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SOBRE UM CORAÇÃO DE AREIA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 27 Agosto 2013 18:46

Ângelo Monteiro

“Coração de Areia”, de Vital Corrêa de Araújo, em cujo título se conjugam o clássico órgão do sentimento e a idéia do barro (areia) como constituição do homem, parece um sinal de oposição à onda cientificista e tecnicista dominante, como a única esperança sobrevivente aos homens ocos de sua verdadeira substância: mais do que a racionalidade, a sua própria capacidade de resistir ao tempo e de sobrepor-se à finitude, em seu pulsar agônico para o eterno. “Desafinado coração/imperfeito veículo dos meus dias”.

 

 

 

A esse “Coração errante e andarilho”, e somente a ele, deve o homem a sua única plenitude: a poesia que, permeando toda imperfeição, aspira à superação do contingente com sua permanente promessa de utopias. Dessa forma, “Coração de Areia”, em seu léxico de sonhos, reafirma, pelo poder de suas metáforas, a existência do poeta como demiurgo que, através da memória dos poetas mortos, além dos vivos, reassume a sua própria condição de contemporâneo de todas as linguagens. De Neruda a Borges. De Joyce a Eliot. De Nazin Kimet a Drummond.

 

Vital Corrêa de Araújo, como poeta culto que é, mas sem negar o espontâneo, mantém em “Coração de Areia” uma unidade poética que demonstra, ao mesmo tempo, a maturidade do homem em relação à linguagem, e a capacidade adolescente de sonhar o mundo. Pelos motivos por nós invocados, “Coração de Areia” é, por todos os títulos, um livro digno de ser indicado à publicação, por este Conselho Editorial da FUDARPE.

 

Ao Coração, a única

esperança dos homens ocos.

 

 

Ao coração marinheiro de Neruda

ao insondável coração de Borges

ao dublinense coração de Joyce

ao coração escocês de Edgard Powell

ao coração sem alarde de Eliot

ao coração vivo de Vinícius

Ao coração guerreiro de Ezra

(que repousa numa baixela trácia)

ao errante coração de Homero

ao romano coração de Virgílio

ao azul coração de Gagárin

ao coração vermelho de Nazin Kimet

ao coração pernambucano de Cabral

ao coração gitano de Lorca

ao tão grande coração de Drummond.

 

 

este CORAÇÃO DE AREIA

Poemas

 

 

Por Vital Corrêa de Araújo

 

 

Recife/94

 

 

 

O QUE É O CORAÇÃO?

 

A Murilo Gun, Filho e prodígio que encenava o poema na Escola Conviver

 

 

O que é o coração, além de ser

um órgão oco e muscular, habitante

da cave do tórax e bebedor

de sangue – esse vinho tinto e sonâmbulo

que noite afora rege as sinfonias do corpo

e nutre de imagens nossas fantasias imperdoáveis?

 

Que é o coração, além de ser

essa bomba vital, maestro crucial

que são o ritmo cardíaco

de sua batuta comanda

a espécie e a odisséia humanas?

 

Coração, casa velha, solitário caçador

catre de emoção, pátio incansável

turvo leopardo, andarilho rubro

arroio louco, oásis súbito

desatinado amigo, imperfeito parceiro

terra inútil, músculo vazio

noturna e covarde ficção, dínamo baldio

cofre, nave, grito, quimera incurável

guerra sem armistício, canção.

 

 

O POETA VITAL

 

 

 

Vital Corrêa de Araújo é o grande feiticeiro da poesia urbana. O arqueólogo das gavetas. O teólogo dos arquivos. O carimbador das manhãs. O grande místico do caos civiliado. O profeta do Messias de plástico. O biógrafo do abismo suburbano. O pescador do rio de argamassa. Da maré de asfalto. Do peixe de amianto. Dos caranguejos de neon e vidro.

O pastor das engrenagens míticas. O maestro das praias octaédricas e das chuvas pálidas. O retórico do sol de jade. Da lua de polvilho. O escultor da seca. Da eternidade esquálida. Do branco extinto. Do edifício  de carne. Da avenida nua. Do pássaro sem fuselagem. Das amebas sânscritas. Dos brasões de fogo. Das bananas de fio e pavio. Da liberdade de alumínio. Da paz posta. Da justiça de óculos. O oráculo da alma exausta. Do universo devastado. Do beco olímpico. Da trilha sonora. Do catecismo de pedra. Do travesseiro de zinco. Cantador dos punhos nagasaki. Da rosa atômica. Da natureza morta. Bebedor do vinho faraônico. Comedor de pães cônicos. Escritor de livro aceso. De poesia seca. Do epitáfio de Deus. Do silêncio vivo. Da palavra nômade. Cultor do sopro de barro, da colméia de baunilha. Do azul melancólico Cantor do rosto de Narciso. Da luz de Dioniso.

 

 

Paulo Bandeira da Cruz

 

 

GESTA PERNAMBUCANA – UMA EPOPÉIA

 

Edgard Powell

 

Como o poeta Sílvio Roberto de Oliveira salientou na sua matéria O PROCESSO VITAL, escrita em fevereiro de 1985, a poesia de Vital começou à base do antipoético, na sua leitura (compulsória) de maçudos relatórios pejados de números, de denúncias, de premissas, muitas vezes falsas, e decisões, poucas vezes justas, no seu indefectível cotidiano de burocracia dos órgãos fazendários do Estado. De Pernambuco, Amazonas, Paraíba, Rio Grande do Norte.

Só um privilegiado poeta nato poderia arrancar poesia dessa insípida realidade. E foi o que Vital conseguiu, como resultado inscrevendo-se (“por brincadeira”, ainda no dizer de Silvio) em concurso de poesia no Sul do País e logrando uma das primeiras colocações.

Os seus dois livros já publicados (TÍTULO PROVISÓRIO e BUROCRACIAL) revelam as origens da sua busca e do seu artesanato, firmando-se, desde os primórdios, na originalidade da forma, no inusitado (quase agressivo) das fórmulas e nas temáticas que, imagino, nunca haviam sido abordadas antes na poética brasileira.

Junto à análise de Sílvio, os textos divulgados na imprensa local, de autoria dos poetas César Leal (TEMPO DE POESIA) e Paulo Bandeira da Cruz (UM POETA DEFINITIVO), continuam atualizadíssimos, nada obstante o tempo decorrido e o constante enriquecimento do poeta, através das suas leituras e pesquisas, o que me faz acrescentar à lista formulada por Paulo, os nomes tutelares de João Cabral, Neruda, Éluard, Verlaine, Elizabeth Barret, Borges e tantos outros.

Acho que as análises das três pessoas já mencionadas são inteiramente judiciosas e se constituem em excelente ponto de apoio para o conhecimento e julgamento da obra de Vital Corrêa de Araújo.

 

* * *

 

Agora Vital, em sua percuciente e fértil trajetória, está longe da época em que glosava os papéis burocráticos, se bem o  fizesse com verve e talento. Desceu à arena, à realidade diuturna; substituiu as metáforas engraçadas das fugas pelas ressonâncias que se propagam da humanidade, nas suas lutas ásperas e dolorosas, às vezes com a esperança amordaçada.

Foi assim que Vital chegou ao canto límpido e puro da GESTA PERNAMBUCANA – Prêmio Eugênio Coimbra Jr., 1984, dos Prêmios Literários  Cidade do Recife. Com a menor bolsa financeira do Brasil.

Foi assim que o poeta assumiu-se menestrel e se achou em condições (e como estava!) de cantar para o seu povo a gênese de sua cidadania.

Usou o canto épico, descritivo, à maneira de Camões, de Homero, de Virgílio, de Neruda no seu CANTO GERAL DA AMÉRICA.

Toda a epopéia das refregas do período holandês desfila em rica visualização ante os olhos ávidos do leitor, desde o despontar das caravelas invasoras no horizonte atlântico à rendição formalizada na Campina do Taborda, com os sinos do Corpo Santo e de São Francisco repicando alvíssaras.

E tudo isso sem falsa patriotada, sem omitir o benéfico e realmente progressista período nassoviano (“sol – Nassau”) – gigante que deixou suas pegadas, para sempre, no solo pernambucano, e emprestando traços de lirismo e sensualidade à epopéia, no módulo ANA DE AMSTERDAM, e dando, assim, o toque de lenda e mistério à História – saturada de tantos heroísmos, tanto retinir de armas e tantos relinchos de corcéis.

 

Edgard Powell

 

Recife, 14 de agosto de 1990

 

Prefácio à Gesta Pernambucana e texto lido no teatro Santa Isabel, durante a entrega do Prêmio, com a presença do Prefeito Joaquim Francisco, do recém-eleito Marcus Vinícios Vilaça à Academia Brasileira de Letras, de Marcus Accioly, César Leal, e do Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, extraordinariamente reunido para a solenidade, com toda a Orquestra Sinfônica.

 

(da organizadora)

 

SOBRE AS GRAVURAS DE LADJANE BANDEIRA

 

 

Raro na história brasileira um período tão rico de episódios de esplendor e tragédia, como o da dominação holandesa do Nordeste. Ou tão importante do ponto de vista social ou cultural, como esse em que, em terras de Pernambuco e das capitanias confinantes, entraram em contacto tantos grupos étnicos e culturais diversos. Na colônia ainda jovem, desenrolaram-se aos olhos das primeiras gerações de brasileiros de vária cor, aparatosas e terríveis lutas navais; batalhas terrestres das quais os campos estavam, às vezes, cobertos de canaviais e as casas­ grandes e capelas eram às pressas transformadas em fortins; cercos de arraiais, cenas de cidade e de corte européias transplantadas quase sem modificação para ambiente tropical; casas de sobrado e palácios; as primeiras grandes pontes da América e os mais antigos projetos de urbanismo; assembléia consultiva; teatro de cômicos franceses; pegas de touro e carvalhadas; casamentos de flamengos com sinhás brasileiras; conversões de hereges.

Pintores holandeses contemporâneos fixaram na tela, na aquarela e na gravura várias dessas cenas. Por muito tempo depois, modestos pintores anônimos conservaram o interesse por episódios tão dramaticamente vivos. Ainda durante a dominação holandesa, refere o autor da História da Guerra de Pernambuco que João Fernandes Vieira "baseou o melhor e mais engenhoso pintor, ao qual mandou pintar em dois grandes painéis esta batalha dos Guararapes e a outra que se seguiu dali a dois meses... Como também mandou pintar a batalha das Tabocas e a da casa-forte de D. Ana Pais, na Várzea". O mesmo cronista menciona que no painel da segunda batalha dos Guararapes, Vieira era representado na ação de investir o boqueirão e apoderar-se da artilharia holandesa.

No século XVIII, os feitos de armas não foram esquecidos. Conhecem-se dos primeiros anos desse século (1709) três painéis mandados pintar pelos vereadores da Câmara de Olinda, representando cada uma das batalhas maiores da guerra contra os holandeses (conservados no Museu do Estado, no Recife); um que existiu em casa portuguesa e foi adquirido e doado ao Museu Histórico do Rio de Janeiro, figurando a segunda batalha dos Guararapes, datado de 1758; um no forro sob o coro da Igreja da Conceição dos Militares (Recife), representando o mesmo episódio, datado de 1781 e dois outros, apresentando as duas batalhas, que Pertenceram à Igreja de N. Sra. dos Prazeres dos Montes Guararapes (hoje no Instituto Arqueológico Pernambucano) e datados de 1801. Há, ainda, na Igreja dos Santos Cosme e Damião, de Igarassu (Pernambuco) um painel (de 1729) me­morativo de episódio ali ocorrido durante o domínio holandês.

Depois disso, com duas ou três exceções (das quais a mais conhecida é a tela de Vitor Meireles), o assunto foi esquecido. Retoma-o agora Ladjane, jovem pintora pernambucana. E retoma-o com felicidade, ajuntando aos retratos dos heróis da Restauração - uns baseados em desenhos contemporâneos, autênticos, outros em pinturas imaginosas, que aliás remontam ao século XVIII - alguns desenhos em que fixou momentos de lutas ásperas no mar e em terra: o bombardeio do Forte do Mar ( 1630), a batalha de Oquendo-Pater nos Abrolhos (1631), a defesa da trincheira de Tejucupapo, guarnecida por mulheres (1646) e as duas batalhas dos Guararapes (1648 e 49).

Esta Coleção de gravuras de Ladjane é boa mostra de sua inteligência e arte.

 

J. A. Gonsalves de Mello

 

 

 

A imensa poeta e maior ainda pintora, Ladjane Bandeira, lançou em 1954 o magnífico Álbum do Tricentenário da Restauração Pernambucana. Em 1984 (aos 330 anos do evento), ela se propôs republicar (do álbum só restavam dois exemplares, e ela não dispunha de nenhum,mas forneceu fotos a Vital), encomendando o poema Gesta, para ilustrar às avessas as gravuras .

(Vanessa Cortez)

VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Pernambucano, de Vertentes (1945). Advogado. Curso de História, na antiga FAFIPE, e de Filosofia, na Católica. Auditor do Tesouro do Estado de Pernambuco. Filho de Cláudio Corrêa de Araújo e de Deográcia Caval­canti de Albuquerque Corrêa de Araújo. Casado com a médica paraibana Ivonilde Dantas Corrêa de Araújo. Pai de Cláudio Corrêa de Araújo Netto e Murillo Dantas Corrêa de Araújo (Murilo Gun). Poeta. Livros publicados: TÍTULO PRO­VISÓRIO - Fundação José Augusto/1977 - Natal; BUROCRACIAL - Edi­ções PIrata/1982 - Recife; POEMAS COM ENDEREÇO - Ass. Edit. do Ne./1985 - Recife; Participação em antologias: RECIFE RECITY (Recife, 1977); Antologia SCORTECCI de Poesia (São Paulo, 1982); INTERNACIO­NAL POETRY/1982 - Universidade do Colorado - USA; 50 POETAS DO RECIFE (Recife, 1982); AGENDA 1984 e 1991 da LIVRO 7/Recife; GUIA POÉTICO DA CIDADE DE NATAL (Natal-RN, 1984). 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor – Ed Galo Branco – Rio de Janeiro.

Publicou, com o poeta Edgard Powell e Eduardo Meio, também poeta e artista plástico, o livreto CANTARES A SALOMÃO, coleção de epigra­mas. Edição especial do poema RECIFE DO POVO, pela Prefeitura da Cidade do Recife, na capa do carnê do imposto predial, com tiragem de 300 mil unidades. Prêmios literários: Jornal da Cidade de Bauru (São Paulo, 1975); OTONIEL MENEZES, da Prefeitura Municipal de Natal (Natal, 1976); Prêmio ESCRITA de Poesia Falada (São Paulo, 1983); Prêmio Nacional de Poesia Poeta Chagas Freitas (São Paulo, 1983); Prêmio Édson RÉGIS do PEN CLUBE do BRASIL secção de Recife (Recife, 1984); 'Prêmio Literário CIDADE DO RECIFE - Concurso de Poesia EUGÊNIO COIMBRA JÚNIOR (Recife, 1985). Por 3 vezes o Prêmio da Academia Pernambucana de Letras. Fundou, com o poeta Iran Gama, o jornal-revista FANDANGO. lntegra, como um dos fundadores, o Grupo POETAS DA RUA DO IMPERADOR, e o movimento GERAÇAO DO PÁTIO (de São Pedro dos Clé­rigos, de que é guardião dos livros de atas poéticas); com o poeta Edgard Powell, criou o CLUBE DOS TREZE (cuja sede é o Bar Biscayne, do Shopping Praia Hotel, em Boa Viagem). Poemas publicados em revistas: La Burbuja, Pliego de Murmurios e Nirvana Populi (Espanha), Escrita, São Paulo, InéditoslMG, Nação Cariri (CE), Contexto (Natal), Presença e Cor­reio das Artes (João Pessoa-PB), Encontro, do Gabinete Português de Lei­tura, Pensar, Cultura e Tempo, Fandango, Pirata, Tributos, Fisco e Finanças, e Panorama Literário, do Diário de Pernambuco, todos de Recife-PE. Organizou, com o Poeta Edgard Powell 4 antologias e vários libretos de poesia, com registros de poemas nascidos das reuniões do Clube dos 13, relativas aos anos de 1988,1989 e 1990. Organizou, com lran Gama, Paulo Bandeira e Eduardo Meio, o livro de Arte POETAS DA RUA DO IMPERADOR – Pool/1986, com 35 poetas e 19 pintores. Participou do ÁLBUM DO RECIFE, editado pela Prefeitura da Cidade do Recife, em papel couchê, em 1987, com 70 poetas e 70 pintores. Foi Diretor de Divulgação e Tesoureiro da URB-PE e integrou a delegação de PE ao II Congresso Brasileiro de Escritores, em São Paulo/1986; E Correspondente e Representante no Brasil da REVISTA ELAN - poética, literária e pacifista, editada há 44 anos, em Linselles, na França, pelo poeta Louls Lippens. Livros Inéditos: Ao Sul do Ventre, Lance de Búzios e SOS Esperança. É o atual presidente da UEB.

 

PREFACIO

 

ALGUMAS PALAVRAS COM ENDEREÇO CERTO

 

Aluízio Furtado de Mendonça

 

Quatro autores compõem esta antologia poética: Anna Maria Feitosa, Geraldo Cavalcanti, Selma Vasconcelos e Vital Correa de Araújo.

São quatro vocações intelectuais definidas, com os seus instrumentais de comunicação próprios e os seus universos lingüísticos e emocionais muito bem postos no vasto mundo da concepção estética.

Honra-nos muito o mérito e o privilégio de haver reunido assim na próspera e vitoriosa "Coleção Nordeste", já no seu quarto volume, esses escritores talentosos e admiravelmente criativos, que encontraremos adiante.

Pela ordem alfabética, Anna Maria Feitosa inicia a jornada Iírica que nos encaminhará pelo livro, assim como o mágico, no palco, abre caminhos imprevistos e oníricos para o público sempre atento e encantado com as suas invenções.

E Anna nos diz, logo no pórtico de seu caderno literário, a título de pensamento, um bonito poema em quatro versos:

 

"Eu estava só semente

só promessa

você me plantou

e nem sabe que estou florindo"

 

Os poetas são seres privilegiados, que falam por todos nós numa linguagem sortilégica e eterna, porque eles são imortais. E ela nos volta a fascinar, já no corpo próprio dos seus poemas, quando se anuncia apaixonada:

 

"Anoitece.

O campo úmido revive.

Eu, úmida, floresço."

 

Geraldo Cavalcanti abre o seu caderno com um pensamento de Anatole Fran­ce, em que a solidão humana é a maior presença. Há na sua poesia, como força maior, o sentimento do homem à procura da mulher, da palavra, da verdade e do tempo:

 

"A quem pertence a tua voz, a tua palavra?

A Justiça? De Deus ou dos homens?

Fala, dize pelo menos que amas. "

 

Selma Vasconcelos apresenta-se com um lirismo comedido mas profundo, em que as confissões amorosas se sucedem como um canto-coral que se diagramasse pela permanência do conteúdo, em termos de qualidade literária:

 

"Sem bússolas

sem palavras

sem razões

me farei

passageira encantada

dos teus labirintos

e me afogarei

nas águas revoltas

de teus oceanos,

inocente, indefesa,

submersa. "

 

 

Vital Corrêa de Araújo, chega-nos com uma poesia já publicamente consagrada, inclusive através de recente prêmio literário:

 

"Venho da noite, perambulo

no seu útero, percorro sua face.

Venho da noite, de seus antros

em busca de clarins.

Procuro alvoradas

nas pedras da avenida. "

 

“Seios são canções de carne

que mordem a boca

e encantam

a alma da mão”

 

“São rijos deuses redondos,

para o culto alpino do lábio”

 

Dedicado por Vital à mulher Ivonilde Dantas

 

 

“Tine na caatinga

brava e amarga

a açule musica

de ecos e cactos”

 

Para Marcus Accioly

 

“O papangu pula a liça

e no olho da criança entra

adentro onde cisca e saracoteia

como mulata na praça pública”

 

Para João Cabral

 

 

O leitor terá, em síntese, ao concluir o manuseio interessado deste livro, a certeza de que não perdeu o seu tempo, pelas ressonâncias positivas que permanecerão no seu espírito – ainda por muito tempo.

 

Recife, setembro de 1985.

 

POEMAS

COM

ENDEREÇO

 

 

O ENDEREÇO DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

Everaldo Moreira Véras

 

 

Eis aqui um escritor que se credencia por si. Não precisa de recomendações, a poesia dele é auto-suficiente e capaz de traçar o seu próprio caminho.

VITAL CORRÊA DE ARAÚJO é dos nossos, veio para ficar. Conhece o oficio, seu recado é forte, vigoroso e autêntico, do tamanho do talento que silenciosamente aprimora. Canta a solidão e a tristeza, há sombras no seu pensamento. É intimista, mas penetra na alma humana com fina sensibilidade. Muito longe, no poço do coração, vai buscar a dúvida, a angústia e a lembrança, Diz, no belíssimo canto "VIR":

 

“Venho da noite, perambulo

no seu útero, percorro sua face”.

 

E mais:

 

“Procuro alvoradas

nas pedras das avenidas”.

 

E mais:

 

“Venho da noite trazendo

no joelho a estrela dos andarilhos.

Venho da noite e trago

bússolas de sangue no coração

e na mão o punhal da manha”.

 

 

O outro, "O PAPANGU URBANO", também é excelente, algo de extraordinário. Um poema que envolve tudo: pirueta, circo, avenida, ciranda, beco, molambo, samba e gente. Firmará, decerto, uma página especial na literatura brasileira.

Não tenho dúvida: VITAL CORRÊA DE ARAÚJO será (mais do que é) reconhecido com destaque e louvor no cenário das nossas letras. Já recebeu diversos prêmios literários pelo Brasil afora, mas ainda é pouco, pois o que lhe devemos é a divulgação ampla da sua obra adulta e consciente.

Agora, nesta oportunidade, aparece com 10 poemas, tão-só uma pequena amostra do que tanto produz, sempre cada vez melhor. Intitulou: POEMAS COM ENDEREÇO. Na verdade, o leitor não encontrará endereço algum, há universalidade nas mensagens de VITAL. Sua visão de mundo é bem maior do que ele mesmo poderia avaliar.

Dou fé e assino, embora dispensado seja, pois o Poeta VITAL CORRÊA DE ARAÚJO, repito, não necessita do discurso de ninguém, muito menos do meu.

 

CASA CAIADA, OLINDA, julho/85

 

 

 

(Prefácio ao livro)

VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Pernambucano, de Vertentes (1945). Bacharel em Direito. Agente Fiscal da Se­cretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco. Filho de Cláudio Corrêa de Araújo e de Deogracia Cavalcanti de Albuquerque Corrêa de Araújo. Casado com a médica pa­raibana de Catolé do Rocha, lvonilde Dantas Corrêa de Araújo. Pai de Cláudio Cor­rêa de Araújo Neto e Murilo Dantas Corrêa de Araújo. (Murilo Gun), criador do Clube de Stand Up do Recife). Poeta. Livros publicados: TITULO PROVISÓRIO - Fundação José Augusto - 1977 - Natal-RN e BUROCRA­CIAL - Edições PIRATA - 1982 - Recife-PE. Participação em Antologias: RECIFE RECITY (Casa da Cultura - 77 - Recife-PE); Antologia SCORTECCI de Poesia (São Paulo - 1982); INTERNATIONAL POETRY - 1982 - Universidade do Colorado­ - USA; 50 POETAS DO RECIFE (Recife - 1982); Agenda 1984 a 1991 da LIVRO 7 - Recife; Guia Poético da Cidade do Natal- 1984 - Natal-RN; Revista Poesia - Recife - 1983. Prêmios Literários: Jornal da Cidade de Bauru (São Paulo, 1975); OTO­NIEL MENEZES, da Prefeitura Municipal do Natal (Natal, 1976); Prêmio ESCRITA de Poesia Falada (São Paulo, 1983); Prêmio Nacional de Poesia Poeta Chagas Freitas (São Paulo, 1983); Prêmio EDSON REGIS do PEN CLUBE do Brasil - Secção de PE (Recife, 1984); Prêmio Literário CIDADE DO RECIFE de Poesia - Prêmio EU­GÊNIO COIMBRA JONIOR. Fundou com lran Gama o jornal O FANDANGO. Integra, como um dos fundadores, o Grupo POETAS DA RUA DO IMPERA.DOR. Poe­mas publicados nas revistas: La Burbuja, Pliego de Murmurios e Nirvana Populi (Espanha); The Poetry (USA); Escrita (SP); Inéditos (MG); Cultura e Tempo, Fandango,

Pirata, Tributo, Fisco e Finanças e ENCONTRO (Gabinete Português de Leitura ­Recife) de Recife-PE: Presença e Correio das Artes (João Pessoa); Nação Cariri (CE) e Contexto (Natal). Editor do ESPAÇO CULTURAL do Diário da Manhã do Recife. Foi Diretor de Divulgação e é atualmente Tesoureiro da União Bra­sileira de Escritores - Secção de Pernambuco. Integrou a delegação de Pernambuco ao Congresso Brasileiro de Escritores - 1985 em São Paulo.

Livros inéditos: AO SUL DO VENTRE, LANCE DE BÚZIOS e GESTA PERNAMBUCANA.

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO DO 7º LIVRO (Datilografado)

 

Vital Corrêa de Araújo

 

DA TEORIA DO CLUBE

 

 

Avesso a escola, campanhas, cochichos, panelinhas e companhia; alheio aos pruridos da poesia solitária, subornável por natureza, segue o CLUBE DOS TREZE o caminho do poema, concreto, espontâneo, eivado de sensual humanidade e palmilhado de esperanças, sonhos, utopias e realidades, as mais drásticas ou 'soft', para usar uma expressão da moda.

Com a consciência talhada na necessidade de cantar e ser humano – nem mais, nem menos do que humano cantor - abrimos mais um sulco em direção ao fecundo veio da verdadeira poética do fim do século, num exercício de prospecção dos tesouros literários que o terceiro milênio irá escavar, com a necessária finura.

Os fanados conceitos - ou jaulas - ocidentais encarceradores do poético, renegamos: liberdade e apego à tradição é nossa dialétIca mais severa, e nosso lema último é o respeito aos tempos (idos e vindouros), às coisas do espírito e da carne. Reverenciamos o passado sempre, o futuro necessariamente e, especialmente, o presente de todas as culturas poéticas, com vasto destemor e fervor profundo.

Estes livros vários -e quase infinitos, pela progressão sem peias e pelo conteúdo aberto - são mais do que registros ad-hoc de impressões e sensações cotidianas e individuais; são mais do que frutos da espontaneidade poética mais acerba, mas produtos de uma conjunção especial, para não dizer feliz ou irrepetível: vastas sextas feiras, entre doses de uísques em vário bar, tardes indefesas e conversas de poetas sobre poesia sete anos a fio. Mais: são estes três tomos pura poesia coletiva ou resultados de uma consciência grupal, induzida pelo ambiente de cada encontro e pela memória acumulada das reuniões passadas.

 

 

DE UMA CERTA JANELA DO SHOPPING PRAIA HOTEL

De uma certa janela do SPH, que chamamos de JANELA DE AMSTERDÃ, exatamente às sextas feiras, assistimos o fluir do tempo (espetáculo que poucos apreendem, com sua carga de beleza fugaz e eterna, a não ser por Viníctus, de quem bebemos o uísque predileto (old eight), em goles lentos); e contemplamos a tarde, flagrada num átimo de vida real desse mundo transitório, a nossos olhos oferecida e estirada, como o gato de Morfeu, na rua das desilusões perdidas, junto ao escoar das águas passageiras do poema capturado na tinta de um instante, sem retomo, explicação ou plano.

 

 

DA PRÁTICA DO CLUBE

Este terceiro tomo de poemas do CLUBE DOS TREZE, executados nos bares do Recife e nas tardes de Boa Viagem, sempre às sextas-feiras (ou nas quartas, dia especial, porque divide a semana ao meio), representa a ação poética de nove meses (ou seja, o tempo de uma gestação, o que lhe confere uma aura própria e dota- o de um certo ar de humanidade e mistério, essenciais à respiração poética).

 

 

DO INVENTÁRIO

O inventário é pródigo: 87 poemas, sendo 80 individuais (ou quase) e 7 coletivos.

Ressalte-se que a poesia coletiva, tal como o renga japonês, é uma das treze metas do CLUBE, e está sendo dirigido um espectral esforço para alcançá-la a curto prazo (ou seja, na próxima sexta).

A poesia coletiva e de circunstâncias, mas nunca improvisada, é essencial à nossa prática.

 

 

 

TEMÁTICA

É admirável - e mesmo desconcertante - a diversidade dos temas, ou seja, sua variedade quase anárquica, o que reflete a ordem de liberdade do CLUBE: cada um faça o que lhe aprouver, der na telha, decidir, inventar, resolver fazer em matéria poética.

Temas: a Bíblia a história, os carnavais, a Revolução de 30, o Bairro do Recife (ênfase à L'Etoile, ao art nouveaux, aos edifícios 'bolo de noIva', às casas, quase altares, arruinadas ou substituídas pelas aras do lucro e arranha-céus bancários ou infernais armazéns modernos); as Igrejas de nossa devoção barroca, ensaios sobre o armagedon, Chopin, pianos, morenas, a mitologia grega, o mar, o amor, a rua, a eternidade, a paixão, o relâmpago, a guerra do golfo e outras guerras.

Mas, pergunta o leitor acidental: como são expressos na página, em vozes cinzelados, esculpIdos em palavras, paramentados, no verbo talhados esses temas, ou seja, em quais formas os encarceraram?

 

Formas: odes, elegias, definições, dísticos, canções, tentativas de rubai, noturnos, madrigais, exercícios de hai-cais, cantos, notas, ensaios, cartas, fugas, sambas, cânticos, tercetos desencontrados, mensagens, epigramas, reflexões, gritos, silêncios, confissões...

 

Recife, 91/ maio

 

NOTAS:

 

  1. Às sedes, acrescentamos, em adendo às apresentações dos tomos anteriores: mais duas: o Bar do PALITO, próximo à igreja de Piedade, hoje demolido pela sanha urbanística, e a SEDE atual: SHOPPING PRAIA HOTEL, cujos proprietários, empresários de apurada visão cultural, homenagearam o CLUBE DOS TREZE, inaugurando no Bar VOLTAIRE, anexo ao Restaurante JANELA DE AMSTERDÃ, um MURAL DE POESIA.
  2. Agradecemos a Jair Jerosvalki (filho de Salomão) e Fernado).
  3. Outra atividade do CLUBE é a implantação e manutenção (gratuita) de Murais de Poesias a exemplo dos dois já existentes:

 

Shopping Praia Hotel e Feijoada do LEOPOLDO, ambos em Boa Viagem e outro em implantação, no ESPAÇO PASSÁRGADA.

 

 

Edgard Powell

NOTAS BIO-BIBLIOGRÁFICAS

 

 

Brasileiro e escocês, pernambucano (Edimburgo - Escócia e Sirinhaén), nascido em 1923, casado com a poeta R. Valente, residente em Boa Viagem - Recife.

 

Livros Escritos - POESIAS - Belém do Pará, 1963; POEMAS DESVAIRADOS - Recife, 1972; SOB O SIGNO DA SAUDADE - Recife, 1986; CANTO DA SOLIDÃO – Recife, 1986; LITANIA - Recife, 1987; POEMAS CONTEMPORÂNEOS - Recife, 1991; O LIVRO DE JOAN MADOU ­Recife, 1991; POEMAS QUASE OBSCENOS - Recife, 1992; COLETÂNEA DO CLUBE DOS 13 (VOLUME 1, 2 e 3, publicados pelo ESPAÇO PASÁRGADA, editora Ana Luiza Freitas.

 

COLETÂNEA DE POEMAS: CANTARES A SALOMÃO. RESPOSTAS A FRANÇOIS VILLON. JOGO DE DAMAS (Edwel e Marhel) e 10 livros (1.100 textos) do Clube dos 13, com poemas de Lenora, Eduardo MeIo, Luiz Nery, Nestor Powell, R Valente,. Selma Vasconcelos, Mário Hélio, Weidson de Barros Leal, Ma­ria de Lourdes Hortas, Lorena Bessa e Vital Corrêa de Araújo, entre outros.

 

 

 

Vital Corrêa de Araújo

 

APRESENTAÇÃO DO LIVRO CLUBE DOS 13

(Coleção Pasárgada)

 

 

Abril de 91. Início de minha peregrinação na caminhada em meio a essa gama alucinada de poetas e mágicos do pensamento, até "O CLUBE DOS TREZE", capitaneado por Edgard Powell e Vital Corrêa de Araújo.

Aos poucos, tomei conhecimento de que o clube e seus representantes executavam estranhos rituais para criar poesia:aportavam em bares e só exorcisavam seus demônios entre whiskeys, vinhos, licores e coquéteis" .

 

Naveguei então neste barco místico de forma diferente-criando um porto seguro para abrigá-los dentro do Espaço Pasárgada, inaugurando o bar " O Beco", certa de que, sob as bençãos do poeta da Rua da União, eles cantariam a vida, recriariam o mundo e falariam de dúvidas e do amor, da lua e da mulher, pelo menos em sítio adequado.

 

Ainda sob a inspiração de Bandeira, recolhí as composições poé­ticas do clube reunidas em cadernos e escritas em guardanapos, a partir de 1986. Nesse momento, edito a Coleção Pasárgada - Clu­be dos Treze - "Poesias de Circunstâncias", realizando, assim, o destino da poesia, que é, a meu ver, o de levar às pessoas a emo­ção, a criatividade, a força e o sentimento que existem no Ho­mem-poeta, não importando o século ou o local em que viva.

 

Com a certeza de que é o verbo o início e a realização de todas as coisas, aqui está o primeiro volume das composições poéticas do "Clube dos Treze", como mais uma contribuição do Espaço Pasárgada à poesia.

 

Recife/setembro/1993

 

Ana Luiza Freitas

 

APRESENTAÇÃO AO 9º VOLUME DOS POEMAS

FEITOS EM GUARDANAPO DE BAR

 

Vital Corrêa de Araújo

 

 

 

Edgard Powell sugere que se aborde, nesta introdução ao presente tomo, o móvel do Clube, suas "pretensões", seu programa; propõe que se ressaltem suas raízes medievais, seus laços sonâmbulos com o trovadorismo europeu e também com o milênio que nos tocaia, como um tigre cronológico ou um abismo ametista.

 

OBJETO DO CLUBE

 

Móbil, sim, o Clube dos 13 tem, mas, em certos aspectos, é secreto ou somente acessível aos iniciados ou veteranos, ritualizados na ir­mandade do copo e da pena.

 

 

PROGRAMA

 

E é com base na memória dos brindes e no retrato dos debates da mesa e das intervenções argutas do próprio Edgard, que traço a nos­sa despretensiosa "ação programática" (viva o sintagma tecnocrata), privilegiando, no entanto, o fundo medievo, a raiz gótica, provençal do Clube. Também se faz mister dizer o que o Clube não é, como forma de ressaltar o seu ser.

 

 

IN LIMINE

 

Liminarmente, declaro em nome de todos: não nos move a vaidade ou o intento de estabelecer uma nova modalidade de rima ou criar uma nova poesia, mas apenas trovar, no sentido medieval do termo e na conformidade do nosso sentimento.

 

 

O NOME DOS LIVROS

 

Afora este tomo, outros oito, dois datilografados e seis pré-históricos, isto é, manuscritos, além de alguns libretos (Cantares a Salomão, Livro do Carnaval, etc), formam o acervo de criação do Clube. Os livros, podemos chamá-los, como no século XV, Cadernos de Sons, pois é nosso mister apenas ensoar a palavra, fazê-la duradoura e musical, inteira e mulher, em suma, poesia.

 

 

OS ERRANTES DO RECIFE

 

Errantes, de bar em bar, ávidos de novos horizontes, vagamos, com a inspiração ao lado e o "alaúde" ao ombro, e os nobres donos dos bares nos acolhem em seus castelos de sede, sonho e amizade, em seus palácios de espumas e ilusões geladas.

A terra do Recife é nossa Provença, mas, sobretudo, somos eternos peregrinos de Boa Viagem e do Pátio de São Pedro, onde vamos sempre nos municiar de inspiração, beber a poesia em suas pedras avoengas e, no arsenal de seu átrio secular, buscar a razão de viver e o abraço dos amigos.

 

 

O BAR

 

Não há bar fixo, pois o movimento é a nossa rota, e errar pelas ruas do Recife nossa reta. Munidos não de violas ou luas, pois as reu­niões são vespertinas, mas com o poema preso na garganta do uís­que, e a praça do povo impressa na retina do sonho, dedicamos as sextas-feiras de nossas vida a desfiar, em bares perdidos, os inconsúteis fios que tecem as tenras tardes do Recife.

 

 

O LIMITE

 

O financeiro é o limite. Não há largueza de clérigos, pois a bolsa não é gorda: apenas a pequenez dos salários aposentados garante a continuação de nossa sina. Não há patrocínios, nem mecenas, nem horácios. Não recebemos em panos ou cevada.

 

 

AS MENESTRELAS

 

Existem no Clube, menestrelas e jogralesas, habéis na faina do poe­ma, exímias na liça das glosas e motes, e na, foice das rimas, certeiras.

 

 

 

 

CACHET

 

A nossa paga é o poema, a companhia das Musas (gregas), o encantamento das Palavras (poéticas) e, sobretudo, a brisa de Boa Viagem (brisa mesmo).

 

 

O CARÁTER DA TERTÚLIA

 

Enfim, reiteramos: a nossa tertúlia não é círculo de maledicência (literária ou não), nem é festiva ou reservada; não a povoam terceiras intenções; o poema não é disfarce, máscara ou tenda, mas é a meta, o objeto próprio e último. Também, não somos adeptos da arte pela arte. A esperança é nosso lema. "Nada do que é humano nos é estranho". Elogio mútuo é vedado e o frívolo não tem valimento, no Clube dos 13 (a propósito, somos 7).

Consta dos estatutos, não escritos, mas imutáveis, do Clube, o férreo princípio de que não se usa a mesa como caminho para a cama.

 

 

SOBRE O AMOR

 

Não nos toca o amor platônico, nem ao amor cortês fazemos corte.

Cantamos o amor profundo, profano, o amor do velho lirismo, sem­pre moderno, puro e cheio de máculas e de marias maculadas; o amor que vem de Lesbos, de Samos, de Teos, de Portugal amado, da velha Espanha, da doce França, da eterna Itália, da Inglaterra venerável; o amor da “fremosa sinhora mia e das avelaneiras froridas”. Cantamos mais o desespero (que é eterno) do que as delícias (passageiras) do amor. Cultivamos e cultuamos o amor chapliniano, que não pertence a ninguém.

 

 

ENFIM

 

Enfim, amamos mais o amor do que as rimas.

 

Recife, final de 1990

 

Vital Corrêa de Araújo

 

NOTAS

 

1. Este texto alonga a introdução a tomos anteriores e serve de apresentação a este.

2. Edgard Powell, por motivos de modéstia, que é uma das razões de sua vida, não assina esta apresentação, que inspirou e presidiu.

3. Ao final, segue o texto, do qual este é adendo.

 

EDGARD POWELL

 

NOTAS BIO-BIBLIOGRÁFICAS

 

 

Brasileiro, "cidadão do mundo": das raízes de Edimburgo ao chão pernambucano de Serinhaém onde nasceu talvez em 1923. Economista, casado, residente em Recife. Seu culto à poesia faz congregar à sua volta, uma leva de Poetas Pernambucanos contagia­dos por sua erudição e entusiasmo apaixonado pela arte de fazer, dizer e ouvir versos.

Da produção do poeta destacam-se livros como "Poesias" - Belém­-Pará, 1963 (organizado por seus filhos); "Poemas Desvairados", Recife, 1972, "Sob o Signo do Amor e da Saudade"Recife,1986; "Canto da Solidão", Recife, 1986; "Litania", Recife, 1987; "Poe­mas Contemporâneos", Recife, 1991; "O Livro de Jean Madou", Recife, 1991; "Poemas Quase Obscenos", Recife, 1992.

Edgard Powell acompanhou a.migração da "Geração do Pátio" para Boa Viagem, onde pontifica atualmente o "Clube dos 13", reunindo-­se regularmente em tomo da mesa do "Cais Leopoldo" nome alegó­rico atribuído pelo grupo à "Feijoada Real Leopoldo".

Edgard define-se, hoje, como um ser intensamente debruçado sobre si mesmo, em busca de traços, rumores, nuances de situações que conheceu e sentiu e que nele deixaram profundas sombras, marcas e rotas, que, no poema, emergem em sínteses magistrais, irreconhecíveis como fatos, mas reais, como expressão poética de exacerbado (mas contido) lirismo, iluminando de instinto e humanidade as reuniões do "Clube dos 13".

 

 

Recife, outubro, 1993

 

Vital Corrêa de Araújo

 

 

 

 

 

Nota: As sedes principais do Clube, além da citada, foram o Shopping Praia Hotel, onde o anfitrião era Jair Jerosvalke (filho de Salomão) e Vavá do Bangüê.

Vanessa Cortez

 

 

PREFÁCIO

 

 

Cantadores errantes pelas tardes de Recife, nos assumimos descendentes diretos daqueles da Provença, embora sem a preocupação do “trobar clus ou ric”.

 

Comungamos semanalmente "as pedras maduras da mochila" (Vasko Popa) recolhidas no áspero caminho cotidiano.

 

Não nos situamos como etéreos habitantes do Pamaso, mas andarilhos espertos, espectadores atentos à beleza e às dores dos dias.

 

Destruímos a fugacidade do instante com nossa pena veloz e testemunha: celebramos o vômito -do mar sobre a face de pedra no Porto Hemingway, a carranca risonha das baronesas no Porto Verde, o cristal dos olhos da moça (ou moço) que aporta conosco em cada cais.

 

Exorcizamos os demônios da paixão, saudamos o amor cortês, pranteamos a guerra inóbil, maldizemos os impérios saqueadores do mundo, e, apesar de tudo, invocamos a esperança do homem.

 

Companheiros de espírito, no dizer de F. Pessoa, irmãos de ofício, praticamos a poesia do modo mais lúcido, mergulhado em águas terrestres, marinhas, caipiras ou escocesas.

 

Esta experiência coletiva nos faz mutuamente algemados pelo poema, feitiço a nos perseguir nos acolhedores templos de Baco onde vamos tecendo história.

 

 

 

Selma Vasconcelos

Agosto/1994

 

COMO FUNCIONA O CLUBE DOS 13

 

Vitael Corrêa de Araújo

 

O CLUBE

Variam as sedes do clube dos 13, como varia seu nome. Chamou-se já GERAÇÃO DO PÁTIO, Poetas da Rua do Imperador, Poetas do Porto, e as sedes sucessivas foram (numa série que Borges diria infinita) o Bairro do Recife (São Mateus), O PÁTIO DE SÃO PEDRO (A Barca, o Bar do Carmelo, o Bar BANGUÉ, de Vavá, além da sede sem mesa do Bar do Sargento) e BOA VIAGEM (Real Feijoada do Leopoldo, além das sedes momentâneas do Hemingway's Bar, no Pina; Tucano's, na Aguiar (e Bodds), e, também, na fronteira entre Piedade/Can­deias, o Bar da Curva, sob a marítima proteção de lemanjá divina.

 

O LIVRO

Este livro representa a produção comunitária - e delirante - de um ano, e sucede outro, de 1988, de igual valia, o que demostra progresso (na qualidade do poema) e permanência (na constância do livro), valores difíceis na atual fase da poesia pernambucana e nordestina.

 

A REALIZAÇÃO DO POEMA

Como são realizados os poemas? Necessariamente, numa mesa de bar, rodeados de copos e da azáfama dos comensais, duelando talheres, inventando utopias, na faina da real feijoada e no bate-papo fraterno, ante um ele e ela caprichados.

 

O FLAGRANTE E A INFORMALIDADE ÉBRIA

Flagram os poetas o momento, gravam - e mesmo eternizam - a circunstância. Não são fruto de gabinete, nem servos de protocolos os poemas, nem tampouco resultados da métrica, da rima obsessiva ou da lavra sem vida. Mas, sim, produtos ébrios do improviso sério, conseqüente, racional, alcoolicamente possível.

São produtos da realidade dos bares, da inspiração peregrina, do estalo dos copos, das vivências da mesa e do mundo, que passa de copo a copo, como o sonho passa de alma a alma.

São, os poemas deste livro segundo, seres do instante, captados em palavras permanentes, que fundam o inacabado, pois o poema inaugura o mundo em tomo da mesa e do bar que jamais acaba.

 

POEMAS INCORRIGÍVEIS

 

Cada poema é feito na mesa, à vontade do tema, ao acaso dos fatos. Não criamos uma nova sensibilidade poética, mas uma ébria poesia.

São incorrigíveis, porque instantaneamente expressos, criaturas do instante irrevogável, num processo que, semanal e maquinalmente, se repete, num ritual milimétrico e agradável, e, por que não dizer, escocês.

 

 

RESUMO

Em resumo, são poemas feitos na hora e definitivos, principalmente, porque saem da pena de poetas incorrigíveis.

 

 

À MODA

São poemas à moda medieval. Rastreiam os menestréis, que vagavam de reino em reino, como vagamos de bar em bar, presos, ambos, aos temas eternos da mulher e do abismo, da vertigem e do instinto.

 

O ALAÚDE

Tendo por alaúde o copo, captamos minúcias e humores, sendas e sonhares, peixes e amapolas, e, tais como os menestréis, plasmamos o que passa, transformamos o instante em história, e, no mármore da tinta, esculpimos a memória.

 

ENFIM

Enfim, este livro é a ata de cada instante, a cópia de cada respiração e signo inúmero de emoções, e é a mostra de uma nova forma de poesia, que se faz no Recife. E dela são cúmplices os poetas Paulo Emílio, do Rio de Janeiro; Nestor, de Alagoas e Luizxpto do Pará.

 

Recife, 21 de dezembro de 1989

Vital Corrêa de Araújo

 

NOTAS

  1. Entre os patronos do Clube dos 13, contam-se Villon, Vinícius, Neruda e Lorca, além de Paulo Bandeira da Cruz e Edgard Powell.
  2. Esta apresentação foi feita na mesa, no instante, como os poemas.
 

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