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CÂNTICO NOVO (NOVO CÂNTICO) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 29 Outubro 2018 13:14

Cláudio Veras

O poeta que, entre ocupações servis e cargos ou cangas da vida, mantém, ao longo do tempo, a poesia presente,

revelando-se sensível e reativo perante os embates da vida, mesmo convertendo-os em lirismo sensual, amoroso às vezes filosófico, bem dá a medida do seu coração (entregue à fera voraz da vida).

 

Einstein afirmou que a experiência  mais marcante do humano, ou a que mais importância detém, é o mistério.

E foi a experiência do mistério e a disponibilidade lírica que pontuaram a trajetória de Vital Corrêa de Araujo na vida (literária e física).

Apontaram o destino poético de Vital Corrêa de Araújo. Utilizo aqui o título do livro do Professor Sébastien Joachim sobre Vital.

Ele é detentor de uma poesia tocada pela revelação (lírica), como o comprova poemário, de 2011, Cântico novo. Ele empunha uma poesia tisnada pela epifania, pelo sentimento do sagrado percorrida.

O mistério é a segunda realidade (não algo meramente paralelo, mas autônomo), a que está por detrás da aparente, que é a realidade cotidiana, esta que monopoliza nossa atenção, ocupa nossos ossos e sentidos, nos envolve e submete com sua presença de superfície parcial com ares de totalizadora.

A realidade aparentemente invisível é a verdadeira, que excele por sua inapreensibilidade mecânica e simplória.

Ao poeta, o encargo, a missão de tornar legível essa condição da verdade, em sua face absoluta; a lide de interpretar e desvelar essa segunda verdadeira realidade, libertá-la dos véus do mistério que a vestem, torná-la visível, pela via da poesia.

Em VCA, a palavra poética carregada de tensão emotiva, dotada de alta voltagem conotativa (como preceitua Pound) é invocação, salmo, peroração, plegaria, nominação, chamamento, proclamação presentes em Cântico novo, de cabo a rabo. Nesse poemário, Vital toca o inefável, adentra o etéreo, realiza as potencialidades que dormem na palavra, atualizando-as com notável força expressiva, capaz de não só deleitar mas hipnotizar  leitor.

O poeta busca o primeiro sonho (escava sua pegada, garimpa seu rosto), aquele em que o homem ainda não despertara da queda, encontrava-se nimbado dos ares do paraíso derrocado, em vias de ser terrestre e mortal.

Desde o livro-raiz Título provisório (orlado por Burocracial), Vital toca o além-sonho e sente – trata – o barro de onde veio o sopro, de onde se ergue a alma do mundo.

De um sopro de barro veio o homem (jazida de Deus), e a posse desse alento ele transfere às coisas e molda o tempo humano.

É o verbo de barro (título de um próximo livro de VCA) seu instrumento dúctil.

Mas é dos armazens do inconsciente que vem a coletividade das imagens que povoam a poética vitaliana, conforme o demonstrou cabalmente Sébastien Joachim (no livro O destino poético de Vital Corrêa de Araújo, edições Bagaço/IMC).

E é nesses incontidos contêineres do id que Vital Corrêa de Araújo bateia seu poema, rede da imagem em riste, à tocaia do cardume imaginário.

É a dor, o desespero de ser que se flagra nesses poemas, cujo horizonte é próximo à esperança.

Vital procede com precisão escatológica, empreende vitais catábases, promove incursões no íntimo da Bíblia (de uma bíblia apocalíptica) na construção dessa estranha poesia, repleta de perorações e profecias a nosso tempo.

Todos os poemas de Cântico novo são perpassados de melancolia e pessimismo, são nostálgicos do paraíso perdido, sabem à sombra, à esterilidade, à divisão do humano, a um muro de angústia, alicerces vigoroso dessa poesia.

É um lirismo que contrai a alma, em que a Voz do Senhor jamais será ouvida (por ouvidos moucos), em que a face da morte ceifa espelhos. Àqueles a que se nega o rosto etéreo porque o fardo da culpa conspurca.

A Vital interessa a palavra não como instrumento de comunicação (como no jornalismo em que a técnica e eficácia da mensagem são cruciais), mas como palavra que ele contempla e integra em sua nudez originária.

Cada palavra – átomo da frase poética, do verso – nunca é indiferente a ele, ou utilizada como meio para fins extrapoéticos, não é automatizada, como na prosa; seu metro nunca é mecânico, ditado por uma exigência do ritmo exterior (que O. Paz critica), visível, medido; sua rima é ímpar, impoluta, quase ébria – nunca rípio.

Não interessa à poesia de Vital Corrêa de Araújo só a referência, a coisa nomeada, a empresa da razão, o desiderato do significado, mas a forma literária, no conúbio branco da página.

A lingaugem se automatiza porque a relação signo-realidade se torna habitual – e trai o candidato a poeta (é o que aplico em meus cursos de recepção da poesia moderna). A poesia de Vital foge dessa armadilha, que embosca mesmo os ditos ou autoditos grandes poetas.

Em VCA, a obstinada busca do essencial significante é o dínamo que alimenta sua palavra poética (no mesmo patamar da palavra religiosa, neste Cântico novo).

É o motor que o move em direção do absoluto realizado pela palavra poética, via Novalis (um de suas mais angustiadas influências).

Na poesia de Vital, a informação está diluída (ou ao contrário integrada) no conhecimento que a palavra poética carrega como lastro ou contrapeso residual, pois o peso-mor, a carga expressiva é reflexo do jogo lúdico da linguagem, na sua busca do irremediavelmente humano, finalidade da poesia.

Como Terêncio diria a propósito da poesia de VCA: nada do que seja humano a ela é alheia.

VCA acumulou conhecimento poético e sensibilidade no continuado envolvimento com o significante (forma de que provém a poesia, forma que a instaura, de que ela se constrói) na longa vivência com Perse, Pound, Eliot, Montale, Séferis, Juan Ramón, Bandeira, Guillén, CDA, Cabral, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cioran, Vicente Aleixandre, Rimbaud, Valéry, Mallarmé, Baudelaire e tantos. Toda essa carga de experiência acumulada concentrou na poesia e produziu quase 15 livros já publicados que excelem, demonstram ímpeto de uma poética forte, madura, absolutamente lírica, de um lirismo de crótalo, mesmo ferino, mas vivo e presente – como estigma e ímpeto – na paisagem da alma humana, como o nosso cardeiro.

 

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