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APENAS DIREI PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 05 Novembro 2018 22:33

SOBRE A PRAÇA ONDE MINHA INFÂNCIA ADORMECEU

A chusmas de pássaros oferecer

meu peito casto e ilusão valente

além do milho de minha fantasia.

 

Água febril de meu delírio

e o inteiro sal de meu silêncio

a velhos traumas doar-me (antes de morrer).

 

(Se com amor a vida é erma, então...).

 

Se me perguntarem amanhã

por ofícios matinais e idas primícias

darei meu nome como resposta.

 

Se me perguntarem talvez

pelas arruaças do rico

 

e da desvairada cobiça que o devora

não referirei camelos e agulhas, talvez.

 

E se por que siga sem cessar

os caminhos maltrapilhos das metrópoles

a distribuir intrigas e amoedar usuras

 

direi que apenas conheço minha floresta.

(Ou meus azuis pentelhos).

 

 

Ou a esquina de minha aldeia tão modesta

ou a praça onde adormeceu minha infância.

 

E que pasço os dias a ouvir ovelhas

velhos balidos que não voltam mais

 

ainda ouço relatos de arroios lentos

o jorro da impúber água do batismo

cochilo das sementes tomando sal

rumor azul de messes adormecidas

impaciente fluir de fonte arruinada

 

a meus pés quase sepultos

chinelas de Pedro Seleiro.

 

E das ribeiras do meu outubro

o naipe dos meses desesperados

gaiolas loucas de desejo

zodíacos entristecidos

 

além de calendários engalanados

de tristes datas.

 

Tudo em regozijo

ao debacle da utopia.

 

Mas à noite ouvirei novamente talvez

lua rural tocando cítara.

 

Com dedos de carícia e fervores azuis.

Tocarei a sombra em que te transformaste

o nome que foste, a Eneida fugida

apalparei minha dor enorme

(maior que o amor, talvez)

e me farei antigo como um ditirambo.

 

O louro que me reste

a coroa de um arroz

o alimento que a alma vomita

o tempero intemporão

tudo o que o tempo exaura

rasgue, jogue fora, despedace

sou eu.

 

E fundarei ainda safras podres

com que cevei ilusões

incoerentes repúblicas do porvir

reinados sem ventre, impérios nus.

 

E me fundirei à cidade que me verteu.

Findarei o poema convulso dizendo

a felicidade consistia em

ver pastar utópicos bovinos

(tourino do futuro vir a me lamber)

 

em sentir a leveza viva do voo da borboleta (que eu matava)

sonhar com a libélula prometida

 

enfim olhar o arrodear

dos cálices lentos e rubros das flores

por abelhas dedicadas a levar

ao enxame de Deus o botim do néctar.

 

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