Murilo Gun

Admmauro Gomes

Quem está online

Temos 49 visitantes em linha

Assista

Siga-nos



POEMAS DAMOR TRISTE OU MORTE DOS OLHOS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 16 Maio 2017 14:04

No cálix de tua sede busco

regalo de dor, ápice do amor úmido.

Esgane a sede mas nunca a esgotes

ame com o esôfago, amasse

a pepita do êxtase com pertinácia.

 

Abandono de rosas

cave de falsos corações fervorosos

que simulem jardins sepultos

é o que se faz quando

rejeitam a poesia vera.

 

Ao som tíbio de ocos crepúsculos

colhidos juntos a ruínas de sonhos

desfrutas o frio mundo.

 

E o carmesim do amor

vira cor de ferida, nojo, asco

repulsa à vida.

 

Se não cresce hino entre monturos

é que o solo do coração é fútil

e falsa a verdade do amor.

É água esgotada

da sede do amor

esgoto do ser sozinho.

 

À suave pátria da carne

partitura do som de êxtase desates

como água de bica são as coxas abertas da vida

 

diga, amiga, com o vital apreço do gozo

a carne é impecável

 

e melhor colina não há

que a do púbis a que boca suba

inevitável e pura.

 

Ó pátria carnívora

e única vital

que eu te adentre

com música selvagens

e golpes cadenciosos

abrindo pássaros

em teus flancos nus.

 

Navegarei – nauta delirando no rumo do corpo

pelo vale aberto das pernas

e no arroio lascivo dos sumos mergulho

tuas íntimas terras meu tugúrio

milho, céu, sede

onde garças do orgasmo deslizam

como relâmpago o êxtase

nelas se aninha.

 

(Este poemas da madrugada serena

doo a ti, impossível amiga).

 

Te amo como a um fuzil abandonado

como a um tenor que sufoca a garganta

locus do amor.

 

À cálida vida a dentro de ti

embriaguez vital, não resisto.

 

De tua seca boca – cifra dos meus desejos ocos

não desisto, és adorno

do manjar humano, erva viva

seiva, humo, suco mágico, saliva serva

arena do amor. E estertor.

 

Quando fustigas o desejo, sou.

 

Abandonado como um náufrago

da noite eterna e só não sou.

 

Sem a terra do teu olhar

sobre meu corpo nu vivo.

 

Nau rosa do teu seio

crespo mar dos alegres pentelhos

salmoura do teu gozo insano

cruel manhã que interrompa o amor

ocaso doloroso do fim do beijo

páramo negro do teu corpo cru

horizonte fechado dos olhos em cio

tudo foi naufrágio.

 

Sei que meu porto é ao sul do teu ventre

minha baía são as águas de ti

que me submergem a boca vital

minha veia é tua veia

em tumulto no leito alado.

 

Teus gestos são como água

sobre meu tórrido espírito derramada.

 

Perfumes são teus beijos

(que me devoram inteiro).

 

Terra devastada sou presa

de teu seio estremecido.

 

Abandono-te a boca

mas teus beijos duram.

 

Como vaca embaraçada

é meu ser que abandonas

quando férreo amanhecer

interrompe  o amor

estraga o êxtase

tudo acaba.

Para em nova noite renascer

mal a cicatriz da manhã morra.

 

Quis ser feliz como uma folha

que me secas

como um deserto que me atravessas

como o horizonte que me negas

não sou feliz

o céu é pétreo

a vida água estagnada

o amor ilusão amável.

 

Olhos condenados a não te ver

morreram.

 

Vida deserta que me deste

não é.

 

Nascer para viver morte

e não ser um todo em ti...

 

Pra que manhã

se à noite já não te fruo?

Debruçado sobre metáforas nuas

sob anestesia da solidão doente

hipnotizado por matizes surdos

abandono em mim o ânimo

único recurso... além do motel da vida

é a manhã sem luz interior

(até a lua – esse cão vadio

me deixou sozinho e late

quando não te vejo)

à jaula do amanhecer jogado

como um osso ou uma hóstia.

 

Se sono já não fecha a pupila

se deserto do teu ser me acolhe

se ausência do teu corpo me tolhe...

 

Já não gritam as crisálidas

já pérolas do desejo coagularam

dormem pianos do afeto

úmida relva do íntimo bosque

à boca se nega

conceito do amor cessou

só restam a mim o pântano do poente e o irreal

a tosca realidade sem ti

o medo de não ser mais eu

todo o ardor morto

toda a beleza do gozo negada

ocasos movediços restaram

febril primavera não durou

mais do que uma noite distante

esfumou-se a geometria do êxtase

restou só a cinza do inerte

e velhos despojos do desejo.

 

Não se pode deixar o outro um só instante.

Solidão é doença incurável como manhã.

Beber o vazio não embriaga, mata.

Acariciar o deserto é dose.

Cor fica surda sem amor.

Silêncio alucina.

Beijo não se bebe a si mesmo.

A cama já não tem sentido, lençol trapo sem tino.

Sono irreparável.

A lascívia dos lençóis cessa.

O sal dos lábios é ácido.

Alba é pesadelo vasto.

Noite, puro martírio.

Que é vida sem a outra?

O júbilo é escuro

a luz chora.

 

 

Onda de artérias vazias, o rubro pálido

deleite morto

dor presumida

não mais gemido, só rancor

e concerto de desventura

estéril a essência só

 

carne sem ardor

abandono puro

um silêncio branco e uma palavra morta

o som da cinza escuto

na noite indestruída

da hora deserta e dura

a ferir o tempo do ser

sem o viver no outro.

 

A cada palavra

só o silêncio lauto responde.

 

Te foste com a aurora

e meus olhos morreram.

 

Tudo o que não dizes ouço

como uma perda, um pássaro morto.

 

Tudo o que calas sinto

como palavras sós.

 

Não estou, mas estás.

não sou, mas és.

 

 

De solidão e silêncio

não se faz poesia.

 

Se faz dor intemporal.

 

Todo o teu ser deixou-me.

E nada restou.

 

Toda a eternidade é pouca

para curtir ausência longa.

 

Já não existes, mas já não te quero talvez.

“Para que nada nos amarre

que não nos una nada”

Ao crepúsculo da rosa.

 

Só restou um vão desejo imenso

e quase uma dúvida.

A cinza de um sonho roto.

A verdade de uma vida lassa.

 

E uma irrespiração profunda.

Sem pássaros ou amparo.

 

Só o eco de um beijo úmido. Seco.

Lábio saturado de desventura.

 

Restaram espinhos meus

da cruel rosa do teu olhar.

 

 

E não ficou a pele, ficou o frio.

A única pele era a tua em mim.

 

Um mar desolado restou

de águas noturnas e sem espumas.

 

Não restou o rio (que eras)

só o ribeiro solitário (que sou).

 

Algumas sílabas do desejo

vida levou de roldão pra onde

para o ralo (que sou).

A comporta que eras se fechou.

Alguma memória

mesmo como cicatriz

não restou.

Só restou.

Só restou o resto.

Nem um sopro restou. Ou um vômito.

 

Comentar


Código de segurança
Actualizar