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CINZA E NADA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 18 Dezembro 2018 20:29

Trevas passadas.

Cinzas por vir.

O escuro ainda vem.

Olhos que a veem morrem.

As cinzas do porvir

estão perto de nós.

É nós?

 

Só o nada não tem

não faz cinza.

Só a eternidade do nada

é viva. E sábia.

 

Só o mar que é morrer

sabe da cinza e do nada

(irmãos que se amam, talvez).

 

Árido labor (de grã amante)

encontra sede em outro lábio

(como se fosse maná ou manhã).

 

 

 

 

O obstinado (e rigoroso) canto

martelo santo, tamboril de encanto

férreo e etéreo do sabiá

como arrulho de flores de setembro

reencanta a paisagem, soa no ocaso

como melodia escura

porém cria o amanhecer

a cantoria.

 

“Cada manhã traz verbos irregulares”. Auden

 

Aprendo o som da manhã de Água Preta

com os pássaros (ajoelhados nos cajueiros)

escutando o lábio da árvore sabiá

(o canto do cair da folha ou rumor de rosa abrindo).

 

Ou sentindo o som do sol no olho rural

luz penal que absolve o mundo de toda dor.

Ou graves sombras indo embora vendo o som do amanhecer.

 

A verdade não vive do rosto.

Se alimenta da máscara.

 

O que é mais real?

Narciso ou rosto de água?

Um homem ou beleza líquida?

Eu sei-o.

Hei de morrer seivando, sentindo

cantando (gema cigarra do eucalipto).

Escutai-me, vós, que não morreis

mas não cantais. E invejem-me.

 

Em cada erva, asa, pedra, sino estou.

Estáis? Onde?

 

Eu me voo (o espírito)

mas ficam pássaros cantando

(pois todos são um e eu sou outro).

 

É a voz da luz na garganta

do aroma, na boca da beleza.

 

A um canto o eco de outro se reunirá

pássaros imaginários à fantasia do meu ouvido.

 

 

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