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CÂNTICO NOVO (NOVO CÂNTICO) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Quinta, 01 Agosto 2013 20:02

Cláudio Veras

O poeta que, entre ocupações servis e cargos ou cangas da vida, mantém, ao longo do tempo, a poesia presente, revelando-se sensível e reativo perante os embates da vida, mesmo convertendo-os em lirismo sensual, amoroso às vezes filosófico, bem dá a medida do seu coração (entregue à fera voraz da vida).

Einstein afirmou que a experiência  mais marcante do humano, ou a que mais importância detém, é o mistério.

 
BARES AMAM ÉBRIOS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Quinta, 01 Agosto 2013 20:00

a Edgard, à tarde, a ébrios

 

Ébrios amam bares, neles

sede imortal derramam

 

sob atônita emanação

de hinos atonais

 
NOVOS PARADIGMAS DA POESIA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 01 Agosto 2013 19:55

MÚSICA E POESIA

 

Por mas que tentamos, filósofo ou amadores da metafisica, pessoas cientes de que sua consciência excele, e são potentes à vitória (quase orgásmica) de pensamento sobre si mesmo, é inviável decifrar a existência.

Não havemos de deslindar o mistério dos fenômenos centrais (como a consciência em si independendo do corpo, em minha especial acepção a respeito) que existem fora do orgânico.

 
Escrevi algo sério que pareceu provocativo nas páginas valorosas de O Monitor PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Quinta, 01 Agosto 2013 19:52

Escrevi algo sério que pareceu provocativo nas páginas valorosas de O Monitor: que ninguém no Brasil sabe o que é poesia. Os milhares de livros ditos poéticos dos milhões de (mau) ditos poetas são outra coisa. Outra coisa apenas parecida com poesia. Escrevo muito (mas não o bastante), cerca de 12 a 15 livros a cada ano, desde que me instalei na cela (com cilício) do Mosteiro de São Bento, e agora no Castelo, em pleno acme da colina Quilombo próxima à Magano, a 1.080 metros acima do nível do mar de Boa Viagem onde vivo desde 1960. E onde fica (Av. Jequitinhonha) a Biblioteca Borges com seus (meus) 10.000 livros, ambiente que o artista garanhuense Daniel Santiago diz ser um poema ambiente para visitas dirigidas... de tão estranho, inusitado...e intrincadamente (des)arrumado. Em 1912, publiquei poucos, apenas nove: Ora pro nobis scania vabis, Ave sólida, Bando de mônadas, Crepúsculo do pênis, Kant não estuprou a camareira (foi firula do Lampe, o mordomo) Borges (Jorge Luís, portenho) e Eugénio (de Andrade, luso), Me mostre seu cu, A eternidade é inútil e Silo de silêncio, paiol de solidão.

 
DEPOIMENTOS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 01 Agosto 2013 19:40

Em VCA, a poesia não participante (aparentemente ou não) do mundo e não votada ao próprio umbigo literário, vai às profundezas da imaginação e delas retira a essência da palavra, não do mundo; manipula significantes, desprezando (ou marginalizando) significados: assim se impõe. E esta é real e linguisticamente poesia. Porque poesia lida com palavras e não com ideias (políticas, sociais, sociológicas, filosóficas...)


 

 

Para evitar o tédio, muitas vezes, Vital excede. E chega às raias da violência (linguística). Ele resiste bem à concepção piegas do mundo que embasa os poetas de hoje. O violento lápis deste poeta rasga o véu do mundo – e sua fantasia venal. Abre em épuras e frações de grito a alma do todo.

 

POETA REPUBLICANO

Vital Corrêa de Araújo

A prosa, a forma literária ficção, narrativa sobre a vida, o homem, a sociedade, o mundo, diz respeito ao ser, não em si, mas na situação do e com o outro. Visa à comunidade do corpo. Enquanto que a poesia leva à comunidade da alma. Daí, o fundo filosófico mais profundo, o esteio moral – no sentido não sociólogico – do poema em relação ao texto em prosa ficcional.

O debate, que envolve a questão poesia, desde A república, de Platão, recai no caráter do poético, isto é, se a poesia instrui, representa a verdade, ou só deleita e comove.

Aristóteles, na Poética (350 anos da era antes de Cristo), afirma que a poesia tem a possibilidade ou capacidade de apresentar as realidades universais, traz em si o complexo que envolve a ação humana em sua variada nuance desde a felicidade à miséria. E que “a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela o universal, e esta o particular”.

Para Dante Alighiere (mil e seiscentos anos após o peripatético), a poesia é responsável pela elevação do homem do estágio da dor ao estado extático.

Na Renascença, Sir Philip Sidney em sua obra Apologia da Poesia (que Shelley ampliou) afirma que as imagens poéticas têm a capacidade de tocar nossos corações e nos mover para a ação moral, desse modo amplificando o conceito de catarse aristotélico. Isto é, a poesia vai além das abstrações filosóficas.

Sócrates defende – em A república, através do alterego Platão- que a mimese poética está triplamente distanciada da realidade ideal, concluindo inescapavelmente: os poetas devem ser de imediato – banidos da República, por deletérios, anárquicos, ambíguos, sonhadores, utópicos e viscerais. Quem os (nos) expulsou foi Sócrates.

O que boiou no juízo (de Sócrates via Platão)) foi: como superar os luxos e os excessos (de que poetas são pródigos) no estado ideal (e a paixão, a compaixão, bem como a necessidade catártica)? Para isso foi preciso pensar em (ou um) governo ideal. Sem poetas que saiam do estático (ideal) ao extático, fora de si. Que excedam. Ilimitem-se, busquem o humano em si e não (só) nas coisas. Que visem à essência e não o negócio, à alma não a pele, ao espírito não o corpo. Que busquem a sombra não o feérico falso do mundo. Que mergulhem no velado para esclarecê-lo e fugam de todo o simulacro.

 

 

 

POESIA PURA

Vital Corrêa de Araujo

Fazer poesia sem nada mais que a ideia de poesia é o propósito (único) da poesia não impura. Constitui o desiderato deste (e de alguns outros poucos) poeta hoje. Não sei amanhã, mas o era ontem.

Move-a (a esta convicta e vital poeticidade) o tornar-se surda a solicitações alienantes, espoliadoras, impacientes e exclusivistas (isto é, adjetivas) da vida prática (respiração contábil do balanço do pulmão comercial do homem); esfera em que todos (os ditos humanos de hoje) mergulhamos de pé-cabeça – e da cabeça aos pés – e que nos desumaniza cada vez mais, ao ponto de não mais nos reconhecermos como humanos, strictu sensu, face à bruta competição a que os sistemas econômicos (das coisas, dos objetos e interesses bursáteis) de sobrevivência do corpo (não da pobre ou proba alma) nos impingem, obrigando-nos a pelejar, sem cessar diuturnamente, com todos os meios possíveis, lícitos ou não, geralmente não ou apenas meio humanos. Tudo pelo social, como o jargão. E para que o produto nacional bruto aumente.

Daí, a corrupção generalizada (ou degeneralizada) e crescente, espiralada, crescentemente cúbica ou octogonal porque corrupta em geral; cuja percepção, agora no Brasil, é-nos disponibilizada em maior medida graças à mídia e à conjuntura governamental, a nível federal.

Daí, a violência desembestada, na sociedade civil institucionalizada, a hoste de pedófilos em voga (a vaga de desfile nos monitores de TV e internet), o morticínio sem razão ou paralelo desta época viva e cru tempo. (As empadas de carne humana degustadas involuntariamente em G, acepipe atro, sórdido como a humanidade que o serve. Ó tempo, ó dores, de canibalísticos chefs!

Move a poesia também a intrínseca necessidade de contraposição, além de à linguagem trivial e banalidade da vida prática (comercial), à linguagem fria, seca, inadjetiva, abstrata, porque especializadíssima, da ciência em geral.

Essa necessidade (mesmo imprescindibilidade) da poesia distinguir-se, como linguagem, digamos também especializada, em transcendentalidades (abstratas ou não), própria e não maculada pela praticidade das coisas do mundo (humano ou não), advém do estágio que se vive desde as guerras; provém do estádio criado pelas sucessivas revoluções tecnológicas radicais acontecidas nos últimos cem anos – e aceleradas desde 1990 (fax, celular, internet et pour cause). E se materializa numa condição específica da palavra poética (ser capaz de abranger e tudo digerir poeticamente), situação que denominamos (amigos e inimigos) hermetismo. Que o seja!

Fez-se mesmo (e o é) preciso libertar a poesia da própria literatura (essa amarra tradicionalista, esse sistema envaidecido e rigoroso em não dispensar ou dispersar a tradição). Dar-lhe (à poesia) estatuto ímpar e próprio, independentizá-la ao máximo para livrá-la da roupagem listrada de prisioneira da tradição sem fim (como o é a boa e matemática e lógica tradição); despojar a poesia desse traje secularizado, deslegitimante, substituível (pela penúria de estado a que chegou).

Mallarmé – digamos o representante puro (sangue) da nova poesia – não, nunca, jamais intentou abandonar o significado da palavra (separá-lo) – e dedicar-se ao cultivo da frase selvagem, sacrificando à abstração.

Apenas Mallarmé exigiu não ser o poeta descritor ou explicitador de fatos. Só sugerí-los. Especialmente porque os fatos crus, sucessivos, banais de tão trágicos aborrecem. Como a Valéry.

Mallarmé apenas quis, dispôs-se a, poetizar com sons verbais significativos, silábicos vitais sem significação aparente e direta, indomesticáveis. Montar sintagmas novos, vivos, com sons (ósseos ou alados) que sejam independentes das coisas reais (comuns), (matematicamente exatas, aritmeticamente mensuradas). Sem a necessária prosaica relação referencial com o mundo ordinário, alienado, visível, aparente, simulacrado.

Não que se pretenda desfalcar o time do significado, extrair-lhe a capacidade linguística, pasteurizar o sentido.

Apenas transportar a palavra (o sentido para fora do âmbito rigoroso da significação objetiva, autoritária, imperativa categoricamente) do mundo corrente – e do leitor corrente, comum – para o reino (etéreo, inefável, indizável) do poético, com suas próprias leis de ser.

A música da significação feita de sons verbais (e autônomos, isto é, autointeligentes) é o desiderato, a épura da poesia pura. O destino da palavra poética do século XX.

 

ELEUTHERIUS

Vital Corrêa de Araújo

aos três mosqueteiros da palavra (JMS, MNT, OHC)

 

No campo criar corvo e never

a rosa e o pulôver

louro para a pira

cravo para o lábio

e o novo nervo da vida

 

ser cósmico bucólico alquímico

bursátil melancólico hínico

 

espírito emprestar à relva

da argila ir à carne efêmera

 

tempo deixar fugir

dos olhos para a terra

elemento do coração

 

rural sentimento enraizar

a sais do ar integrar o corpo.

 

 

Ser igual à verdade de Ser

eis o único saber

senha para que sigilo da certeza se mantenha

e apego ao solo e ao chão seja o mesmo

 

ser sobretudo ser

na demasia que esplenda esse estado

telúrico incorrputível

com as belezas e o tráfego

com as mazelas e os contratos

 

ser mais que o dever de ser

ser da linhagem do céu

que se ofereça em pedaços

ser da espessa e úmida nuvem

que revoluteia nos olhos pasmos.

 

Alma lavar a cada manhã

com água inacabada

irmã do fogo

 

com pendão de abelha

e vão passarinho ofertar

ao porvir o que sou

 

da passarada catar a canção

ouvir da estrela alvorecer

comungar com orvalho cada dia

 

beber da vertigem do novo ser

ao aparato do pássaro doar-se

entregar a alma ao chão

 

fluir do alto sermão da luz

a convencer os olhos

da verdade da aurora.

 

 

Viver para contemplar o néctar

e a sombra

do rumor do milho

 

à oral impregnação do café acrescer

prazer da mucosa

ao êxtase da papila vermelho líquido da terra

 

coração liberado

do tumulto da libido

e das incertezas (e falsas messes) do lucro

 

cobiça (agrura estresse desespero)

abandonar com os despojos

das vaidades inúteis (e versáteis)

 

desilusão sentada

no sofá da indiferença

docemente deixar apodrecer.

 

Hespérides pomos com brandura bebê-los

governos cansativos feitos amaros

frutos da discórdia dispensar

 

toda citadina decepção

capital ambição adubar

com ar estéril árida bruma

 

com mecânico espasmo

e diesel lampejo

desprezar o mundano

 

abrolhos, gavetas, arreios vãos

vazios arrecifes, ilusas promessas de bem estar

tecnologias farpadas abandonar

 

na verde metafísica imergir

em busca do tempo fugitivo

regaço da página oferecer.

 

 

 

Sêmen da fruta ejetar

ave de nuvem bem mirar

ardor calmo possuir

 

a sarcástico mármore dedicar

metropolitano testamento, decepção assaz

a humor de bronze sacrificar

 

avenidas estranguladas

velhas penitenciárias

orações genuflexas

 

vontade senil desesperança e dor

cansadas memórias de usura ultrajar

das veleidades sem dentes abdicar

 

abandonando de vez tempestades vãs

da vida apressada e contábil

do trânsito engarrafado, tempo sem alma

 

 

em que rosto da lua é-nos negado

porque a pátina que sopra o automóvel

esconde a lâmpada selene (e óleo diesel é luz)

 

a nossos poluídos olhos

capazes só de ver a cédula, o contrato

ou a alma do supermercado.

 

Investir do bucólico apreço espírito

à reflexão serena e ao fulgor do céu

de Garanhuns dedicar dias que existam.

 

Da cela (com cilício) do Mosteiro

do seu silo de silêncio

silêncio que é o cereal da alma

 

apanhar a imagem fugindo

da janela de mogno, Deus

cultivar com o poema amor.

 

Ninfa macia sorver cada tarde

que ocaso lascivo oferecer

a nosso lábio delirante.

 

Onde é aqui

quando o que virá

agoras não nos comandem.

 

Ser eterno como páramo

das rosas e dos pássaros

de que pés e almas desfrutem

 

de cada manhã beber aromas

às tardes cofiar íntimo fauno

pesar a ração do espírito.

 

Prêmio de ser arrancar da vida

que da avenida Santo Antônio

desfila como dádiva nova

 

preces ao céu de luz despedaçada

com olhos cantar

ouvindo ângelus longe

 

respirar inteiro

roubar harmonia de cada cigarra

de cada rola ouvir o hino

 

dar entidade ao id

para entender-me

 

ao poema e à verdade

onticidade e leitor.

 

Garanhuns ex-cordis, 10 de abril de 2012

(ano centenário da publicação de Eu).

 

 

 

 

 

CREPÚSCULO DE GARANHUNS

ÓTICO ALTO ESPETÁCULO

 

a Jodeval Duarte

e Marlos que sempre

me dá notícias de Angelim

 

Do meu silo de silêncio

silêncio que é o cereal da alma

da cela (com cilício) do Mosteiro

do pote de solidão verde ébrio

e da beleza embriagado contemplo

sol por-se atrás da última colina

e famintas cores do mágico poente

multiplicar-me os olhos enlouquecendo

do ótico e ínclito espetáculo

do crepúsculo de Garanhuns

 

ante leva das hostes rústicas do ocaso hipnotizados

ante sólido, inevitável, maravilhoso

e alto crepúsculo

luzes intricadas despedaçando-se

do teatro do céu de um azul vagaroso

a digladiar-se com rosas adormecendo

sob incrível sinfonia de cigarras

tecendo suas rascantes paletas arrancando

do piano amoroso da tarde eflúvios

e certezas da existência da alma.

 

Do paiol de solidão  do Mosteiro

da janela do monacal jardim

de todas as rosas convocadas

para brotar das asas da cidade

ao sal da penúltima claridade assisto

(derradeira matilha de brilhos evanescendo

meus olhos extasiados esbugalhando)

todos os gerúndios anunciados

para desfile desta página do espírito

o rumor baço das seis horas

(de luzes e anjos)

na asa pousado da libélula extraviada

cortejando um crisântemo

ainda acordado.

 

 

Engole o sol a colina

ruidoso crepúsculo fina

as cores ficam escuras

parecem mortuárias

tudo se agrupa tudo se aninha

no colo da noite auspiciosa

mas da janela

de minha cela (com cilício)

diviso ainda

cimo noturno

da folha da bananeira

nela escrevo este poema.

 

(Solto como pássaro ou luz

do céu maior de Garanhuns)

 

DA MINHA CELA COM CILÍCIO

DESTE MOSTEIRO SILO DE SILÊNCIO

SILÊNCIO QUE É O CEREAL DA ALMA

PAIOL LOTADO DE INTEIRA SOLIDÃO

DA LENTA JANELA DE QUE ME DEBRUÇO

LUGAR DESTE POEMA

 

Existe um mosteiro lendário

(místico, bento, alto,

maior, mais leve, mais vivo que Xanadu)

muito além do poente

onde sol escave primeiros sulcos

para tenra iluminação total

dos seres e das coisas de Deus

 

onde a luz dos ângulos é crua

e o fervor alto

 

(Ele habita um sítio humano

que é quase um coração

e alicerça a pedra do perdão)

 

Depois da maior montanha

do pernambucano confim do agreste

(entre angelicais sais e

brancas seivas meridionais)

ele se posta num vale indelével

prenhe de rosas do jardim selvagem

sob copioso canto de cigarras

derramando-se sobre alumbrados

olhos do simples mortal poeta.

 

onde orvalho é branco como anjo

e afaga face crua de cada humano

 

onde flores alimentam borboletas

com néctar irmão da ambrosia

 

onde moinhos de manás não cessam

nem se aposenta o perdão

 

onde ervas são graves

e sonhos apetecíveis

 

onde prélios que o noturno vence adormeceram

e homens não mais se enciumaram

 

onde cigarras lixam vento pianíssimo

e pássaros oram em cântaros

 

onde cada onde não se esconde

onde cada quando já é ontem.

 

 

 

 

OS DOIS SILÊNCIOS

a Marusan Pelo

 

No silo de silêncio

da cela com cilício

do bento mosteiro

acocorado numa colina de Garanhuns

dois silêncios

essenciais à poesia

se acasalam

vitais aliam-se para o poema:

o silêncio exterior

com o silêncio interior.

 

PORQUE O POEMA É INCREU

(E CRIA SOB PESO INVISÍVEL DA VIDA)

à celeste dissonância da palavra

 

Forças passionais urdem na página

o debacle da alma, expõem

ao mundo o nervo da vida ferido

pelo torvelinho da paixão

a arder como um vulcão do corpo

 

ciente da inutilidade do traço

da inanidade da tinta a pena

dolorosamente desiste mas entrega

à alma do papel seu instinto e destino

 

sabe que sempre vence

sentimento de injustiça

 

oferece em holocausto

à perda da potência interior

palavra trêmula

a bailar no papel

esse intacto abismo branco

como folha do outono

tangida ao acaso de um vento vagabundo

 

 

toda dissonância do espírito

se funde com simetrias severas

em vorazes máscaras encontra

simulacro ideal para

melhor soar sua dissidência

 

desmesura abre suas asas

voa sobre abismo consciente do céu

treva unida à alma

corpo e vento de mãos dadas

aragem da morte (sopro inverso)

ou da praça descrita da carne

a espadanar folhas do ocaso outonado

para casta árida de um canto

qualquer da vida dissipada

seca como cacto abandonado

 

até que informes gritos

de um deus despedaçado

lastreiem céus

perambulem nos olhos

do poeta cansados

da brancura infalível da página

(que resiste a seus falsos intentos poéticos)

 

até que lucidez emirja

do poço frio da vida

para centro da náusea

 

até que lucidez

inflexível e fria

desista da jornada e use

como lápide branca

oca página onde

poema rasteje

incompreendido falso.

 

DECLARAÇÃO RESPONDÍVEL

ECLARAÇÃO    ESPONDÍVEL

CLARAÇÃO        PONDÍVEL

AÇÃO                   ÍVEL

A poesia moderna (séc XX)

desova libelos

ovula imperfeições precisas

 

dá vazão à exata fantasia

 

além de perfeitas nuances

danificar.

 

Quando muros de palavras desmoronam

alicerces da alma

abandonam o corpo

 

pois nos ombros do verbo

pesa o mundo

fatos unívocos desoneram o homem

só atos equívocos oneram o vivo.

 

 

OBJECTOS CÍNICOS

a Vavá Ferreira de Melo

Relógios ébrios

e moles derramados

sobre rosto do tempo

como lágrimas vagarosas

 

relógios derramando-se

sobre épuras solitárias

crivos abandonados

 

sobre pudendas idades da pedra sobre

redondas injúrias das máquinas sobre

catracas iconoclastas sobre

abelhas mecânicas

horas derramadas

 

relógios embriagados do trânsito

esse vinho sucessivo crônico álcool.

 

 

CLAMOR DO CIO E PROCELA

(na fértil Ítaca diariamente

Penélope copula com príncipes).

 

Procela moral

sobre Ítaca se abateu

 

chusma de pretendentes

ao precioso púbis de Penélope

 

leito infiel invade

desata cio ilhéu

 

querela marítima desaba

sobre torvelinho das viagens

 

vagabundas do traído Ulisses

que périplo de Telêmaco

 

não logra encontrar

nos mares desavisados do mundo.

 

POEMA ANTIGO

Ao deus-dará da campina

um fogo-apagou listra

céu cor de voo e deixa

rastro cinza

dos olhos do caçador.

 

 

No pega-pra-capar salve-se-quem-puder

voar melhor: chumbo ou ave.

 

POSIA PARA QUÊ

Salvar abismos.

Redimir o tempo.

Da horta de máscaras

colher rostos usados.

Com embargo de nada

libertar a palavra.

 

(Papel do poeta é ancho.

A irradiar a obra de Perse

o potencial persiano que

fere e move vital verbo.)

 

 

POEMAS SÃO GESTOS DO ESPÍRITO

Poema é palavra

posta em cheque

desova de multissentido

pausa do precipício

alma sem demora (óvulo do espírito)

 

poema é palavra

que não esmorece.

 

Verbo sem data de vencimento certo.

Espírito solto sem bula ou bíblia.

A pairar sobre uma página.

 

Vesícula de som exercício de ritmo

vogal em êxtase da frase abrupta

inopinada receita de vida abstrata.

 

Vocábulo sem amarra ou barreira de rima.

Sílaba libertada (do cânone métrico e cólume).

 

Viva a beleza não convencional

(anos contados em cem dedos)

não frívola (ou casta) mas inteira intensa

espessa abstrata ou futura (digital ou analógica

porém belo).

 

Viva (por mais tempo ainda

tempo redimido e não opresso

injuriado, contado time is money)

belo verbal

 

poesia passível de todos os delírios

e enriquecimentos ambíguos.

 

Só palavra delira

só verbo sonha.

Homem é devoto e aio

bursátil escravo (escarro do pó)

prisioneiro da usura da jaula do capital

(algemas da ilusão do lucro cerradas)

presa da métrica do tempo

trena das horas do trânsito

doidivanas incomensurável

polioco vexatório

(das graxas da lascívia catraca e vã rolimã)

incólume ao belo

mero usurário da droga do próspero

meio, bucha, pino solto, presa

não homem ainda.

 

(A beleza sentou-se-me

nos joelhos fatigados de Rimbaud)

 

 

 

EU VITAL

Vital é assíduo e firme em perpetrar

sintagmas deformadores completos (da realidade

que todos vemos, sentimos, amamos – somos)

do significado (ou objetividade

sempre simulacrada com íntegra devoção).

Ele aparenta ser. Mas é só sido.

Ele apenas tenta utilmente representar

a comoção (dos objetos), o dano, a paixão

(desfibrilar o sentimento oco e cardíaco do mundo)

o engano, a vertigem e a insânia lógica

das coisas humanas (não demasiadamente

nunca desmaiadamente – apenas demassiadamentes).

 

(Dizem: vital é vida à palavra, isto é, é a vida

infundida na esfinge que cada palavra traz ou é)?

 

 

Vital recompõe

com gramatical imperícia

– a emoção faz o bisturi tremer

e a cirurgia vai pro beleleu  –

a cútis ferace

dos verbos decompostos, íngremes

mesmo podridos. Em puros escombros.

Idolatra decorações senis ou podres

das palavras (que ele despreza mas acata

para melhor mutilá-las);

sonha com paraísos estáticos.

Édens cavos. Parcos. Loucos. Molhados.

 

Vital é apenas um retrato do que não se faz

com a poesia. Um caso inclássico.

 

 

A verdade é espanhola

gongórica, juanramonjimeziana

guilleniana sobretudo lorquidesca

nunca amaina ou muda

não varia ou luna

como uma navalha é espanhola (à Mendes)

a verdade

cristo genuflexo

relíquia de abelha vórtice de ave

 

nada dobra nem o dólar

nenhum euro compra

a verdade espanhola.

 

(Ao deserto criador da palavra

ao louco redemoinho do sopro

à poesia)

 

As mandíbulas do relâmpago

presas da luz canibal, golpes

de calcanhar aquilesiano

multiplicado pela eternidade

sapatear dos trovões, raios

da aljava de Zeus brandidos

com majestade e precisão

tudo reluz no poema

zigzagueia espiral

como pálpebra enlouquecida

na mão da palavra poema

a olhar o futuro despromissor da voz.

 

 

LIBELO AZUL

 

 

Da relação direta entre a gastronomia

e o movimento intestinal

entre o sabor e o espasmo

(a ambrosia e o tônus amébico)

a poesia tem muito a revelar.

 

Conforme estatísticas peristálticas

e usufruto lírico da palavra

a poeta cabe destrinchar

o bolo, a fécula, o vozerio gasoso

o empalideçamento

algum amarelão (e tremores

verbais ou não) sobretudo...

sobretudo o descarrilhamento das palavras

após a descarga quando

trânsito intestinal e angélico pudor

ficam afáveis. Por falta de papel, stop.

 

 

A místicos cumes voo

nas asas da palavra sou

pairo das esferas do ser

 

(desordeno nome volúvel

ante hordas de si)

 

alma pesada de dano

da culpa do pecado renhida

avança como aurora

invencível a olho escuro

“sem outra luz ou guia

senão a que no coração ardia”.

 

Nota ao poema: cega fé guia

o ser pela treva das aleias

e becos do Senhor

 

pela via reta estreita sairás de ti

(os aspeados dois versos são de São João da Cruz).

 

 

 

O silêncio vital

do poema indizível e delével

é sumo

símbolo (instrumento)

da comunicação pura (ou espúria tanto faz)

aparente e apressadamente incomunicável

a leitor corrente

(“com a pressa que aniquila o verso”)

paciente da impaciência de desvendar

logo tudo

o verso é ilimitado

não é sombra ou máscara

(não tem pudor ou obrigação moral)

é a essência do rosto humano real.

(Nunca da alma, outros 500).

 

Aos objetos selvagens de meus desejos

(poéticos)

aos pecados morais (ou não)

que no Brasil não dispõem ainda de infernos

 

 

À pátina truculenta

(e incredulidade reinante)

à beligerante orgia do espírito

(canibalesco do homem e companhia)

à eterna decrepitude

aos plásticos vermes e nus

que nos devoram (a mim e a ti, leitor).

 

Só vermes são eternos perversos

e suas mandíbulas morosas ardentes.

 

Aos furúnculos episcopais

e impingens eclesiásticas capitais

à sífilis dos cardeais

às miraculosas escrófulas

que São Luis chupava

até sarjá-las todas.

 

Ao silêncio celeste eloquente

e músicas redondas

de ruidosas esferas

dissonantes elipses

ao som remanescente

do bigbang de Deus

xerife e ônfalo do Ser.

 

HORTA INRUINOSA

 

Sempre plantei joio

e ... sempre colhi joio

sem medo ou ficta perspectiva

fui fiel à agricultura do meu espírito

vândalo – e nu

 

com apuro e candura

adubei com pátina a alma, preparei

com extrema diligência (e pasmo aberto)

e onírica agronomia intensa

terreno da messe daninha

 

joeirei joio a vida toda

por toda minha vital eternidade

joeirei joio (fino, vítreo, camiliano, apto)

 

nada de trigo banal... e comestível

intestinal

 

trigo apenas nutricional

e crístico como o peixe

jamais.

 

 

Poeta esculpe com líquidas palavras

reflexos de nuvens e sombras de nimbos

corpúsculos de luz e fluxos de ondas

formas de águas ponteagudas

(que Tales inventou num poço de estrelas)

formas derramando-se

como astros dos olhos do céu

irisados mosaicos da pupila do cosmo

pontilhado de gasosos buracos-negros

e íntegros

formas de água estagnando-se

bilhas de águas brilhosas formatando

jorros de palavras (catadupas e vórtices de vocábulos)

águas assimétricas

refratando nenúfares

que pilharam o fôlego de Ofélia

 

em suma: esculturas poéticas

de vertiginosas águas em voragem líquida

águas cintilando foragidas estrelas.

 

ESPANHA NO CORAÇÃO

 

 

 

Sapatos de castanhola

alta dança dos saltos soltos

solas rascantes, golpes

plenos de solitários calcanhares

martelamentos

ecos secos

salteados tamboris

ritmos escandidos no etéreo

sonhar dos pés espanhois.

 

Poeta moderno vive

das sobras parnasianas

e do lixo simbolista.

Coitado!

 

Poeta dito moderno

alimenta seu (parco) espírito

com tripas de porco (chauvinista)

e restos românticos.

Duas vezes coitado!

 

Passeia com cão metafísico

duas vezes por dia

na praça da alma.

 

 

RESPONDA INTRIGANTE LEITORA

Que véu não ilude

ou fonte nunca seca

que barro amolda

(o nada e o grito)

que cimo não sonha

com céu ou o abismo

que poço d’água funda

não recolhe estrelas trânsfugas

(e do brilho molhado

não se extasia)

qual pássaro que

não ame cítara

e noite não ceve treva

que rio águas impeça

de correr ao mar

(que é morrer)

que lei proíba alma

de grunhir à lua?

 

 

 

 

Solitárias flautas presa

do jângal das sombras mudas

ou das selvagens cantatas da claridade

(das vorazes sonatas dos pássaros pendor)

flautas carnais de sons ósseos e cautos

de que derivam multidões de acordes

miríades harmônicas

flautas fuzilando gritos e fugas

redimidas canções

violinos azuis encelados

de sons agrários e óperas rurais

espoucando das harpas magistrais do tempo

increpando céus

e luas de agave consolando.

 

 

Ósseos tenores

rumores de prata

arreios

de áureos

tumultos de cobre

cobrindo o poema

da pátina macia

das canções alquímicas natais.

 

(A argutas percepções ofertados

acepipes poéticos

e outros lavores ilesos

além das safras ardentes das palavras

que insensatos sentidos endeusam).

 

 

Do êmbolo brilho ébrio

crótalo de vidro estranho

da amêndoa o carpo doce

hiato de papila úmida

sílaba de unguento longo

das flores de ferro

erótico cromatismo

vertigem lasciva

dos dedos ávidos (e úmidos)

dedilhando rósea vagina

 

da corbelha de palavras

flor de colibri do poema

do teu êxtase gozo aberto

de tua pálpebra fechando-se sono lascivo.

 

 

SILÊNCIO VERMELHO

 

Célula de alumínio

vapor turvo

lamento azul vindo do distante

brancos sons de ossos

cios pétreos (sais voluptuosos e vis)

primavera de pedra

e ovário

da lua sonâmbula

bulinando teus olhos

tendas desertas habitadas

por beduínos abelhas

do vórtice de teu vermelho enxame

sobrevivendo.

 

 

VERTIGEM DO ABSOLUTO (3)

 

 

O modo emocional de ver o absoluto

veio do sono aflorando dos olhos vagos

ouro sonâmbulo perdurado da pálpebra

amanhecer enterrado na pupila da pedra

sob vidro do id clamor cego pulsando

esclerótico lampejo vige vige na íris sedenta

oníricos vestígios de insânia no púbis rastejam

da alma nua a reconhecer como infâmia o desejo

pássaro (seu voo histérico e audaz) candente

arco-íris de asas como parábola balindo

moléculas de borboletas

e o pouco quântico das pétalas.

 

 

 

 

DOIS POEMAS

a Cícero Felipe grande

poeta de São José da Coroa Grande

 

Ângelus azuis de Mallarmé

lilases escuros de Cruz e Souza

olhos

de safira rigorosa das tigresas

listradas de volúpia vermelha

perambulam no poema.

 

Aromas enterrados

cravos deliquescendo

sal extenuado

da nua noite doce

apolo plantando

dúvidas na lua

(de solo tão menos grave

que a  terra) matérias do poema.

 

Garanhuns, 10/04/2012

 

 

VOO ACENTUADO DO POEMA

 

 

O significado venceu-se

está esgotado

(os sentidos morreram)

tudo se desdisse

 

a tema, o ar, o planeta, a palavra.

o palato, a península, o pedúculo, a planta.

 

Os elementos estão cansados

Água incabada. Fogo

não mais roubado.

 

“A dor petrificou o umbral”. (Trakl)

 

Genuflexo voo sem assento

o poema.

 

 

 

LOUCA AMPULHETA DO TEMPO

Ao presente, imprevisível presente nu

 

O pecado é não almejar a eternidade.

Seus ossos e carnes sem dores ou grito.

Só o presente significa para o eu

O passado é do nós

(com enleios e intrigas sem dó).

O futuro do outro.

 

Todo presente é imprevisível

(futuro podemos sabê-lo – e a seus dentes

nunca o momento (fugaz ou não tanto faz)

de que somos vis testemunhas: o presente).

 

É vão desvelar o ser e o mundo

sempre cobertos da pátina orgulhosa

e incerta do passado.

 

Só o passado é certo. O futuro

a Deus pertence. E com ele

Ele não condescende. Ou perdoa.

 

Deus que é sábio, dúbio, ubíquo

que é vidente, ambíguo, inverso, ávido

mantém o futuro

enterrado em suas dúvidas divas.

 

 

POEMAS

a Osman Holanda Cavalcanti

 

 

Para que forças

divorciadas da vida prática

da poesia se precipitem

do abismo da página

(fauce infame da lauda voraz)

para infiel (e ilusória)

brancura da alma.

AVALIAÇÃO

 

Precipícios melancólicos

abismos submersos no lírio do verbo

autoconsciente odor danoso canino

sintagmas infeccionados por sais herméticos

velocidades sem limite

ginásticas do verbo peripatético

trapézio de gramática (circense ou nada)

tangente alucinada de signos

de ilusórios delírios

a palavra impregnada

 

eis resumo vital

do poemário Bando de mônadas.

 

Tirésia desígnio do céu.

 

 

 

SINCERIDADE

 

Quão idiota a poesia vital

aborrecida e complicada sobretudo

sobretudo indecorosa

Vital e seu talhe a leitura ocasional clerical

sua dicção sibilina (e devoluta)

e estrofes menstruadas

dando-se ares polêmicos mas impotentes

fanáticos porém improváveis

mera aridez secura intransitiva

em suma a serviçais atmosferas

do futuro desprometidas.

 

O torso da palavra coroado

de enigmas e cactos

a frase de hieroglífica aspereza

aberta como fruta madura ou fêmeas coxas

a exegese sem ventre

(“opera aperta” intranquila).

Vital desespero da felicidade verbal.

 

VISÕES MARINHAS ATLÂNTICAS METAFÍSICAS DO HORIZONTE SEM CORPO SINTAGMAS DE ÁGUA (MARCIANA)

Luz de altíssimos abismos, vacilantes imos

fundas cintilações de lata

quilates vertiginosos do início lato (termo)

horas despedaçadas do súbito

âmbito de primaveras rurais

flor leprosa, grama de prata

hangar vermelho da veia

rio de ímpetos, onda de náuseas

pátinas do eu, espírito cansado

contêineres de lumes

comboios de seiva

levas de seda, potes de uivos

cardumes de água, horizontes vorazes

vertigens e gaivotas entre coivaras do mar.

 

22.05.2011

 

 

 

A ETERNIDADE É INÚTIL

(CRIAÇÃO DO HOMEM DERROTA DE DEUS)

 

Não há porque duvidar

da severidade humana

mas porque duvidar

da humanidade do homem

 

cercado pela luxúria da ganância

e libidos aborrecidas do lábio

 

testemunha da impotente cópula

do remorso com a arrogância

 

porque poucas marcas restam

do eliotiano itinerário invencível

 

pelo peregrino Tâmisa (da morte pela água)

portando o sermão de fogo (no punho do verbo do tigre lampejo)

 

numa noite de duvidosa lua e ar árido

céu enervado de nuvens terrosas.

 

Apetite não pode

satisfazer-se só pela carne

 

saciado como a matéria o é

pela mecânica ou pelo intervalo

 

ou pelo espírito de cal sutil coberto

ou cinzenta nuance apocalíptica

 

é o que se lê da folha que sibila

abandonou na tarde (e Tirésias viu como desígnio

do céu olímpico e pálido)

 

durante o enterro do desespero

que rouxinóis escoltavam

féretro orlado de músicas de relva.

 

A catacumba era lírica

e os mortos por água

poluída hirtos estavam como um inverno

(e observavam a tarde se decompondo abandonada).

 

Algum cadáver

que plantaste nalgum jardim, leitora

 

não ou tão pouco casta

irá brotar e talvez dará

flores escuras

 

cão e ursa juntos irão

desenterrar entranhas nuas

 

para consolação do futuro

que nos escapa entre dedos como água

 

num jardim de lilases ilusórios

e jacintos agonizando

 

só a claridade do remorso

e a chama (já extinta) dos mortos

 

permanecem entre covas  de cravos

e extenuadas hastes de dálias deliquescendo.

Cada vez mais que extirparmos

o atemporal de nossas veias cruas

(e vidas menos)

 

cada vez que quebrarmos com primor

os dentes da temporalidade autêntica

 

mais a alma se desola

mais a sombra se arroga

 

se a certeza da salvação se reduz

o medo de ser aumenta

multiplica-se o temor de viver

 

(quando é o morto que nos enterra

é que viver não tem sentido).

 

Futuro em breve será passado

criança será osso abandonado.

 

E a infância data protendida

destroço de uma vida.

 

 

O conhecimentos do que virá

será o teu martírio, leitora curial curiosa

 

a hora não mais chegará a ti

pois não (ou já) desvelaste o maquinismo

 

da vida que é tempo (de pedra)

sepultado numa ampulheta corrupta

 

se ao tempo cronológico

sobrepõe-se o simultâneo

 

perdeste teu sentido horário

leitora vazia (ou acrônica)

 

e não passas do trânsito.

 

 

 

 

 

 

Se o tempo é convenção

a morte é produto da mente.

 

Se Kant estuprou a camareira

(em Konigsberg) por que Lampe não o denunciou?

 

O passado vive em cada rosto

existe e é minucioso trator da cútis

e o futuro nunca será promissor

mas estado de perda, dano, medo.

 

A natureza humana é nossa derrota

(alienada como um anjo ou uma porta)

 

Vício a estrada mais larga

todo o salubre mera via estreita

 

dor companheira devota

temor ubíqua presença.

 

 

 

 

Vida merece ser vivida (não vívida)

morte único endereço certo.

 

(Entre as duas fatais datas

em tua lípide sulcada

 

leitora impotente

prefiras a última

que é a definitiva).

 

E quanto menor o intervalo

menos dores te destinasses

mais perto teu ser estará (de não ser mais - ou menos)

 

Teu estar foi-se

ficou o cansaço

de ser (nada).

O GRANDE POETA

 

 

O grande poeta liquidou

com bom pesticida a palavra

(e sua lavoura de larvas e sílabas)

 

ao redor que degenera o verso

e torna mecânica lógica pó.

 

Mas são tantos  diletantes

jovens ignorantes

 

a sacrificar a cinzas vazias

a endeusar trastes bursáteis

(a crer em ágios e bugigangas)

 

que desisto do poema

e me envileço

(ou me enjuízo em nacos de sentido).

 

 

 

O poeta permite

conhecer imaginativamente o mundo

porque detesta passividade

abrolhos de artifício, cóleras metálicas.

 

Às vezes visões cegam. Mas afiam.

 

O valor do poema não está no que diz

mas no modo de dizê-lo: forma.

 

Sereias deixaram de cantar. Se o fazem

só a mercadores. (Seus úteis ouvidores).

 

Todos fazemos o mesmo poema

à morte, eterno lacaio

branco alvo do poema.

 

Não adianta ser

é melhor dizer: prosa.

 

LAUDO ÚMIDO

 

 

Quem avalia

êxtase da saliva

durante o beijo?

 

 

A POESIA

 

A palavra anima a coisa

(não a alma)

retrata-a mas completa

desvenda-a e oculta

recebe-a e escande

oraliza e substantiva

adjetiva e adverbializa

a coisa

a poesia.

 

(contribuição para o laudo

tanatoscópico do verbo)

 

 

 

 

 

 

DE BULIMIA E ...

 

Messe do abismo obtenho

das colheitas noturnas

(e do britânico fruto da treva)

após um dia pleno

de catástrofes azuis

e sinais (ou signais) digitais aziagos

(ou cardio-digitálicos).

(Por que tantos is finais, afinal

uma vírgula num poema vital).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A morte é o princípio das coisas

(humanas ou não)

a substância última da vida, alicerce ideal

é o fecho ideal do negócio ideal de ter

o carimbo, a víscera, o ato, passaporte

para não sei o quê quando.

 

A rubrica vital.

 

Por isso Jesus morreu

(como um cristo).

 

Para recomeço de homem

(e acumulação do capital atávico).

 

Porém: de onde estávamos

não é longe o fim: NB.

 

POEMA VITAL

 

 

De tão difícil

a beleza tornou-se inútil.

 

De tão sem fim

nem começo

qualquer (e toda) eternidade é inútil

também.

 

A poesia serve

para salvar fantasias

e perfis que espelhos sepultaram

no imaginário e na deformação

do ser.

 

Se a poesia dá

asas à palavra

porque não decepa

a máscara do verbo?

 

No intervalo entre

o eu e o sal

pausa branca vige, opera

a estátua do instante.

 

(Só a sede impede a saciação).

 

 
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