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MARIA CRISTINA CAVALCANTI, CÉSAR LEAL E BLAKE PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

Desde que assisti, no apartamento de Deborah Brennand, a César Leal e Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque abraçados à tarefa de traduzir O tigre de Blake e Leda e O cisne,

de ................., comecei a ler mais profundamente esses poetas – e Bizâncio foi um poema que muito me afetou, assim como os salgueiros de Sião, à beira das águas do mistério vital.

 

Servia o chá e ouvia a disputa, o conluio, a vibração e o êxtase dos dois próceres literários a traduzir os poetas britânicos.

Sobre O tigre é interessante saber que Blake nunca viu um tigre, a não ser empalhado, nos museus naturais (embora muito mal empalhados, face ao nível técnico da época). Não havia foto, vídeo, filme, nem haviam tigres na Inglaterra. Era o tema e a expressão sublime do muito louco Blake. É que o tigre – e outros animais – era crucial na mitologia de Blake. Algo inocente e trágico, perfeito, generoso, esplêndido esteticamente, mas perigoso, selvagem, destilando horror de suas letras rajadas que Borges amou.

Eliot, contaminado por Blake, chamou Cristo de tigre (a forma inocente e perigoso como ele se apresenta).

Eis a simetria cruel de Blake, o verso temível, amedrontador:

“Em que céus ou profundezas

arde o fogo feroz do olhar?

 

Tigre, tigre, brilha a chama

nas florestas da noite.

Que olho mortal, qual mão ousou

moldar tão terrível simetria?

 

 

Em outro verso, Blake aparece destilado pela Revolução Industrial, que começou na velha Álbion.

Qual martelo, qual grade ou ferro?

De qual bigorna tua força

teu braço forte foram moldados?

O poema de Blake é composto por imagens esfumaçadas, sulfurosas e vibrantes refletindo o ambiente industrial em progresso.

Em síntese, é da íntima e díspare associação entre palavra e imagem que brota o poema. Esse dínamo metafórico é vital. Embora a metáfora absoluta, que diga algo a leitor, não é para ser compreendida, mas para permitir que leitor recrie na imaginação o poema, crie um sentido próprio, um conteúdo para si, independentemente do poema ou do poeta.

18.10.2015

 

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