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DESESPERO DE PAZ PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 23 Novembro 2017 23:53

Em toda a vasta antiguidade, levada pelos ventos mediterrâneos, ressoava a má nova e, respeitosos, gregos e romanos ouviam, impassíveis e doloridos, o grito  que varria as águas e fazia eco nos velhos armazéns da alma: o grande Pã morreu!

Hoje, ecoa, nos quatro cantos culturais do mundo, um novo e tão doloroso grito: o grande Poeta Octavio Paz está gravemente doente!

Octavio Paz, o magnífico ensaísta e poeta mexicano, de 83 anos, tem diagnóstico de câncer, desde julho de 1997. E está praticamente impossibilitado de se locomover devido a uma flebite nos joelhos. Paz segue escrevendo em meio a inominável sofrimento, em confronto direto com o seu principal adversário: a dor.

Enfermo e isolado, sob o influxo terrível de dores físicas sem medida e da dor moral da morte próxima, quase anunciada, Paz, no desespero, mantém implacável a coerência e continua produzindo e ordenando sua obra, legado universal, monumento da cultura mundial, uma das cruciais heranças do 3° milênio, ao lado do acervo literário borgesiano.

Consciente disso, o poeta mexicano, Prêmio Nobel, não condescende com o sofrimento e dedica o seu último esforço à literatura, a quem ofereceu toda a sua vida.

Em dezembro, a biblioteca de Paz, na Cidade do México, foi incendiada: documento, inéditos, originais, arquivos, memórias e seus livros prediletos, anotados, foram praticamente destruídos.

Expulso, pelo fogo a pela enfermidade, de seu lugar, no cerne do seu inferno astral, Octavio Paz vive em lugar secreto, na vastidão da Cidade do México, rodeado de sua esposa, médicos e de uma equipe de editores espanhóis que estão auxiliando na revisão de suas obras completas.

Enquanto isso, em um laboratório no sótão da Biblioteca Nacional do México, centenas de folhas semiqueimadas de livros e documentos de Paz estão espalhados sobre grandes mesas. Em meio a um silêncio monacal, página a página, quatro mulheres realizam pequenas e inumeráveis cirurgias nos papéis danificados, num trabalho minucioso, paciente e altamente técnico, em que são utilizados Raio X, agulhas de costura, papel de arroz e sentimento.

Porém, o que mais acabrunha Octavio Paz é o afastamento, o conflito com o seu melhor amigo, de quatro décadas, o novelista Carlos Fuentes, os quais não se falam há mais de dez anos.

Amigos comuns tentam a aproximação dos dois escritores mexicanos, mas recentemente Fuentes se recusou a fazer as pazes com o ex-mentor, e segue culpando-o por corrosivo texto de crítica literária que apareceu 1987, em The New Republic e em Vuelta, a revista de Paz.

Neste cenário, Paz desesperada e estoicamente dá forma a seu enorme legado e segue sem resolver um das histórias mais tristes da cultura contemporânea mexicana: o distanciamento radical de Carlos Fuentes de sua convivência há 11 anos.

 

Texto publicado no Jornal do Commercio, em 1999

 

 

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