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Escrito por Administrator   
Quinta, 10 Janeiro 2019 23:30

A um anjo de barro peço areia guarida

a largo inferno caminho de casa

à forma do pão desvarios de trigo

a palavras idólatras liturgias líticas

a verões blasfemos sol de satã

(ou de Bernanos perdão por escrito)

a invernos de Jesus verão farisaico

indevoção por mina alma cão

e se não mais direito tenho a Deus

que a verdade morra em minha mão.

 

Que nenhuma morte se orgulhe de mim

e em seu medonho lugar não me registre

sempre não me aliste discípulo a sombras

que a morte morra mas não alcance

o poeta ou a palavra, que erre a alma

ou deslize na terra estranha e solitária

em que vergasto a vida em solidão

com a árvore e comunhão com o verbo

que os ossos não cedam ao cansaço

ou descaso do cálcio... e nem mais

me sujeitem os maiores a venenos diários

acasos, faods, sinas, destinos falsos

estações enfermas, baixos salários

a messe do capitalismo pecado rejeito

vanglórias não me atentam, não me

contentam paz e suor pagos, enfim

morrerei sem mim.

 

A morte morre um pouco

a cada bom gosto, a cada limão novo

a morte morre um pouco

a cada sopro que a varra

a cada circuito que a perca

a cada perda que se lhe negue a vida.

 

Dor, pregue na cruz

com prédicas de Vieira, santo

da palavra irmanada

santo do sermão da saudade

vernácula e eterna como tudo ou nada.

 

Não mais judie de mim o medo

de não ir a lugar algum

se nenhum sítio existe está em mim.

 

Amor, estranho amor, não louves

a mim servo da carne sutil

adepto do fogo varonil, possesso

de comerciárias virtudes, egresso

de dinastias sem ventre, omisso

com o tempo e a memória das dores

sem perdão, desculpa, castigo

com as vestes vis da alma em riste

apenas poeta lítico e escasso

apenas tão frágil como o homem.

Ardis não afiam a dor

nem a adormecem, apenas

a afiam e multiplicam como homens

em coitos  ensurdecedores ou calmos

a reproduzir-se como ratos

indomados e aborrecidos porque

apenas engajados na virtude de quantidade

na aventura do jorro conjunto

de sêmen e náusea

de gozo e fuga em direção

ao nada de que viemos

para o último nada definitivo.

 

E a dor reluz no sentimento amorfo

e esplende no leito de agonia

não resistindo à tentação da larva.

 

Dos becos esconsos escorre som turvo

e ambições vazias escorrem como sais

para formar lodo e sol, sino

que o sopro da esfera desonra

trombetas defuntas, ameias corruptas

se agua e fogo morrem

porque ficaram sois ou farturas

que não da cegues árida

do escuro da sombra viva

se fome, febre, lucro ou amor morrem

e em pranto se desfaça o espírito

então... por que o que exceda fique.

permaneça o que se supõe eterno

se mantenha a meada do meio-termo.

 

Ossos escuros, índices degradados

carnes enlatadas, discos ulcerados

bolsas rompidas, bolsos fechados

como punhos no rosto da náusea.

 

Rumo à morte do eterno sigo

prenhe de que a vida é um muro

sem sombra de areia desmoronado barro

turvo como a eternidade

 

ao eterno turvo senão ermo sigo

alto como ereto pássaro

que além do poente encontro

pouso infinito sempre... e que

imã nenhuma suspenda

a ferro e fogo ou não

a fé do coração

eu a manda verbal

na página da alma vital.

 

Não vivo ou sinto a vida senão palavras

vazias de um tempo sem têmpora ou ardor

como açor vejo o mar aberto de mim

e ouço as asas do tempo fechadas

o círculo que se abre escuto

como se soubesse ouvir conchas

embora queira a última fronteira

dobrar sem medo, temo

não distender o arco... e a seta morrer

em minhas mãos atadas pelo liame ávido

como ao poema vou persegui-lo

anos sem luz viajando

trevas a apontar o mais claro

dúvidas a interrogar o sal

embora não mais saiba

pensar ou sentir o certo

ou ser só um vaso vazio

como sou.

 

 

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