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A PALAVRA QUE QUER(EM) CALAR PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

Que é isso, Vital (me indago, de chofre) de indecifrabilidade da poesia como amuleto da página,

como espírito ou demônio do texto, como condição da náusea que o inexplícito (ou apenas a sugestão lassa) sempre causa ao cidadão, leitor comum? (É que a poesia exige leitor incomum – como as minhas leitoras infiéis – e impõe grave e extensa responsabilidade a quem lê o poema sob égide da compreensão). O poema antes serve para nos compreendermos do que para sermos compreendidos.

 

A poesia desentranha o fora para moldar o dentro. É como a cópula ou o inocular na veia um veneno (ou na veia do veneno a vida). Visa ao rapto do sono da usura (das palavras) para extrair o pesadelo do tributo devido à página (parceira em ato de potencializar o objeto da poesia, o poema). A mais valia é da imaginação feto e fruto.

Tudo de que fruo do mundo é o de que a poesia se apropria (de sua ração de espírito), mesmo contra o homem, se este – em particular, ainda não deu o salto (dialético) do estágio hominídeo para o sapiens, eticamente alto, humanamente pleno.

Mateus, deliquente porque desaforava, porque confiscava o excessivo, a demasia, porque podava a desmesura, porque abocanhava a parte do todo (para comunhão do homem); diligente coletor, assustava o mercado (de valores banais e uterinos). Os bursáteis pecados exigiam outro tipo de indulgência. Mateus, em sua exação imperiosa, com sua maleta de injúrias (contra os juros), era antipático e sua função exonerativa perversa. Engendrando, como Lezama rezava, versículos perplexos e indecifráveis, no tecido bíblico inconsútil da alma. Mortais para o ser do ser humano normal (ou médio). Para quem o logro é vital.

O ato crucial de cobrar o que sobra ou excede (ato mateusítico equivalente à criação maiêutica da vida do ser de carne e de palavra) é poesia pura, despotencializando o espírito de seus gravames adiposos, sobras desumanas e sucumbências, porque retira do homem o excesso de aspereza (de sua alma tão mortal) ou redundâncias da vida, ou os excessos goliásicos, vaidadescos, soberbos acúmulos contra si mesmo.

Mas porque a poesia é (seria) algo tão inexplícito (sentidos hermeuticamente trancafiados em escrínio de palavras), insisto!?

É que a poesia é anticausal (vem do acaso da alma e não de causa material, logicamente estabelecida, externa); é uma causa que não gera efeito (ou sucessos preestabelecidos); não cria mecânica no espírito, não interrelaciona A com B, C prévios.

Sego onde não semeio (isto é, apuro o que não cumpro ter) e colho onde (e o que) não espargi (isto é, o fruto poema não tem messe certa ou azul safra exata). E acolho o que não previ. O poema é tão intenso que se cumpre em si, sem a trama ou o trauma humanos – e falhos, alemãs.

Mesmo se quando todos os elos da causalidade (mecânica ou não) forem devidamente rompidos pela força inata da ciência da intuição, em ato dissolvidos desaparecerem, o poema fica, é, engendra sua gravidade própria, sua órbita épica estabelece, norteia o percurso lírico, como ser independente de palavra (até mesmo do poeta). Essa grave gravitação advém do potencial de imaginação que a alma do poeta comporte e atualize.

Que é isso, Vital, de indizibilidade da poesia como superstição da página, coisificação da palavra ou sua reificação, identificando palavra e coisa? (juro e jurídico).

Isso é o mistério da poesia. Na frase (prosa) a palavra se gasta (o prosaico é corrosivo) e pode ser substituída por outra; no poema (ou linha), a palavra nunca se gasta nem se exaure, antes, adquire mais valor, valia super, torna-se mais palavra do que no dicionário, na lição excelsa de Cassiano Ricardo.

E essa resistência – e sobrevida da palavra poética – é tão alta que absorve as tenazes tmeses de Cummings,  as magníficas interpolações de Pound, as supervirtudes reais de Breton, os objetivos correlatos de Eliot, as maquinações imagéticas de Joyce, e assim supera dialeticamente as aventuras e vicissitudes da poesia. Desautomatiza o espírito.

Mas, por que a predominância, na poética do século 20, do hermetismo, ou o que torna a poesia indizível?

Outros quinhentos que Rogério Generoso encara a seguir.

 

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