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A PERVERSÃO POÉTICA: entre a Tradição e a Invenção PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quarta, 19 Junho 2013 16:48

Sébastien Joachim

 

 

Depois de esclarecer o conceito de perversão, apresentaremos a razão por que o poeta é um ser cujo trabalho de mundificação invalida o comparatismo crítico. Exemplificarei essas considerações preliminares pela breve leitura mito-poética de um poema.

 

 

 

Da perversão

 

Da perversão como tema, assinalamos apenas as características seguintes:

 

1. A perversão é uma estrutura da Psique comum a todos nós (Piera Aulagnier) mas que se denota como logomarca das personalidades criativas.

 

2. Essa estrutura se caracteriza por uma aguda angústia de castração associada a uma interrogação incessante sobre a identidade sexual e sobre a identidade humana.

 

3. O desconforto resultante dessa agitação psíquica é contemporânea de uma profunda intuição cognitiva. O perverso antecipa de longe a experiência vivida e demonstra assim uma certa singularidade. Ele funda a universalidade nas trilhas da particularidade.

 

4. Nesta perspectiva, a singularidade perversa coincide intensamente com uma afirmação de si e uma auto-legitimação: o perverso acha-se certo naquilo que percebe, naquilo que sente, naquilo que recorda, naquilo que prevê. Já deu para registrar três coisas: a estrutura perversa é desprovida psicanaliticamente de qualquer conotação pejorativa. Ela combina um processo paradoxal de rejeição irreverente e um condicionamento narcísico. Irreverente a respeito de quê? Irreverente para com o discurso dos Imagos paterno e materno, irreverente para com toda a ordem simbólica e as instituições, inclusive a sua própria arma de contestação: a linguagem. E também, a atitude perversa despreza os comportamentos pragmáticos ou estéticos do burguês e do bom mocinho. Daí a sua permanente oscilação entre a Tradição - ou seja os discursos e fazeres do passado - e a Invenção, ou seja, os discursos e fazeres possíveis.

 

Pereça a Tradição e Viva a Invenção

 

Com essa fórmula digna de toda estrutura artística, logo perversa, já abordamos a segunda parte de nosso título. Para Hegel e Mallarmé, o poeta era o artista por excelência. Até a música lhe deveria ser subordinada. E veremos isso daqui a pouco, no funcionamento do poema exemplar que temos escolhido.

Nos belos dias do Surrealismo francês, Guillaume Apollinaire era o porta-voz de toda uma leva de poetas, herdeira de Verlaine, o famoso poeta que, no seu poema , L'Art Poétique, demostrava a ambição de driblar os músicos fazendo cantar os seus versos.

Tomamos a liberdade de Ihes remeter àquela passagem do poema intitulado ZONE, onde Apollinaire falava de uma luta acirrada entre a TRADIÇÃO e a INVENCÃO. Queremos, prossegue ele, trazer para vocês flores novas, que não são suas flores, queremos, parece ele dizer, fazer ouvir um novo som, um novo canto. Pois nossas flores não são as suas flores, vale dizer, nossa arte não é a sua arte.

Num outro poema, intitulado Os Poetas, ele foi mais taxativo ainda, no que se refere à Arte do passado e de um agora sempre em deslise em direção do passado... Lemos, na segunda estrofe da versão espanhola desse texto:

 

Los poetas van cantando Navidad por los caminos

Celebrando Ia justicia y esperando el mañana

Ias flores de ayer se han marchitado y ya no se piensa

en elas. Y Ia flor de mañana vencerá.

 

A irreverência e ao mesmo tempo a ambigüidade da atitude poética se revelam nesses endereços ao Tu interlocutor da Tradição.

Em "Zona", o poeta pede desculpa ao passar alegremente sobre as preceptivas e modos de fazer poesia que vigoravam. De ambos os poemas citados, inferimos duas advertências para amadores de poesia de Pernambuco e do Nordeste, a saber: ao obedecer religiosamente a formas, visões que fizeram receita no passado, ou seja, que trouxeram glória poética a certos antecessores, corre-se sempre o risco de ser um epígono, um artista de segundo escalão. Segunda advertência, aliás uma decorrência da primeira, mas que logo nos conduz a nossa terceira ordem de considerações: o artista, o poeta é único; uma pessoa é poeta ou não é. Não existem dois exemplares da mesma categoria. Cada poeta, cada poema exaure uma espécie.

Da mesma maneira que não há dois planetas iguais, não há dois poetas iguais; da mesma maneira que não há duas flores totalmente semelhantes, não há dois poemas semelhantes.

 

As armadilhas da comparação

 

Diria mais: Um poeta é um irredutível Narciso. Só nele próprio é que se pode espelhar, senão explode como realidade existencial. A rigor, seguindo algumas observações do psicanalista Didier Anzieu que distingue entre as produções da juventude, a produção da maturidade, a produção da terceira idade (acrescentaria uma quarta, que não terá fim, pois os poetas são imortais), a temporalidade pode ser o fundamento ou o tertium comparationis entre fases diferenciadas da produção poética. Mas, é completamente improcedente comparar um poeta com um outro poeta, um poema de Fulano com um poema de Bellrano ou Sicrano.

As visões de mundo, da sensibilidade até aos processos cognitivos mais abstratos, são exclusivas e incomensuráveis.

É por essa razão que um poeta qualificado teluricamente de nordestino é isso e muito mais do que isso. A ordem que emerge com ele entra com ele no tempo e na eternidade. sem paralelo possível. A Literatura Comparada, esclarecida pelas conquistas das Neurociências, vai ter que fechar o capítulo da comparação entre poetas. A poesia se saboreia e se contempla por si mesmo e em si mesmo. Não se a comenta comparando.        ­

Wilfred Ruprecht Bion, psicanalista de renome, tem-nos preparado a adotar essa atitude. Ele se inspirou no Mestre Eckhart, teólogo da Idade Média. Eckhart defendia a idéia de que existem realidades tão peculiares, tão sui generis, que apelam para o silêncio. Essas entidades, a deidade em primeiro lugar, nos acuam ao indizível, ao inominável.

Bion acha que só podemos as sugerir pela via de um clima onírico. Numa página de seu livro Memória do Futuro, ele se expressa do modo a produzir esse clima. Aplicando o seu procedimento, apresentamos, para concluir essa parte, o diálogo imaginário que um poeta, cônscio de sua função perante o seu público, travaria com um interlocutor que poderia ser o seu público.

 

<<Quem és tu?

<< Sou o sonhador que sonha um sonho (...)

<<Quem és tu?

<< Sou o sonho que te drogou para que

<< Não saibas que eu era um conceito (...) que só se exprime

por imagem.

<< Assim, tu não saberás em que direção eu te

<< desencaminhei. (...)

<<O que é uma imagem?

<< É o espaço absoluto (...) no qual existem objetos tão

compactos que se assemelham às estrelas. Ou tão esparsos e raros que não podem ser apreendidos (...)

 

Tal é o poeta e a poesia da Modernidade de hoje e de amanhã: sua estrutura é perversa até o sublime. Sublime até à exigência melancólica que, como se sabe, vive da aposta seguinte: nunca sacrificar a parte para o tudo, o fortuito para a necessidade, o concreto tirado a um exemplar para o abstrato. E sempre ganha.

Tal é a estrutura que toma único o poema intitulado

 

“SOB NARCOSE

 

Anárquico Narciso acorda

Do sono especulativo!

Não beba com os olhos

As águas narcóticas do eco que multiplica

A imagem nas linhas da diversidade cíclica

Em círculos crescentes concêntricos

A dissolver sonhos e olhares

Como metais de pesadelos

 

Narciso entorpece a extensão de si

Embota o duplo em outro singular perfeito

Mergulha com seus deuses hipnóticos e fundos

E o fragmentos de Eco não o traz à tona

 

O rosto repete-se escoa e se quebra

No pranto da ninfa por Narciso morto

Afogado no fluxo de seus próprios ou falsos reflexos.

 

Narciso não conhece a própria alma

Apenas se apaixona por miragens náufragas

Vindas do corpo de um espelho áquo

 

Narciso se torna no que (se) contempla

Numa imagem de si ou do outro mesmo

 

Narciso esteve fora (e dentro) de si e de outrem: o mesmo”.

 

(Recife, 14 de fevereiro de 2002 – Vital Corrêa de Araújo)

 

 

Extraí esse texto de um conjunto de vinte poemas relacionados com o tema do Narciso. Como se sabe, a personalidade mítica de Narciso é de índole nitidamente perversa: a mise em abyme deste poema nega duplamente a lei da tradição do discurso amoroso; reparamos que a ninfa Eco lhe faz horror, tanto por tê-Io caçado como objeto de desejo quanto por ser uma desfalicizada. Essa ambigüidade redobra-se num outro: Narciso se ama até a cegueira de tudo que não cabe no seu egocentro, mas acaba, diz o poema, introjectar Eco na sua constelação egóica.

Vital Corrêa de Araújo teve assim essa audácia de re-simbolizar, na sua re­escritura do mito, mitemas ou elementos antropológicos que a tradição separa, No ambiente que ele constrói e reconfigura, Narciso, até então essencialmente um gigantesco olhar interior que invisibiliza Eco e regula seus impulsos sonoros, arriscou-se lá fora aguilhoado pelo desejo da alteridade. A visão interior vira imagem deformante. Objetiva-se o transcendental, perverte-se o sublime no belo, mundaniza-se o poético em representação, dessacraliza-se a deidade em expressão mimética.

Tal gesto é mortífero. Paga-se pela travessia do espelho, ou seja, pela loucura. Mas a demiurgia do poeta Vital Corrêa de Araújo recupera a loucura narcisista em flor de poesia, onde não pára de ressoar Eco. Só as espécies dos significantes sonoros, assonâncias e alliterações, isomorfismos, a níveis dos versos e das estrofes.

Ao plasmar-se câmara de ecos, o poema de Vital Corrêa de Araujo proclama que a poesia é mulher. E, rediviva, Eco se toma Narciso, Narciso incorpora Eco, o ecóico rima com o egóico na totalidade da página feita tela e mundo. Oniricamente, a poesia é canto depois de naufragar-se no silêncio das águas do Parnasso; a Invenção desabilita e reabilita a Tradição.

 

Narcisicamente obrigado, Vital

Perversamente obrigado, caros ouvintes.

 

 

(Texto de palestra proferida no 3º Congresso Brasileiro de Escritores).

 

 

 

 

 

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