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POEMA NÃO É VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Sexta, 15 Fevereiro 2019 13:45

Quanto maior a densidade e diversidade da forma e complexidade da substância poética condizentes a uma expressão não raro obscura,

de teor esfingético alto, mesmo hieroglífica deveras  - portanto hermética, em que o espelho da contemplação se turve e se cinza de lampejos escuros; e tramas do trapézio significante se ordenhem, é que a sede da obscuridade  se avulta e a pirâmide do poema de geometrias obscuras se craveja.

 

O que seja cristalino se demite no poema absoluto, a poesia do porvir vindo.

Extrema dificuldade, esforço inigualável, alimário trabalho são exigidos de leitor absoluto para penetração na trama, no urdume do sentido. Sem tal, não seria poema absoluto. Porém, inferior.

Nenhum artista, poeta ou outro que aja no imo da arte, ao produzí-la, precisa doar atenção a aspectos e condições de comunicabilidade para leitor possível (e impossível) se deleitar das facilidades vérsicas. Pois, o poema, se comunica, comunica algo diferente a cada leitor. Se for poema. E não, nunca, a igualdade a mesmice de igual entendimento (meridiano), para todos esses impassíveis leitores.

Mesmo que a obra para ser aceita necessite atender à demanda de entendimento (ou comunicação emissor/receptor, canal eficaz) ou mesmo permitir maior ou menor facilitação ao requisito (não essencial) de comunicabilidade, isso nada tem a ver com o valor intrínseco da obra, como realização lírica ou artística.

Se a obra falha na comunicação estrita, ela se gloria no aspecto artístico.

I.A. Richards observava, com precisão e agudeza, que não se pode louvar ou condenar a obra de arte (o poema realmente artístico e não meramente dotado de todas as convencionalidades vãs satisfeitas), quer com fundamento em seu aspecto de comunicação estrita, quer em sua ritmia mecânica estabelecida. Se o poema que lemos se afigura inadequado como veículo de comunicação e assim não apreenderemos ou logramos discernir de pronto a mensagem esperada (o sentido lógico, exato, imprescindível, não estaremos em condições de julgá-lo e menos ainda de lhe atribuir valor (grande ou não).

A falência (aparente) da comunicabilidade não é razão jamais para rejeitar um poema (só pelo aspecto extrínseco). Ao contrário, é motivo de lê-lo ainda mais. Com vistas a realçar o valor intrínseco.

O imenso poeta absoluto Murilo Mendes lutou a vida toda, na banca da crítica poética, aqui, em Portugal e na Itália (onde a crítica se estendia à música e artes plásticas), pelo que considerava o máximo valor da poesia, que exigia o enquadramento do poeta no âmbito de uma concepção geral do mundo e das coisas, como condição de trabalhar a poesia, em seu sentido universal.

Toda a vasta obra de Murilo Mendes está eivada de obscuridades e incomunicabilidades (aparentes). Ai, reside sua singularidade, que o coloca entre os 10 maiores poetas brasileiros do século XX.

 

 

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