Murilo Gun

Admmauro Gomes

Quem está online

Temos 83 visitantes em linha

Assista

Siga-nos



POEMAS ABANDONADOS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Sexta, 16 Junho 2017 22:38

“que o poeta use, no poema, mais de

silêncio que de palavras” CDA

Abandonado pelas musas porque lúcido

sou apenas simples humano entre tantos (trastes hominídios)

que reza ao vazio ante às puras fauces do abismo

depois do túmulo das ilusões perdidas abeira-se a realidade capciosa

e vai ao ápice dos maiores centros de compra do mundo

depois ao beco das últimas lamentações.

(Onde ao tumulto do vômito sucede

a razia dos sonos cansados e o sonho

sob posse do deus lírico do álcool se alastra).

(Poema ao farto silêncio de que é feita a poesia).

 

VI    I

Vi o    mar morrer, a água exaurir-se com a vida

marítima e cetáceos da areia agonizante

vi suicídio de abelhas, pólem demolido, a cólera do mel

vi néctar derramar-se no abismo cego, amaro e puro

e astros hectombarem

vi a dor fecundar (fértil e dolorosa estirpe regerminar

vi planícies e planaltos copularem parindo ratos

e sombras de ratazanas enlutarem o sol

vi o triunfo das bestas e dos pastos blasfemos

insônias sitiarem meus olhos, a escuridão nascente

vi vômitos comungados em despenhadeiros amarelos

ocuparem gargantas, esôfagos, cânions da laringe

vi escárnio, opróbrio, usura, ódio, desventura

me crucificarem na esquina do mercado mais próximo.

Vi o sino das alvoradas bursáteis anunciando aurora de martírios

e éditos de sangue pregados nos púlpitos por diáconos obesos.

Vi agonizar o mundo e seus asseclas que se proclamam heróis de pano

capitalistas pesados, escravos, presbíteros do pânico,

banqueiros de Ectábana, prócer curdo

profetas de pedra (e suas vozes de tório e plutônio) oráculos metálicos

novos apóstolos do messias movido a óleo diesel e gás mostarda.

VI    II

Vi Verhaeren ler Baudelaire

(que bebia absinto numa noite amarela de Paris)

ouvi débâcles e negras finanças esvoaçando

em meio a túmulos de ágios e vícios

vi a voluptuosa Vênus de Milo embelezar-me a clavícula

de gozo estético e fino instinto

vi Ginsberg se banhando no Ganges

às cinco horas de uma manhã indiana, o rosto

abençoado por monções e bênçãos de zênite

e Burroughs orando num templo de jazzen

vi o eco de Kerouac arrebentando

os tímpanos dos cânions rodeados de narcisos áridos

vi cafés de marfins, torres de éter, velocinos de ira e épura de ouro

vi abismos e deltas longos, vi trêmulos azuis, vi

cáftens selecionando rapazes

numa rua de Amsterdam, às 4 da tarde

vi Solomon ler Howl a plenos pulmões

na 7ª Avenida, e passantes vociferarem contra o futuro

vi Snyder e Corso amando-se sob chuva fria de Cleveland

na encosta da auto-estrada sob fulgor deserto das estrelas de abril.

Vi gerúndios abandonados boiando

em meio a destroços de palavras.

Vi gerânios e debêntures amarelados.

Ouros irônicos destemperados, vórtices domesticados.

E restos de frases enferrujado.

 

Comentar


Código de segurança
Actualizar