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DEUS MODERNO DA POESIA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 08 Novembro 2018 21:57

Nunca descobri como vim a Holderlin. Algo me fez ressoar seu nome, creio, quando de minha primeira estada na Alemanha

– quando fazia o curso de Inteligência fiscal, em Dusseldorf, Haan e Solingen (por alguns meses). Não havia internet nem outras fontes hábeis de pesquisa – e me vi hipnotizado pelo nome Holderlin – o alemão da Suábia que acreditava nos deuses gregos ou vivia dessa nobre nostalgia.

 

O professor emérito de História – amigo de vário tempo e situações – Jovenildo Pinheiro – era à época  secretário de Pinto Ferreira, com acesso à vista biblioteca física e mental do Mestre. Apelei a Jó para pesquisar e recolher tudo o que fosse possível sobre Holderlin. Do próprio Pinto, obteve-se algo (pouco).

Não havia livros brasileiros sobre o vasto poeta alemão (que viveu 43 anos de sua longa idade na plena loucura – embora os hinos do início da doença mental fossem e sejam até hoje sublimes. Encontro-me, com Jovenildo Marinho Ribeiro, Cel Malta, Nino de Garanhuns, a cada mês, na banca de revista de Boa Viagem (a maior e melhor) do grande amigo Ricardo Calazans e Marily). Falamos sobre minha busca de Holderlin.

Através do Heidegger (caminho do filósofo), obtive não antiga informação, mas uma transformação sobre o gênio lírico suábio.

O poeta é o mais inocente e perigoso dos seres. A poesia é a morada do ser. Os poetas fundam o mundo humano. Essas expressões atravessam (e urdem em mim visões magnânimas) meu espírito avassaladora e gratamente até hoje.

Holderlin é modelo e irmão. E os votos de solidão a que me impus nos últimos três anos – e a greve contra a poesia banalizada e simplificada de agora – devo-os a ele.

Felizmente, de minha primeira viagem (de navio, com 13 andares, dois elevadores, e 15 dias de travessia do Atlântico – no Bleu de France) a Lisboa, consegui tradução (de Paulo Quintela) de Holderlin.

No livro Holzwege (Caminho Filosóficos do Bosque), Martin Heidegger (de quem segui as pistas – por 2 vezes – na Floresta Negra – como fiz a Borges, em Buenos Aires) dedica profundo ensaio (e que reatualizou o poeta perdido) sobre a missão poética de Holderlin.

Na diva elegia Pão e vinho, do início da demência santa,  Holderlin dispara: Para que poetas, em tempos tão miseráveis, para que poetas, em tempo de necessidade e penúria? (Igualmente, Adorno, no século XX, fuzilaria: é impossível a poesia, após Auschwitz).

Num mundo sem deuses verdadeiros (só com deuses vendidos nos balcões do comércio da fé coitada) ou de Deus ausente, e pessoas (para quem dor é dólar) conscientes apenas do imediato, do materializado, do metálico da moeda, seres da usura, onde vige a beleza utilitária – e a poesia de salão ou entretenimental – não existem condições – como hoje – para florescimento, recepção, captação e usufruto da verdadeira poesia.

Por isso – como o faz VCA - os poetas desses tempos árduos, duro, falsos, obscuros, difíceis, em que as pessoas portam debêntures no coração, portam que se resignarem à solidão vital e cantar a noite (durante os dias de tormento lírico) a fazer poemas ao deserto (no sentido cristão). E ficar mudo ao mundo, hoje, é papel e função do poeta. Dos meus 13 últimos livros publicados pela BAGAÇO, nenhum lancei ou pu-los em esqueléticas prateleiras de livrarias (livra-me delas! Senhor). A voz lírica verdadeira hoje não encontra eco fecundo, reverberação necessária ou ressonância nos corações humanos ocupados pela usura e bens (duráveis ou não).

Os sais mágicos de Holderlin apodrecerão, ele proferia gritos de desespero, porque o tempo em que vivia o desprezava (e da nostálgica Grécia buscava reconhecimento e dádiva divina).

Intransponíveis muralhas de incompreensão se erguiam contra o canto do destino de Holderlin. Como ocorre e se repete hoje. O que saía da mente superior daquele professor primário e preceptor – belo, casto, inocente e diferente capaz do mais puro lirismo de todos os tempos - não comovia, afetava, tocava as pessoas (da desenfreada burguesia materialista e condenada ao banal, ao vulgar, ao nada de suas vidas).

O trágico destino de Holderlin, em sua luta contra a incompreensão, em seu embate lírico primordial contra as forças do obscurantismo e da ignorância poética verdadeira (tal como agora) deve ser um antídoto para leitores vãos. E os 43 anos da sublime loucura horderliniana um emblema e uma figa contra o nojo à poesia.

Um dos mais admiráveis poetas que hajam existido não é do conhecimento de 99,999% dos brasileiros. É uma catástrofe cultural. Uma idiotice geral. Valha-nos, Deus, afasta esse grotesco cálice da ignara multidão de falsificados cidadãos de cultura curta e arrogância pura!

Durante décadas os hinos de Holderlin foram estudados na crítica do manicômio, como exemplo de cérebro enfermo.

Quando questionou para que poetas em tempos tão miseráveis? Horlderlin desfechava um grito de repulsa à vida burguesa pacata e usurária. Ele pressupunha uma era, não de miséria, através da saudade metafísica da Hélade. Ele já adivinhava a trilha da loucura que se afigurava (em sua séria poesia) e já sentia a presença da longa noite de insânia, em que ia se precipitar. Era as vésperas da insana condição, que daria ao mundo eterno os Hinos da lúcida loucura – que milhões de leitores (fora do Brasil) compulsam febrilmente extasiados.

A permanência do seu lirismo e o sentido profundo de seu canto encantam.

“Os poetas são como os sacerdotes do deus vinho, que de alma em alma, de país em país, de poema em poema avançam pela sagrada noite sem fim”. Na mesma elegia em que chicoteou o humano ordinário, a idiotice negocial, ele mostrou o caminho do poeta. Pois não importava a ele que sua visão lírica profunda, sua tarefa sublime, sua voz sem eco na época não fossem compartilhadas pelas pessoas absorvidas em seu comércio e indústria alienantes. De reificados valores presa.

“É somente na profundeza do sofrimento que ressoa o canto vital do mundo”, disparou Holderlin, em outra elegia.

Felizes os tempos que disponham de um poeta para valorizar o humano, desalienar e desreificar a vida. E lançar (como vômito e dádiva) o canto vital que devasse a escuridão humana, amordace o sofrimento, preserve a consciência da beleza verbal e afirme ao cosmos: nada do que seja humano me será estranho. Em nenhuma medida.

Aos poetas – dixit Holderlin, compete a fundação do que haja de permanente e humano no mundo, o que seja de grato à vida. Os poetas fundam o mundo, a cada poema. Não são os homens práticos, banqueiros, filósofos do imediato, políticos ou moralistas que vão descerrar a real face e papel da humanidade. São os poetas os fautores, os fazedores por excelência do humano, mesmo demasiadamente humano.

 

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