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A POESIA, SEGUNDO VALÉRY PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 12 Abril 2018 19:13

Vital Corrêa de Araújo

Segundo Valéry, a poesia busca o que há de íntimo em tudo,

embora terrivelmente insípida seja a poesia subjetiva, o que obriga, poeta que se preze, ou não se despreze, a buscar o meio termo, a proporção dourada, entre excesso e falta, entre conteúdo e forma, emoção e razão.

 

Não é só ceder a iniciativa às palavras, ou mecanicamente fazê-las serva do poeta, mas, na hesitação prolongada entre som e sentido, buscar a certeza do poema, como artefato de palavras.

A propósito, advertia Valéry: “quando me perguntam o que quis dizer num poema, respondo que não quis dizer: foi a intenção ou forma de fazer que quis o que eu disse”. Advertência que bem demonstra o valor da palavra, isto é, não é o poeta, mas a palavra poética que tem intenção e ação, no poema, que age no mundo e funda o sentido, dando vida à palavra. Rimbaud já respondera: quis dizer o que está dito literalmente e em todos os sentidos possíveis e imagináveis.

E como diz o poeta Rogério Generoso: a poesia inventa a linguagem da eternidade. O texto intemporal quem escreve é o poeta com o coração atravessado pela paixão da palavra.

Para Valéry, poesia é tensão para a exatidão, força de simetria para a beleza, golpe de ângulo de relâmpago, astúcia do verbo para a forma perfeita, mas exatidão geométrica, rigor de épura, forma interior, matemático deslumbramento.

De modo geral, poesia é mistério, como se manto  a defendesse do excesso de vulgarização, de decifrações excessivas, olhares desnudantes e mundanos, alimentando essa túnica os véus que a valorizam desde Safo, Empédocles, Holderlin, Heráclito, Parmênides.

Hermes poderia ser seu patrono.

Apolo apenas mordomo.

E poeta, grão sacerdote que cruza o umbral do poema, a pele da palavra e penetra o poro desconhecido, iluminado pelo halo da alma a palavra em busca de cifras, lâmpadas, azeites, cinamomos para esclarecimento do indizível da poesia.

Ao declarar de público e de direito, sem nenhum pudor nem melindre, paixão pela palavra poética, não fujo da responsabilidade de fustigar a conceituação de poesia, que abriga vastas polêmicas, imperfeições, fanatismos e muitas verdades, aparentes e reais.

O conceito de poesia nunca será unívoco sob pena de não abrigá-la.

O modo de cada época (ou escola, mesmo sincronicamente considerando) de conceber a poesia é assaz mutável, variando na mesma época e em eras distintas.

Victor Hugo dizia que poesia não está na forma das ideias, mas nas próprias ideias (revestindo uma posição ideológica realista), ao passo que Mallarmé retorquia: poesia não se faz com ideias, porém com palavras (refletindo uma posição estética simbolista).

A forma pode ser o esplendor do conteúdo bem como toda uma época literária pode ser, antes de mais nada, um momento da forma.

Se Mallarmé, ao pronunciar (escrever) a palavra flor, tenta colher (alcançar) “a ausente em todos os buquês”, ao escrevermos um poema devemos nos prevenir do excesso de realidade presente nas palavras, carga que urge depois de eliminar (dissuadir), e que pode nos sufocar, ou, ao ver a árvore, não vermos a floresta, ou vice-versa.

Ou seja, devemos (ao fazer o poema ou permitir que a poesia nos faça) evitar que a paixão pela palavra, como ditado, refletor de ideias, torne-se excessiva, patológica, e nos leve a um emocionalismo deliquescente e daí a um passionalismo maléfico, retórico, verboso, superficial, insípido, em que a palavra se torne óbice, vire coivara (de virtudes ou desventuras), antro de destroços, umbral de ruínas, desperdício de sentido, só osso e univocidade, não polifonia ou suprema equivocidade.

 

 

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