Murilo Gun

Admmauro Gomes

Quem está online

Temos 63 visitantes em linha

Assista

Siga-nos



A CATEDRAL PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 02 Abril 2018 21:57

Flagrei Valéry

a contemplar a eternidade

da varanda

(do seu espírito)

 

Homens lentos fabricam o crepúsculo

com utensílios de dias turvos.

Sombras viajam nutridas de trevas

tributárias do esmo

locatárias do olho.

Morre luz do contorno.

Claridade de ângulo adormece.

Relâmpago bate contra muro

fulgor de estrela não se esquece.

Catedral dobra séculos

que se ajoelham e lambem

suas lajes silenciosas.

 

E o fluxo sacro das horas

que percorre suas pedras

parece lentos rios de preces.

 

Das naves de góticas quilhas

brotam cônegos de quintanilha

frades de navalha

(e pão infiel)

 

Sal das perorações

devoto lume espalha

pelas estrelas da casa

purificando-a dos homens.

Gotejam geometrias cegas

das arestas mortas

do vértice das labaredas

candelabros ovulam

desovam pias mariposas.

Fulgores se agacham

rumor da catedral lembra

fera maltrapilha

galáxia enjaulada.

Aves esventradas

na cruz das luzes

por lâminas de amoníaco

ou navalhas eclesiásticas

ainda nos vitrais gritavam.

Eco do urro salgava ápice.

Em volta a noite era manicômio escuro

vômito uivante do vento

lábio dos beirais depredava.

Assustava pombos do telhado

eco de búzio acordava gatos

goteira de pedra iludia chuva.

 

A romana eternidade

desfilava numa biga quadrada.

Núncios se apostasiavam enquanto

cardeais vomitavam púrpuras

encardidas.

Urro rastejante da ágil loba

de tetas atentas bebia vestígios

(que a história deixou

embalsamados dos seus vestidos pruridos).

 

Astuciosa e velha catedral se recolhia

a seus metais e unguentos

a seus despojos e mantimentos

a suas tiaras indulgentes

a seus paramentos incompletos.

Afagava sulco que filósofos deixaram

em sua carne votiva, ouro

que pontífices esqueceram

em seus vestíbulos curvos

nos saguões (pátios apequenados e ricos)

em que unguentos morreram.

E a prece que algum desesperado

no adro abandonou.

 

A memória da catedral espancava

criptas e velhos nichos

avermelhava nuances e sepultava

no cofre desmesurado da cúria

memórias de cônegos lascivos.

 

Cânticos eunucos estertoram

entre os sais da pia.

Frágil rosa dos instantes buscava

no confessionário a raiz das horas

o fruto cerrado da vida

emolumentos que o tempo

cobrava de cada sacrifício.

 

E o sedoso

esplendor de sua cúpula

estava embaciado

pelo silêncio

da incipiente noite

recolhida entre benditos.

 

Na praça esplendia cesto

onde milênios se recolhiam

guardados por cavaleiros insones

(portadores de peripécias e adamanes).

 

Veste de aço fazia

que sol invejasse

e dos elmos roubasse lampejo.

 

 

Malha de aço sacrílego

alma protegia

de demoníacos arroubos

(e da soberba de muitos devotos).

 

 

Reluzentes cruzes iluminavam o sacrifício.

Do adro da velha catedral

enfermos supuravam

perante lábio de reis infames.

Em pátenas inexpugnáveis cardeais

ocultavam seus pecados originais.

Florões esquizofrênicos

anjos escondidos nas cornijas

átrios abandonados a despojos.

 

 

Nos odres do adro nadavam

poemas embriagados, preces

que sal do êxtase desnudava, salmos

fugidios dos lábios dos anjos.

 

 

Voz da cal estremecia capitéis

flores de mármore tremulavam

no peito de estátuas hagiográficas.

E a nave incessante vociferava contra

carnes da cornija

e naufrágio dos crentes

das águas blasfemas esplendia.

 

Sobre o sono dos homens escorria

dor do mundo (túmulo de alegria pairava)

e sombra adormecida das sílabas de anjos luzia.

 

No batistério catracas

de silêncio soavam

como sinais da culpa.

 

 

Recife, Praia de Boa Viagem

perante o Atlântico

defronte ao Parque D. Lindú

24/25 de dezembro de 2010

brandindo a mim mesmo

champanhe inacabável

sob guarda sóbria

de um velho e bom vinho

sozinho.

 

Comentar


Código de segurança
Actualizar