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PRÉ-TEORIA DA POESIA ABSOLUTA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

Heidegger, já desreitorado – e em paz com o recém-passado infame e a consciência cívica - deu curso (em 1935) ao trabalho sobre os hinos de Holderlin:

A Germânia e O Reno, perseguindo, nada mais, nada menos, do que o mistério da poesia que Holderlin revelava, graças a seu pacto sublime com os deuses gregos. Afirmava Heidegger (H) ser o objetivo último seu recriar um lugar para o que é a poesia, situá-la em nós.

 

Isso é possível, dizia H, transportando-nos à esfera de força de uma “poesia efetivamente poética”, que a nós flanqueasse sua efetividade real – e não as migalhas da aparência e os resíduos ágeis ou não ou os trastes dividendos do simulacro ou penúria comum da poesia dos ditos ou (mau)ditos poetas, como os que hoje pululam as esqueléticas e desprezadas prateleiras das livrarias (?)

Livrarias (?), com seus nomes (dos ditos poetas) estampados ingloriamente em ingloriosos tomos de rimações senis e contação de histórias em versos. Por mero acaso, os últimos 13 livros de poemas que editei, pela BAGAÇO, nos últimos 3 anos, nenhum foi lançado (vomitado à boca de leitor ordinário que me causa engulhos), nem são encontrados (embora não procurados, imodestamente afirmo) em tais esquecidas ou sifilíticas prateleiras de ricos livreiros. E, completava Heidegger, escolhi Holderlin (falecido em 1843. Após 40 anos de plena loucura sã) porque “ele é o poeta do poeta e da poesia”. A propósito, dois anos depois, em meados de 1937, Heidegger pronunciou a monumental conferência de Roma: Holderlin e a essência da poesia. Ocasião em que o vital filósofo disse que Holderlin concernia ao futuro dos alemães.

Embora as grandes odes holderlinianas tivessem sido concluídas na loucura (nos anos 1803/1807), estado insano que durou 40 anos, pode-se denominar o silêncio de Holderlin o período 1803/1843 (ano de sua morte). Silêncio, como o de Valéry, Celan, Rimbaud, entre outros gênios.

Em 1966, Heidegger, ante a situação do mundo, disparou: Só um deus pode ainda nos salvar. A única possibilidade que nos resta (o último farrapo salvífico – VCA) é preparar “no pensamento e na poesia” uma disponibilidade para a aparição do deus (desse Deus Salvador – VCA) ou para a ausência do deus em nosso declínio crescente. Que declinemos então, mais ainda “diante do deus ausente”. E isso nada tinha de niilismo, mas era a pura verdade – daí o que nós vemos hoje -  50 anos depois, assistimos ao debácle certeiro da humanidade, apenas com o consolo (frágil) da poesia absoluta. Nesta, quem sabe? ou como sabemos, resiste (ou melhor, reside) a única e última, portanto, chance de fundar o começo de uma outra história. Pois, “a poesia é a morada do ser”. Digo isso alicerçado no Poder Verde, nos 66 hectares de matas, flores, pássaros, aves, ventos, águas, protegidos pelo utopista prático e visionário verde, Prof. José Rodrigues, “Rei da Mata Sul, que vive em seu castelo, num páramo etéreo, onde se situa o Centro do Universo, o Círculo da Cura e a Pirâmide – e onde tomamos doses – cavalares diria - , porque, a cada  dose, olhamos Pretinho (o mangalarga jovem) e Back, o cachorro risonho – de vodka russa (nasdróvia é a saudação, a cada gole animal). Não somos alcoólatras, nada, somos vodkólatras (eu, o rei e Valter Portela, da Bagaço). Em Garanhuns, eu, Osman Holanda Cavalcanti e Marusan Pelo somos wiscólatras. Este lugar – que me tirou da mira escrita – é o Retiro das Águias, local de retiros espirituais, religiosos, filosóficos, artísticos, literários e clínica (a única no Brasil) especializada em curar a mais recente e periculosa doença, depois do TDAH, o Transtorno de Deficit do Verde (TDV).

Após tão longa digressão, retomo o fio de Ariadne do trabalho de procura da poesia. É que tive de fundamentar minha visão poética com o mais ecológico-poético lugar (onde escrevo). Em virtude do destino...

A tarefa da poesia – que herdamos de Holderlin, via Heidegger, é preparar o advento do deus salvador da natureza, a vinda do verdadeiro poder verde. E de uma nova ética, a ética natural, espontânea, não a ética construída pelo poder capital, que é antinatural (esse poder e a ética dele, adstrita e a serviço dele).

Se Holderlin buscava, entre os destroços do panteon grego, algum deus – e não o encontrara, cabendo a nós buscá-lo – então, ele, o sublime alemão da Suábia, estava sozinho, como nunca algum ser humano esteve, encarcerado por 40 anos na diva loucura (grades gloriosas). E nenhum deus ditou-lhe os poemas, porém foi a “falta de Deus” que o encaminhou à melhor poesia. Esta ausência divina portanto tornou possível, no limite, o poema.

É a tarefa do pensamento que o poeta absoluto cumpre. Ou tenta fazê-lo. E a tarefa da poesia poderia ser o fim da filosofia, tal como a impõe a nós, o poder, tão absoluto do capital e da usura, mas relativo perante o humano. No mínimo, a tarefa hoje do poeta (absoluta faina escriturária, na acepção nova) é continuar o trabalho árduo e magistral ou sublime de Holderlin: preparar o advento, via poesia, do Deus que salvará a história humana, que restaurará o Poder Verde original da Natureza e conduzirá a poesia a seu pódio pindárico e triunfal. Deus está morto, coitado do Nietzsche que assim pensava torto.

Deus virá cuidar das tarefas, quer dizer, ajudar o homem (poeta e absoluto) a dar conta dos deveres do pensamento e da poesia. Deus virá!

O holderlinista (fanático) e intelectual de valia, o francês (como soi de sê-lo) Philippe Lacoue-Labarthy é peremptório.

“O teológico-poético (nos incipt do homem, da religião, da filosofia e da literatura) antigo, como afirma Heidegger na Introdução à metafisica de 1935, está relacionado ao fato de que foi Homero, “sob injunção dos deuses, quem deu à Grécia seus deuses”. (E, quem sabe, Homero inventou Hesíodo, apenas um de seus pseudônimos? Pessoa e sua heteronomia reinventou a poesia moderna absoluta). E segue Heidegger: “O teológico poético moderno é que põe em suspenso o poema da anunciação – o evangelho absoluto – da vinda (ou da ausência) do deus”.

Heidegger teoriza a poesia, em geral, com base na essência que encontra existência e alicerce na poesia de Holderlin.

A poesia absoluta tem, hoje, em vista, traçar, escolher, limpar, adubar, apurar o caminho da essência humana e natural, o destino humano final.

A faina de desbastar a poesia reinante, predominante, estabelecida – e bem, na tradição parnasiana, neoparnasianada, pelos próceres sonetísticos da Geração 45, é quase invencível. Mas não é a missão da Poesia Absoluta, soaria muito romântico. É a possibilidade de um perigo, de perigosa exposição dos pouquicíssimos poetas absolutos: um, em Garanhuns, 2 ou 3, em Recife, e 20 ou 30, em   Palmares, sob a égide do Prof. Admmauro Gommes, líder tutelar da literatura, ao lado do filósofo e historiador Marcondes Torres Calazans. Encarar o perigo que ameaça o ser através da linguagem é se expor ao perigo que o novo traz. Este aspecto é posto a limpo pelo poeta e crítico  literário Rogério Generoso, o mais astuto e completo especialista em Rimbaud, no Brasil.

Isso, porque, conforma Heidegger: a linguagem é o bem mais perigoso que detém o homem. E seria por ela detido se não fosse perigosa. Pela linguagem, o mais puro e o mais velado (a lírica) podem expressar-se assim como o confuso e o comum (a coloquial, a comunicativa, ordinária).

A questão é: missão ou demissão do poeta?

O poeta se demite ante tanta corrupção de rimas (armada contra o futuro). Tanto contributo de imagens do passado, acantonamento de trenas e bilabiais, de cargas silábicas e trens de vulgar metáfora.

Prego em puro vão que poema (no caso o meu) é aquele que é ditado pelo ID. A poesia absoluta é o ditado do ID. Seu ditame. Ou dictamen. É a que a forma é inerente, mais do que interior.

Voltando ao ditame – que Heidegger achou em Horderlin – a linguagem é o mais perigoso (e o mais inocente) dos bens legados ao homem: só os poetas (absolutos) podem avaliar e aplicar tal.

Na Conferência de Roma, Heidegger revelará que, quando Holderlin diz ser a linguagem o mais perigoso de todos os bens do homem (o que ameaça, por exemplo, a própria verdade dominante), ele também a define (à linguagem) como o dom que foi dado ao homem para que este ateste o que ele é. O que e quem ele (o homem) é serão atestados pela linguagem. E o são, no caso da Poesia Absoluta, entre tanto outros.

A linguagem é verbo humano, não filosófico, estético, científico, retórico, vulgar, popular, etc.

Qual a verdade da poesia? Leitor indaga e responde a poesia absoluta.

É preciso, portanto, disponibilidade ao combate em prol da vitória da verdade da poesia, prélio vital, que aos olhos de Heidegger assume o caráter de uma necessidade absoluta. E é a esse embate, a essa situação, que se impõe o chamamento, a convocação para a luta pela nova poesia (cuja tradição se enraíza e se encontra na Geração de 30, tão esquecida, de CDA, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília etc) e no primeiro modernismo brasileiro, que foi “ultrapassado” pela Geração 45. (É risível, não é?).

É a linguagem poética absoluta o mais inocente e o mais perigoso dos bens legados ao homem – e a este espólio do futuro faremos frente ampla e irrestrita.

Isso, porque a poesia é a morada do ser. E não coisa de lazerzinho, coisinha rimada, arrumadinho de rima para banquete burguês globalizado, sorrizinho da sociedade em festa cívica ou filantrópica, coisa bem bonitinha, engraçado que só, nada disso. Poesia é nada e é tudo. Pois dizer é verdade (e mentira). Dizer é certeza (e ilusão).  Tenho dito VCA. E bendito.

Retiro da Águias 14 e 15 de Dez. 2014

 

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