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ENEÁGONO DE MUSGOS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 14 Maio 2018 18:51

À passagem involuntária das horas

eu me recolho (insatisfeito furioso)

paciente do tempo, submisso do fluxo, me doo

ao trânsito irrecuperável (e devastador

como o inferno ou a tâmara deserta)

eu que sofri todos os espasmos, gozos

naufrágios, iridescentes redenções, apuros

todas as falências e desvantagens vivi

eu que ao cálice convulso dos prazeres profundos

ofereci minha pele

e ao sangue sem trégua da vida sacrifiquei

o amor

borra pérfida, transe bífido, o amor

como a angústia se deposita na alma (escória do espírito)

vida demais também cansa (pensei

como Zé Gomes Ferreira) embora

ser moderno é antiquado (ou torpe)

sempre que sinto muito me arrependo

se tenho escrúpulos do sal eclesiástico

é que sou indene a demônios

e a Deus indevoto (a eleição perderei

da redenção ou do naufrágio no céu).

 

A inércia é feliz, como não ser.

Os galopes do pulso são efêmeros (como o coração).

O que significa eu eu não sei bem

fosse o que é pior melhor.

Por que me atraem oásis sórdidos

ou fétidos desertos não sei.

Para mim lógicas estão vencidas

ainda bem porque silogismam a vida em cacos

de inferências selvagens, luto

pelo enriquecimento dos acasos e das luas

bem como por amanhãs nulos (ou falsos)

ser poço de lágrima é tudo naufrágio (imóvel).

Quem há de ser em mim tudo? Quem?

(Zepaulo talvez, talvez Pessoa redivivendo?)

Estou vasto (e bastam-me) de enriqueceres fátuos.

Além de naufrágios corretos.

O que me consola é betume.

Gerânios podres certamente. Ou taças bem fedentinas.

Mais uma tarde de areia

na minha vida marinha e beduína

mais uma duna de amor doído.

 

Seja de que maneira vou resser (ser novo)

a afagar labirintos sólidos (nada úmidos)

com placas de acrílico indicando a saída

mais macia (e menos volumosa).

A fé em si é fraca, pois está no outro.

A febre de ser passou como ouro

que se garimpava com trabucos

o fel ficou enrodilhando a alma

tudo foi perda e naufrágio afinal.

Sinto-me em ti que és longa, vândala

envolvida num véu de sombra enrustida (velha).

Pensei em plagiar uma grade, uma granja, um horto nu

qualquer (não para me distrair, para ser).

A causa dos febris comprei. E me arrependo sempre.

Quando o fluxo do instante me bafeja

arruíno o sítio onde sou no mundo.

Ao bulício da folha da relva de vidro quebro

o poema... e com cacos de palavras

faço outro, com lâminas de crisântemo acabado.

Bateio a lua, dela extraio versos de ouro sépia.

Gosto de ânsia. Amo o tédio. Cansaço é ótimo.

Náusea me encanta. E cio idem.

Eu e minha sombra detestamos pontes.

Ela é pacata, eu avaro e ermo.

Sinto Deus nos outros muito. Em mim, não. Ainda.

Asceta não sou. Poeta, pior. VCA é vil.

Deídos vislumbres do altíssimo verbo tenho.

Deus é apenas infinito labirinto. E nos corredores

vivos há um mercado de dor aberta.

Meu coração árabe ou celta é tímido.

Num bazar assírio guardo treva e botim em Bizâncio, talvez.

De sulfato e febre vivo.

Solitárias encontram-se intestinalmente em mim: Sempre.

Sou ilha, sal, perda. E multidão asiática.

Gosto, sim, de eneágonos de musgo.

 

Junho/2015

 

 

 

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