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A POLISSEMIA NUA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quarta, 26 Setembro 2018 23:45

Aos leitores do site Poesiabsoluta no âmbito da coluna Paradoxos e provocações literários, trago a questão do significado em poesia.

Proponho-me demonstrar que  o poema é objeto de palavras e não história, prosa. O poema é feito de significantes (a outra face da moeda do signo que não o conceito). E que o poeta deve primar na organização destas (arranjos significativos) de modo a que sejam inéditos, sintagmaticamente novo, vário. E deixar de lado o significado (a referência, a realidade, o mundo fático) e considerar somente a realidade artificial, criada, imageticamente concebida, o mundo ficto, que é a literatura e a que se dedica o escritor. Qualquer preocupação com o sentido a ser dado é prejudicial ao poema que é algo construído. Então, o sentido do poema não é único, é equívoco (nunca unívoco), não é um só, são todos.

No conto Pierre Menard, autor de del Quixote, a “admirável ambição”, o propósito da vida de Menard era reescrever o romance de Cervantes, “palavra por palavra, linha a linha”, isto é, com os mesmos significantes e não outras palavras, mas com um significado novo e “quase infinitamente mais rico”.

Mesmo incompleto por razões do que não se pode suplantar, Menard tornou o seu Quixote “a obra mais significativa do nosso tempo”.

Mesmo usando as mesmas palavras (no sentido de significantes exatos, isto é, a mesma palavra como forma fônica, com as mesmas letras em sua composição), elas, no novo contexto do mundo, da época, 316 anos após Cervantes tê-la escrito, significam diferente diacronicamente considerando (embora sincronicamente sejam as mesmas), receberam um novo significado, renovaram os conceitos inerentes ao signo, isto é, revestem-se essas mesmas palavras de novos sentidos que o novo leitor (algum mesmo que ainda não tenha lido o Quixote original ou não) decodifica do seu ponto de vista ou contexto vital novo.

O absurdo da tarefa o é apenas na prática, mas logicamente é algo viável pelo que se demonstrou.

O ensaísta inglês de formação portuguesa, Stephen Reckert (que li e anotei em Lisboa – maio 2011) admiravelmente conclui sobre a questão exposta:

 

“em qualquer texto apenas o significado

é criado: os significantes são sempre os mesmos”

embora o vário arranjo destes implica em novo significado.

 

Daí a poesia ser expressa, formalizada, imprimida (e não só exprimida), exteriorizada através e via significantes – que são a sua essência – e não querer nada dizer, de específico, de exato, de presumido, de definitivo, porque diz tudo (e assim o fazendo não diz nada, porque a poesia não é para dizer mesmo), pode obter, alcançar qualquer significado. Eis a polissemia nua.

Por isso, invertemos o dito clássico aparentemente correto, testado. Na prosa, sim, e quase tudo é prosa.

O aforismo: As palavras voam, o escrito (isto é, o concreto) fica.

No domínio da poesia, as palavras ficam (no poema) e o sentido voa, porque não é fixo, é infinitamente variável, móvel por si, rebelde, jamais se permitindo aprisionar-se na cela das palavras, que é o poema. CQD

 

 

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