Sinto-me causado por elementos sem corpo
por vésperas de feitos ressuscitados
por hinos de outono, por folhas de acanto
o alento foi-me fuzilado como uma bofetada
nos pulmões ávidos de espaço e fluxo, ar
de que devoto e sôfrego fogo necessita
para fender a pedra, chama líquida
odre empedernido, caixa de pássaros, lume
varre a terra, desola a alma, fuga infinita
o falo da palavra, hímen do poema escavo
sombra de mostarda, fuga para o éden renato busco.
Olho as páginas de um ventre escrito
estrelas entreabertas, coxas celestes, lumes arcanos
a joelhos de palavras me devoto, acato
mar estremecendo em minhas mãos escuras
ondas revoltas esmiuçando preces de gaivotas
mapas crivados nas linhas do precipício do rosto.
Jardim podado, mundo perdido
no interior de suas cores fúteis, adjetivas
fúteis adjetivos corroendo o poema
a branca alma da página corrompendo
moenda de palavras, pó imagético, ígneo gesto
do poeta esclarecendo o sexo
das coisas estéreis objetos sem ventre
escanhoando o mundo humano como pilão divino.
Ao coração movediço do homem
me confesso
Vozes podam o íntimo
como se foices instantâneas fossem
punhais transitórios como o dilúvio
escaneiam nossos áridos espíritos
esperanças perigosas nos acossam
nos levam do distúrbio à derrota
seguindo os instantes chegamos ao impasse.
Percorro o ventre letra a letra com volúpia
e encontro-me nos braços de outra morte
que me lê, verbo tenro, ávido, finito
como a fome ou o comício
os matches, as comendas, os intestinos
do triunfo, o alarido escuro, a pedra da página
o esquecido paramento da náusea desprezo.
Tudo o que seja degredo e manhã humilho
acácia e aurora são desperdícios
o nome íntimo da dor é sacrifício
a verdade fulgura nas bandeiras derrotadas
nada mais alimenta o homem
do que a palavra imprecisa
de que o espírito se vale para ser indício.
Céu estrebaria de estrelas.
As trinta moedas de Judas
eram estranhas. Algumas
eram de tântalo, outras de urânio avaro
com traços de ureia mecânica.
Das sete meio conservadas
sábios ourives, sérios numismáticos verificaram
debruçados detida e tecnicamente
serem de ouro de tolo e prata falsificada.
Embora corretas de forma imperfeitas de fundo.
O banqueiro que contratou Judas (beijoqueiro)
ou o empreendedor que o pagara
era moedeiro falso perfeito.
Burlado com lassas moedas sem lastro
escapando dos dedos traidores
Judas apenas enforcou-se numa haste
triste de figueira tempestuosa.
Tenho dó do Porto do Recife.
Embarcações ao léu.
À deriva a dor
dos barcos abandonados
presa de amarras eternas.
A ferrugem, irmã da água, em festa
no cais do Porto do Recife.
Gruas sofrendo.
A angústia dos guindastes às claras.
Doe-me o Porto do Recife.