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ENTENDO PATAVINAS - (CARÊNCIAS DE SEROTONINA E SONO) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Sexta, 31 Agosto 2018 00:26

A consciência é uma doença, diagnosticou Dostoiévski, em seu romance naturalista radical Memórias do subsolo.

No entanto, a consciência doente, hipertrofiada (pela multiplicação de neurônios do cérebro) teria, como antípoda, a consciência comum, banal, ordinária, comercial (massiva, porém redutora). É a que o russo pejorativamente apodava de consciência do mingau (cachorro). A dos homens cotidianos, das pessoas comuns imersas nos afazeres mecânicos, repetitivos, embora prazerosos do dia a dia. De subsistência (do ser primário), sob hipócrito amparo de preconceitos e ilusões senis. É uma consciência voltada às necessidades do estômago e do coito semanal. Consciência não retardada, mas reduzida.

Pode-se dizer que a consciência hipertrofiada (embora doente também) é produto da selva da evolução, do movimento cego da vida da espécie, efeito da interação fortuita dos átomos das circunstâncias. De implacáveis casualidades causais.

Nietzsche, leitor fanático de Dostoiévski, se debruçou com fervor sobre as memórias encarceradas desse Graciliano eslavo.

Górki sustentou que o essencial do pensamento, das teorias e idéias de Nietzsche teve como base Memórias do subsolo.

Já no século XX, o filósofo romeno Emil Cioran – que viveu em Paris e escreveu em francês – alimentou-se de Dostoiévski para desferir incisos e conscienciosos ataques contra a existência ocidental em sua essencial superfluidade. Cioran reduz a vida do homem ocidental – fruto do modo de vida americano – a um perfunctório nada.

É dele: Os homens ainda não compreenderam que o tempo das preocupações superficiais (e contemplações ao absorto umbigo) é passado. Não tem futuro. E que um uivo de desespero (ou lance de náusea que abula o fútil) é mais revelador que qualquer argumento... e que uma lágrima tem mais fundamento que qualquer sorriso.

As obsessões e ideias da hipertrofiada consciência de Cioran brotaram de um organismo infeliz – e lúcido ao máximo – carente de serotonina e sono. Um cara assim não sonhava, era presa de pesadelos (franceses ou não).

Cioran elevou a insônia a categoria filosófica.

Era tão tenaz a ausência de sono que o filósofo e aforista romeno considerou a insônia santa. Um estado orgânico vital à compreensão da essência do homem (vígil), ou melhor, para revelação do seu vazio metafísico ou não.

Mesmo passando a vida (84 anos) a invejar os dorminhocos (obesos ou não, burros idem), Cioran foi um filósofo visceral do século XX, um pensador profundo, mordaz, irônico, certeiro... e sua escrita artística... um Montaigne da Transilvânia, um Valtaire dos Balcãs.

Foi a consciência irada do seu tempo. E quem descobriu que o segredo da condição humana é o sono... ou, melhor dizendo, a insônia: as noites brancas de Cioran, o gênio romeno e insano, embora perfeito filósofo do nosso tempo.

A santa insônia gerando a lucidez capital. A consciência levada às últimas consequências. A lucidez como uma forma de pesadelo.

Enfim, o vazio da existência foi sublime para Cioran, o que o levou à lucidez total, ao Nada (onde ele está todo). Repito o belo substantivo lucidez, porque trato de um lúcido, hors corcurs.

 

 

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