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CRÔNICA NOTURNA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 30 Outubro 2018 21:46

As bordas do precipício eram escuras

poucas vezes a beira era roxa. Um tanto afiadas ou mofas.

Mas discretas. Não porque abauladas

porém sinceras.

Os dentes silenciosos. (Investidos das fauces

como relâmpagos do céu de abril).

A noite urrava ao redor como coivara.

Resfolegava. A fumaça (orvalho lento

e dissoluto) noturna

na madrugada fria congelava.

Assim era minha alma.

Na manhã empedernida. Cicatrizada.

O sono procurava os ombros da tarde. Há

muito descambada para o peitoral noturno.

 

Invólucros de sonho dispersos no dia

colhia como cigarros apodrecidos

pelos dedos duros acostumados

à faina do alcatrão se dispersando

no ar e no pulmão

colhia como feijões desabrochando

do túnel da bage explodindo

como uma luz final esclerosada

verde por entre bainhas abertas

precipícios afiados, tenazes corroendo a beira

ou milhos enluarados e seu pendão noturno

atraiçoado mas tenaz ainda.

A lua olhava os quintais descurada

e desdourada. Com um torpor sem ventre.

 

Contemplava mourões e ervilhas acesas

a lua escura escancarada no terreiro.

Assinalava louças abandonadas no adro

onde pulverizava luz estraçalhada

pelas atentas navalhas da noite cerrando-se.

A rua madrugada parecia um títere

ou uma esmola e nela andrajos

naufragavam

porque os rasgos dos clarões

dos botões carmins e do linho devoluto

eram afogados pela cerração

dos olhos e da terra

no pátio da igreja morta

pulôveres e tafetás

amavam o frio irredento que reinava.

 

Borboletas se preparavam

para os deboxes do néctar

imitações de folhas vivas

planando entre as flores

conúbio com a liberdade

que as pétalas ofereciam.

Manteigas já sonhavam

com pães amanhecendo

do ventre dos fornos úteros

de fogo e farinha

fermentada se dilatando

como o bolo do sol.

Ameixas enchiam a boca da manhã

insufladas de fibras roxas

de salivas e aromas

jamais degradados

pelas legendas superadas

da madrugada da alma.

 

Quatro horas da manhã no Castelo.

Garanhuns, 20 de setembro de 2012

 

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