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EPÍGRAFES DE BORGES PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Sexta, 16 Junho 2017 22:35

Não me conceder Prêmio Nobel

tornou-se tradição escandinava.

Tudo é efêmero.

A imortalidade seria o inferno.

 

Talvez me sinta tão perdido

Porque o mundo não tem sentido.

Parece-me que devo morrer, e devo morrer

realmente. Acho que já vivi demais.

E tenho grande curiosidade.

Creio que a morte deve ter um certo sabor;

tem que ser algo peculiar, como nenhum de nós

nunca sentiu antes.

Alberto Girri me disse que esteve

com Mujica Láinez um mês

antes de sua morte e que ele disse que estava

perto da morte, e não sentia temor

mas que tinha certeza de ir-se para sempre.

Essa certeza não pode se basear em visões

ou fatos, senão no sabor peculiar

que a morte tem e cada um saberá

e será algo como nunca se sentiu antes.

A aproximação à morte é um fato e ela vem

acompanhada da impaciência. Quem sabe

quando chegar o momento da morte

me mostrarei um covarde.

Tenho visto algumas agonias, tantas quanto

um homem de 84 anos pode ver. E sempre

quem estava morrendo demonstrava

grande impaciência, estava desejando

morrer de vez, logo

sem mais rodeios, cerimônias brancas e tais.

Creio na morte. Espero morrer

o mais depressa possível, mas continuo

a viver obstinadamente.

Com ela poderei recuperar a escuridão

em toda a sua plenitude.

Não sei se a questão da vida além-túmulo

é uma ilusão recomendável.

A morte é esse outro mar, essa

outra flecha, que nos livra da lua

e do irremediável, que consola.

O amor torna homens impotentes

e patéticos, brindando-os com o valor

do irrecuperável e do incerto.

Whitman teve razão ao negar a rima.

No caso de Hugo, seria insensatez.

Simular pequenas incertezas é preciso

já que, se a realidade é exata, a memória não o é.

 

Hoje, ao cabo de tantos e perplexos

anos de errar sob a vária lua,

me pergunto que azar da fortuna

fez-me temer espelhos.

 

Comparo certas poesias com o Polyalbion

de Michel Drayton que registrou

em 15.000 dodecassílabos perfeitos

a fauna, a flora, a hidrografia, a orografia,

a história militar e monástica da Inglaterra.

 

Esgotarás a cifra

que corresponde ao sabor do gengibre

e seguirás vivendo.

 

Todos os livros são um mesmo livro

e abomináveis como espelhos repetem a mesma palavra

 

A arte deve ser como espelho

que nos revela o próprio rosto.

 

Incessante espelho que se olhe

em outro espelho, e ninguém para vê-los.

 

Que errante labirinto, que brancura

cega de esplendor será minha morte.

 

A democracia é um abuso da estatística.

 

Creio que não há nenhuma razão

para que um governo militar exista.

Não são preparados para isso.

Se pessoas têm passado de desfiles e quartéis

não sei se isso as capacitam para a coisa pública.

 

 

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