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Prezado Poeta Guilherme Wanderley PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 27 Agosto 2013 18:39

Rilke, dirigindo-se a um jovem poeta (ou iniciante desse ofício vital, que é a poesia: não só uma via para conhecer o mundo e a vida, pelo prisma da beleza estética, mas para reconhecer-se a você mesmo, pelo ângulo do reflexo que a palavra poética causa na alma) seriava algumas experiências prévias necessárias, embora não suficientes, cuja vivencia embasava a escrita da poesia, pelo poema. Não um receituário técnico ou formal, mas ideológico, fundado na vida prática, que não listo, por ser já um lugar comum.

 

 

Entretanto, nesta carta a Guilherme Wanderley – jovem e decidido poeta – serio alguns aprioris, sob os quais se baliza o escritor na composição do poema que expresse a “substância” poesia.

 

RAÇÕES DE VIVÊNCIA LÍRICA DO SER POETA

O poeta (ou candidato a tal) precisa sentir uma manhã de setembro, com seu sal e suas cores solares, além de olhar o luar de maio; precisa sondar a vigília das abelhas no cálice das flores, além de olhar rosas ao entardecer; necessita escutar folhas caindo, numa tarde depois do verão e tocar o rumor de nerúfares (libidinoso e macio) no meio do açude, bem como embevecer-se com o espelho móvel das ondas do mar de Boa Viagem; meditar sobre a brevidade ardorosa da vida e a perenidade da arte; olhar o orvalho se depositando numa folha do amanhecer ou rociando a erva sobre a que Whitman  caminhou, ao lado de Thoreau.

Precisa o candidato a poeta beirar a melancolia e capturar o cone de cores do crepúsculo com a paleta ou a geometria da alma, assim como observar o carinho das borboletas no ato de extrair o néctar da papoula. Sobretudo, saiba Guilherme, que o que move o poeta não é a inspiração projetada por estados de felicidade ou sentimentos de alegria, amor ou dor, tragédia, revolta. Isso são limitações. A vida, lá fora, passa no filtro da alma e o que fica recebe a forma poética. A forma? Sim, porque a poesia não está na mensagem mas na forma dessa mensagem.

 

 

POESIA É REPRESENTAÇÃO OBJETIVA DO REAL?

 

Ou seja, a obra de arte poética não necessita representar (ou denotar) algo objetivo, externo, um referencial do mundo real (que não se confunda com o correlativo objetivo de Eliot). O poema não deve se referir a qualquer coisa, mas a valores, uma composição de signos (palavras ou ícones) que por sua vez é o somatório ou o resultado de referências a objetos. O poeta deve criar imagens e não enunciados declarativos ou assertivos, por mais retóricos que sejam.

 

POESIA COMUNICA?

Anote, Guilherme, que a poesia serve mais para nos compreendermos do que para sermos compreendidos. O poeta escreve antes para si do que para o outro. Isso diz respeito à lide da comunicação no poema, que chamo à colação.

A palavra é signo e signficante. Ela é signo artístico (no poema-conhecimento) e lingüístico (na transmissão de conhecimentos). Em seu uso normal, a palavra (não poética) serve à comunicação, visa narrar um acontecimento ou fato ou disposição (do espírito ou da carne), exprimir um sentimento, descrever um objeto (cotidiano ou científico), estabelecer ou induzir no leitor ou ouvinte um comportamento. Aí a linguagem é signo-instrumental, que serve a um fim externo (de comunicar).

Em síntese, o significado da obra de arte como tal (poema no caso) não consiste – ou se resume e se completa na comunicação. O signo artístico (a palavra no poema, a pintura abstrata ou não na tela) diferentemente do signo comunicativo não é servil, isto é, não é instrumento da linguagem. Não comunica coisas, mas exprime algo, o que é diferente. E essa diferença faz a boa poesia de hoje (desde fins do século 19) e cria a pintura moderna (cubista, etc). Daí, porque um poema não é exprimível em outro. Esse outro ou o substituiria se fosse um resumo – ou seria uma mera paráfrase, comum, prosaica, ou mesmo um plágio.

À poesia move o desejo quase libidinal da expressão, mas prevalece aquilo no sentido de energia criativa (que ocupa um lugar, recalcando outros). Energia da libido, a que opera uma metamorfose, no caso através do médium da palavra.

 

POESIA É LÓGICA OU EXIGE TAL

DISPOSIÇÃO OU ELEMENTO?

Os poemas são objetos estéticos e enquadram-se numa ordem de sentido que não é a da lógica ordinária, prática, nem da linguagem estrita, ao nível da comunicação. Porque a poesia é a exteriorização da experiência vivida como qualidade estética.

 

 

 

 

 

POESIA É OU EXIGE EMOÇÃO PRÉVIA?

Então, onde fica a famosa emoção do poeta, aquela que possui uma pessoa e a leva a fazer na hora um poema? Decerto, qualquer escrita ou escrita psíquica traz uma cura, opera uma condição catárquica.

Mas a arte poética é linguagem, porém linguagem particular, especial (expressiva) não dita, mas adquirida, construída, cujo fim é chegar à emoção artística (ou catarse). Nesse sentido, as emoções em vez de permanecerem internas, presas, tornam-se meios expressivos, se o eu ou a voz poética operar a metamortose do significante, elaborando o poema extraído da vida e filtrado pela alma do poeta. A expressão, através da arte poética, cria a emoção artística ou estética (diferente da emoção comum) que é captada, recolhida, fruída pelo leitor ao receber a mensagem significante, nessa forma particular.

 

 

AGORA O QUE É A POESIA?

A poesia é um poderoso instrumento de comunicação, comunicação consigo mesmo, no sentido de “abater”  a extensão dos conceitos (representativos do mundo, da realidade em nós) e atingir a compreensão máxima de si. É um caminho para conhecer-se a si mesmo.

É linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível, reza Pound. A palavra em sua voltagem máxima de sentido, indicado pelo arranjo dos significantes no papel, o que gera uma usina de matáforas e move os dínamos da voz poética.

A poesia também se caracteriza por reivindicar uma liberdade de expressão máxima, que a linguagem de uso literal não possui, conforme Haroldo de Campos.

Para Suzzanne Langer: os enunciados poéticos estão para as asserções objetivos ou votadas à realidade comum assim como os pêssegos visíveis numa natureza morta para um prato de sobremesa.

Pontua o poeta e cronista, Francisco Bandeira de Melo: a poesia faz da linguagem um fim em si mesmo.

 

 

 

DIRETO PARA GUILHERME

O poeta não deve (nunca) ter medo de lidar com as palavras, especialmente no momento azado de fazer o poema (ou do poema fazer-se, o que é o mesmo). Deve encarar aquela luta diária, a que Carlos Drummond de Andrade recomendou-se.

O jovem poeta (como você) – o que inicia o caminho poético convicto – deve estar atento e consciente não só do poder inequívoco, mas do poder secreto da palavra.

 

JOVEM E POETA

A poesia de Guilherme Wanderley, cujo sobrenome – já ilustre – tem como alfa e ômega duas letras clássicas de qualquer alfabeto W e Y, é surpreendente, prefigurando um alto poeta (nada a ver com a altura física) e configurando a certeza e a confiança na poesia do Século 21.

Guilherme é surpreendentemente culto e sensível a problemas da vida e do mundo, para a idade, o que revela a influencia poderosa dos pais Alexandre Santos (atual Presidente do Clube de Engenharia de PE e da Academia de  Letras e Artes do Nordeste) e da mãe, Adelaide Rego, que mereceu um soneto belíssimo.

Poema como: A vendedora de máscaras, Problemas, Novos amigos, O elo entre o humano e a alma, Venham todos para o barco (o barco da vida, metáfora que em Roma antiga representava o estado); www.mundomoderno.com, Utopia (poema concreto); Autobiografia de um vampiro, metáfora impressionante do Haiti, Iraque, Afeganistão, de metrópoles tentaculares, como São Paulo, Nova Iorque; Funk das Cômbi, Beautifool (do topos carpe diem), Demagogia, Confusão, De um filho para a mãe, Devaneio dantesco (alto poema); Desilusões amorosas, Sacal, Vazio, Dias de Mormaço são poemas tutelares.

Mas, seleciono: Dias de mormaço, De um filho para seu pai, Coisas deste mundo impossível, Paixões póstumas, As eleições,  Meus oito anos, Negação e problemas (em que a perícia no uso de rimas internas é lição para muitos): seleciona-os como poemas capitais da jovem poesia brasileira, a poesia do século 21.

É uma poesia que carrega as concepções, o sabor, a revolta (jocosa mas séria), a imersão nas gestas e a visão que caracterizam e marcarão o século 21, suas primeiras décadas.

PRIMEIRO LIVRO, título feliz, é um livro da primeira, Guilherme!

 

 

 

 

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