insuportável (e violento). Sei que estou no texto, mas não existo. Escrevo-o a mim mesmo, não a outros. Falo a mim homem oco impotente (e árduo). Que possui pálpebras negras como golfos azuis tintos ou pranto azeviche ou riso redondo plantados na boca. Se já não posso escrever, segue o texto como armadilha da escrita, pois toda letra e toda página são confessionais, sórdidas passionais (como todo poema é inocente e perigoso). Como toda culpa é inocente e vertiginosa. Ao ardor de extintas chamas, cinzas ubertosas, escrevo. A cada gesto nu do mundo escrevo. Toda a descrença espalho no papel espelho. Rumino poema com esnobe galhardia prossigo o texto com soberbo orgulho calado. Rosto imóvel, tez rachando, zênite empalhando-se, a escrita corrompida galgando páginas, edificando abismos na alma já meio dissoluta, por culpa do mundo e fortaleza da carne.

A terceira folha expressa irrelevante pó. Um país de silêncio se aproxima. A dor perdura. Céus se emaranham como ratos nascituros ávidos. Como desejos se entranham. Conversas se convertem em tropos mudos. Busco lugares abandonados, ermidas arruinadas. Penetro a vida das palavras com o falo do lápis em riste, sinto escuridão do corpo, desdita e exaustão, além de madrugadas íngremes... e topázios ou bazucas de zero setes incautos (ou gozo). Sei que a vida é sozinha, o tempo um deserto só. Abismo, amigo de todas as certezas. A débil voz, anuncio tudo e nada. E que olhos não são para ver. Que desejo já não existe. E que é necessário e vital dizer o que nunca foi dito, tudo o que as palavras ainda não disseram. E que confessar é impossível. Confessar é fraudar-se. Não ser. Confissão é ter ilusão de pecar.

Ama-se o que não é (em si e no outro). Eu mesmo só amo o depois. Ao antes, iro. As perdas é tudo. O silêncio é vivo. Se a última palavra fosse do poeta, e do último alento saísse algo bom, se a última vontade fosse irreconhecida, então algo valeria a pena ser. Talvez. Mas... é a vontade do texto que permanece, impera, domina. Morrer e não morrer portanto se equivalem. E ao labirinto confuso e curvo das palavras, nós entregamos a sina escrita. Debruçados do abismo, sonhamos com céus impassíveis e vagarosos, cúmplices do não ser que somos. Pelo emaranhado das palavras deste texto, procuro o destino afinal. Sabendo que o último sopro não vale o esforço.

 

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