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CONCEITOS PARA ALICERCE DA POESIA ABSOLUTA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 20 Agosto 2013 12:44

A poesia não é do reino das ideias deste mundo.

A poesia é o nascimento da palavra. Seu reino

é no homem (capaz do expandir a mente).

A poesia é o império do imaginário.

A prevalência da imaginação sobre a sensação

A existência (é) das palavras.

O ser é uma palavra. Deus, outra

As substâncias são palavras.

 

 

O poeta identifica sujeitos díspares. Não é singular.

A imaginação poética é capaz de engendrar

(e expressá-lo) no âmbito livre do pensamento

coisas tais que a mente lógica não pode aceitar.

Como Aristóteles não o faria.

Tudo consiste em indisciplinar rigorosamente a imaginação.

Por isso a faculdade da imaginação completa

é considerada da laia esquizofrênica. E

condenada pelos pensadores racionalistas. Que

prosaicamente dão de ombros a ela: coisa

de poeta.

 

No período clássico da civilização francesa, cuja

cultura estabelecia padrões filosóficos, poéticos

políticos, em sua generalidade, culturais

(século XVII e XVIII), a imaginação

era associada à irracionalidade, divagação,

nonsense, rebeldia, instinto

traços ou prolegômenos da loucura. Pascal a

considerava anômala, marginal porém

poderosa, maior do que a vontade. Idem, a

razão. A condição humana não ser

joguete da imaginação era a principal frente

de batalha da razão.

 

A poética absoluta não é mais nada do que

a imaginação assumindo nova forma, aperfeiçoada.

É o mais inocente e perigoso

dos bens humanos. A imaginação em sua

força máxima coloca o imaginante a um grauzinho

da loucura. Daí os poetas...

 

 

A indisciplina da imaginação produz a criatividade, isto

é, leva-a a grau máximo. Multiplica-a.

Quando alguém diz com censura: você tem muita

imaginação, está imaginando demais ou é

mera ironia ou total idiotia. Imaginar é ser.

Só os néscios incriminam a imaginação. Ou

aqueles que não a têm.

 

DISTINÇÃO RADICAL ENTRE PROSA E POESIA

 

Uma relação alterada, desconformidade, inadequação

desequilíbrio entre a palavra

e seu significado (exato) caracteriza a

poesia.

Uma relação precisa (indubitável, favas contadas)

entre palavra e significado distingue a prosa

é característica do prosaico em geral.

 

A denotação de alguma coisa (objeto ou ideia)

é o objeto, a coisa, o conceito significado.

(Logicamente esse objeto inclui

aspectos conotativos que dão substância

ou é o alicerce da denotação).

 

 

O poeta tem um modo de conotar subgêneros. Fugindo

do habitual, da forma normal de conotação.

O poeta foge da utilização das conotações, socialmente

aceitas ou acertadas, das palavras. Tende

a pesar divergentemente.

A palavra para o poeta equivale (ou é) a

coisa que simboliza. Que ele apresenta.

Muitas vezes o som é o sentido. O valor do

som se sobrepõe ou se agrega ao

significado usual da palavra. E o modifica.

 

 

É próprio do pensamento prosaico

metafísico a relação exata, cientifica

entre a palavra e o seu significado.

 

Relação alterada entre

palavra e significado é o poema

relação exata, indeformada

entre significado e palavra

não é o poema

 

o poema é para não habituados

para habituados não é poema

(pode ser obituário, não é poema).

 

Relação precisa entre

palavra e significado é prosa

e o prosador

cioso da referência

para quem significado é ídolo.

 

 

ANJO ADJETIVO

Anjo gentil, manso, doce, rilke

na alegria da glória imerso

farto da grandeza do esplendor (opaco)

anjo de mel e plumas deliquescendo

gerundial anjo da colmeia de Deus

de asas enchamejadas do enxame branco do céu

de garganta de orvalho envenenada

anjo de um tempo pós-angélico

(ou da não-localidade

de físicas místicas, anjo quântico, ávido.

 

SOBRE A POESIA ABSOLUTA (3)

 

A poesia é uma pletora de desinformação. Assim

ela dá sua maior contribuição a um mundo

estraçalhado de dados, vulnerável ao dígito

fisgado numa rede (física, mental, virtual) de informações.

O poeta  parece com Deus: cria do nada.

O poeta mexe com a física do sonho. Ele une

a substância(ou a semente de Carpentier)

E sabe ser o sonho a própria e vital

substância da realidade.

Armado com uma imagem o poeta é o  real

paladino de nossa era. A desomumizar

o estabelecido para sempre. O poeta

poeta demole épocas inteiras. (Ver Joyce

Perse, Pound, Eliot, Dante, Murilo Mendes).

 

O isso de Freud, a sombra de Jung.

A realidade ou aquilo segundo H. Miller

que brota o tempo todo da morte e desintegração

poeta compulsa, distende, engrenha, organiza

(do caos do mundo entende em especial).

Segundo Herry Miller, Edgar Varèse

provou que a imaginação é a ultima palavra. E

não morre.

Miller distingue fé (que é criadora, firme

permanente força humana real) e entusiasmo

(algo transitório, que vem de fora para dentro).

A força sobrepuja a energia do entusiasmo.

O haver do homem sustenta o mundo com suas veias e crenças.

E as veias do mundo, as coisas exatas ou não

Deus fê-las para o deshaver do homem. Embora eles

não saibam disso ainda. Até quando, ò bruto ser

deixareis o homem insabido de Si?

 

Os (maus)ditos poetas de agora usam a energia

sonora da poesia como moldura de formas

vencidas. Os buracos nas palavras são grotescos

abismos brancos, resistíveis, ocos como coração.

 

A música da poesia é aérea, tipo pássaro

de parco contato com a terra.

A poesia hodierna no Brasil

é tipo pedra, ferina, palatável

inocente, recitativa, adjetiva

recalcitrante como bromil rimando com céu de anil

ou bombril.

Não mais ensoamos a palavra

no poema como antigamente

agora suamos no labor aritmético

da contagem exata das sílabas:

deixamos de ser pássaro, para ser ábaco.

A pansonoridade morreu.

O pleroma do tom enterramos.

 

Cada verso é uma molécula da linguagem

dissociável em átomos sonoros primais

e nunca em sílabas métricas e vãs. Ou

algo mecânico e metronomicamente perfeito.

Ouve-se no poema não só o lamento das coisas

mas o vagido das estrelas nascendo

e o urro preclaro de sua morte.

Dos pedaços de hélio, silício, ferro, restos

da matéria das estrelas Deus fez o homem:

E ele não sabemos ainda disso. Pensa ser

um poema parnasiano.

 

Mas isso é poesia? Ou perda simples

da energia poética, dissipada em tais coisas

que Vital Corrêa de Araújo apoda de poema?

 

Poesia é a palavra em liberdade organizada em linhas.

É a palavra em liberdade para ser

e não presa a um dizer.

 

A incondicional libertação da palavra

é a condição sine qua non da poesia.

E para isso é preciso no Brasil

realizar nova revolução porque

a palavra hoje é presa.

Em celas métricas, masmorras vérsicas.

Jângal rimando com ângulo langue.

 

Mas isso é poesia, insistem

milhões fugazes de leitoras?

Como? Se não diz nada.

São palavras (significantes) sem significado

a poesia hoje? Heresia. Coisa de herege vital

da linguagem.

Mas isto é poesia, imprecam

miríades de leitoras ante algum qualquer soneto.

 

 

 

Que tipo estranho de poesia é essa? Diga!

É que as pessoas tendem a categorizar tudo

hoje. Querem dar nome aos bois

mas temem o estouro da palavra pecuária

abalando seres ocos corações reses ruidosas.

Várias me disseram (após ler-me duas linhas):

Isso é literatura? Em que mundo estamos.

Isso é a palavra enlouquecida. Voragem pura.

Lírico delírio (possivelmente), mas

não é poesia “com certeza”.

 

É que o bom gosto musical do brasileiro vai (de mal a pior)

de encontro com o mau gosto de poetas como VCA.

A dissonância é imediata, abalante, fatal.

Cadê a poesia calmante, presa a molduras

métricas ou andaimes? A beleza da estrutura do soneto

cadê?

Cadê a poesia calmante, presa de molduras métrica

ou andaimes rímicos? A beleza da estrutura

(décimoquaternal) do soneto, cadê?

 

 

O péssimo gosto brasileiro com a poesia poesia

vem do que chamo dialética do estabelecido e da

mudança. O gosto (ou des) parnasiano vem

de mais de cem anos, impávido, calcitrante

imperioso e gratificado. Olavo Bilac é um monstro

sagrado. (Quer dizer é monstruoso sim, e nada sacro).

Há um tabu bem brasileiro da poesia rimada e

bem cuidadosamente metrificada. Pé quebrando

é incompetência, restolho, lixo. É

um tabu potente. As pessoas temem o que não

entendem. E preferem deixar as coisas como são (já

que entendem assim). Deixam como estar para

ver como ficam. Parnasiamente estabilizado.

O estabelecimento poético do parnaso

desde a Geração 45 ressolidificou-se. E prosperou.

E agora vem VCA com a nova

poesia (neoposmoderna e tal). Sacrilégio.

A violar o tão bem estabelecido cânone vivo

e aliado da nova música (a atual MPB). (De

1990 para cá).

 

O que está posto (firme, vivo-morto) é

sagrado. E igual. O que é diferente é mau.

VCA é subversivo, subverte a realidade com

sua poesia sem pé nem cabeça, colocando

o universo poético, o edifício, a empresa

da poesia brasileira pé-cabeça. Ele

prega uma ruptura vital. Especialmente quando

afirma nada há de mais antipoético e ridículo

do qual um recital. A poesia neoposmoderna é

“IN”: ilegível e ininteligível, portanto irrecitável

absolutamente indizível, como soi de ser poesia agora.

VCA detrata acuradamente a poesia

embalsamada de agora, tipo lavagem de porco ou roupa suja

em recinto púbico. As nauseabundas cantigas

“cultas”, de imitadores da poesia

popular (regente, cordel), a verdadeira.

 

Comentando a situação nauseante da música

ocidental (tipo M. Jackson e Lady Gaga, agora)

Henry Miller vem com essa tirada: “Das igrejas

vem a triste nênia do Cristo morto, uma

música que não é mais sagrada que um nabo podre”.

VCA quer, sim, provocar um abalo sísmico (cânico, místico)

na poesia viva, estabelecida, remunerada, acadêmica, depauperada

com as placas perigosas de seu poema raivoso e neoposmoderno

quer obter êxtase vendo tudo se desmilinguindo.

Os bastiões do parnaso caindo um a um ruinosamente. As torres do

soneto e as fortalezas das sextinas ruindo de vez.

Maldito! Quer drogar ou dragar. Todos. De

lambuja. Mas ele não conseguirá leitores para isso:

empreitada de fracasso. Por mais que faça proselitismo das elites.

Há poesia hoje. Mas poesia amestrada. Que

não engorda. Sem catarse infecciosa.

Nos recitais hodiernos (Pe em 1º) há

muito pranto de crocodilo. E lágrimas de

borracha descer às turras dos rostos ouvintes

são suspeitas. Ler é algo velho, não que leitores. Lem é que leitores

superado, desvirtualizado. Díssimo.

 

Quanto mais se martele rima rica

e ritmo binário maior a emoção (da pele, que

arrepia o coração) e mais contentamento

rico (êxtasezinhos) se provoca nos ouvintes pasmos.

(Coitados!).

 

E lágrimas que os olhos de crocodilo do

leitor arrancadas da “fauce”, fabricadas em

série pranteal, extirpadas do rosto estático.

 

Lágrimas inconsoláveis e geladas

mas lágrimas. Da audiência. Recitálicas.

 

SOBRE MISTÉRIO E COMPREENSÃO DE POESIA

Vital Corrêa de Araújo

As palavras poéticas montadas em sintagmas velozes como cavalos filológicos e selvagens (ou soltas na hara da página), quase indomesticáveis, engolfadas em paradoxos e incompatibilidades ou extremas disparidades entre substantivos (passivos às vezes) e adjetivos, que o poeta conubia, faz interagir, acasala pois, de modo mais íntimo possível, alcançando autêntica boda sintagmática oficiada por solene paradigma (paramentado de metonímias).

O que vemos na poesia hoje (de hoje) é a morte e a vida, o real e o imaginário, o alto e o baixo, o comunicável e o ambíguo ou parcial ou inexato por definição, tudo de mãos dadas e convivendo harmônica e profundamente num mesmo sintagma vivo.

Essa congratulação imprópria, esse dar às mãos esquerdas, essa passional congruência de incongruências belas, inéditas, quase perfeitas, não devem nem podem ser vistas como contrariedades sintáticas (ou mesmo lógicas) ou inconvencionalismos gramaticais (ou inclusive monstrengos lógicos e grotescos).

Os conceitos inapropriados e inéditos da poesia moderna são sinais da evolução não só cultural mas psicológica da alma do homem, pois Deus se revela através de “concetti obscuros”, dispara Tesauro (em Maneiras de fabricar o conceito e modos do estilo erudito).

 

MISTÉRIO DA POESIA

O mistério da poesia somente se engasta na página (papel ou alma) com o selo (ou saliva) da metáfora, com o elo que sólido cola palavra e imagem (liame de vocábulo) e assim monta o objeto sintagma, molécula do verso.

Gasta rudemente o mistério da poesia, desperdiça sua beleza ínsita a pressa que aniquila o verso; ou a indemorosa visão que infelicita (desgasta, roe) a interpretação da fantasia, vestindo a doce ilusão que a palavra poética concede com roupas vistosas esnobes, caras, burguesas, impróprias, degenerando o mistério da poesia em tripas e trapos de comercialização imagética com fins de lucro barato (comunicação implícita ou não).

A poesia nutre-se de imagens interiores (submersas que precisam ser resgatadas hiperexploradas) formuladas pelas tintas da metáfora. E não por cálculos externos, convenções anacrônicas (ábacos bilaqueanos, cofres de rimas).

É a imagem interior e anti ou anaturalista por definição.

Na poesia dita neoposmoderna mesmo a sugestão hieroglífica, o sentido duvidoso (mas não hipócrita), o forte nexo do desconexo e o elo indemonstrável (ou a condição aparente de ilegível) são primais.

A questão vital, o ponto crucial dessa poesia nova (que quer mesmo ser moderna e não se envergonha de tal) residem no fato de que o poeta deve pôr no papel (da alma) o que ele vê em si mesmo (e não no outro) e nunca o que os outros (leitores ou não), incluindo familiares, amigos, parceiras da carne etc, esperam dele.

Repito: A poesia é (serve) para (nós nos) compreendermos. Nunca, jamais para sermos compreendidos.

 

A POÉTICA DE FRAGMENTOS DE VITAL C. ARAÚJO

Cláudio Veras

O poeta mergulha na bateia de imagens da verdade incompreendida, do sentido perdido das palavras banalizadas, alienadas e coonestadas pela empresa da usura verbal, pela busca do material prazer: não da verdade que jaz passiva, ao pé do homem ajoelhada como uma carola qualquer, mas daquela que nem o traço nem a tinta realçam (porque o desenho é impotente para domá-la).

VCA empreende sua peregrinação verbal, solitária e quase demoníaca (ou neoerótica?) com o objeto de apreender (e ocupar secularmente) o vasto campo que a filosofia, a narração, o ábaco poético não abrangem (nem o podem mais fazê-lo pós-Vital).

Para isso, abole ou despreza ou exila o sentido finito (e mortal ou passageiro) das coisas (e palavras, conforme Foucault).

Qualquer determinismo ou prévio cálculo poético Vital isola. Para ele, não há sentido no finito, ou finito sentido.

Ao tatear com a bateia da linguagem uma significação infinita, visionária, utópica, rebelde, indômita até, ele sacrifica a sinceridade a tudo o que ao pé da letra frutifique.

Safra para ele só da messe da palavra que azar não abula

Com esse fito, VCA embarca na empresa de utilizar, como estratégia, o fragmento (uma forma em si mesma limitada) para penetrar e abraçar o infinito ambiente da palavra.

A interpretação (se houver) deve ser mais cognitiva que afetiva. O transporte que na leitura de Vital opera é do inefável, nunca do efetível. O arrepio (sem rípios) é o do milagre da linguagem. O compadecimento é do texto, não do espírito.

É um caso de engajamento com a palavra, de responsabilização dos sintagmas, de objeção do sujeito, via signo-coisa (Rilke), de compromisso só com a verdade poética; toda uma estrutura e todo um ritmo voltados exclusivamente ao conhecimento do poema. Ser e conhecer especialíssimos, excepcionais.

Em Vital, inusitadas combinações de palavras, em máximo grau inesperado (e impossíveis de ser senão no acontecimento poético vital) contribuem para uma (ou vária) ruptura da linearidade da linguagem, apanágio da prosa clássica e da poesia gramatical e logicamente corretas. Ou seja, em Vital, a cansada lógica gramatical não tem voz.

A precisão da ambiguidade do discurso poético é magnífica, atenta, bisturítica, vital para a empreitada poética vitaliana, na busca de uma forma sui generis de linguagens significantes.

“Minha horta de paradoxos cultivo com apreço / safra de oxímoros com perspicácia colho/ amoedo e ensilho os fardos da linguagem/ gramáticas estupro, violo dicionário/ silos de símiles, fé de epítetos devotos atiço / acirro o câncer da metáfora para que esta cresça/ mais que a saúde sintática dos leitores / minas de metonímias detono, apuro/ os afetos do bombardeio da página / com a bazuca dos sintagmas/ rebeldes como a palavra poética’’. Esse fragmento de um poema de 2001 (a que tive especial acesso) bem diz da bendita forma deste poeta.

O ambíguo, o assimétrico, o indefinido são parte essencial desse harmonioso cultivo, dessa cultura poética fora de série, desse hermetismo consequente que puristas intoxicados de passadismo reclamam (e leitores incompetentes desprezam, jogando o bebê com a água do banho fora).

O tudo muito claro é insípido. O tudo bem digerido, pronto, é quase excrescência    que o secreto obsta.                                                                                                                                                                                  Trata-se de uma poética de antíteses. Poesia a que causa emoção coivaras vivas, nuas, lenhos cremados, cinzas de cruzes, embotado gume (que não facilita o corte ou a vista).

É um caso em que a sabedoria poética (e não técnica) procura abranger o assistemático, penetrar todas as áreas da vida, encontrar o limo de si mesma, reabilitar o espírito, exprimir em palavras o sal da ressureição. A ambiguidade do discurso desacredita o estabelecido.

A arte já não satisfaz o espírito, diz Baudelaire. Não que a forma de arte nada mais tenha a dizer, mas que esbanjou seus recursos em assuntos que tendem a embotar-lhe o gume. Gerações entoaram hinos à beleza do bem. Baudelaire pelo contrário devotou-se a garimpar belezas no corrupto e no mal. A essas sendas seus pés se dedicaram.

Vital de certo modo é fiel a esse caminho. Ele que sacrifica à tríade vital da moderna poesia: Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud.

Além dessa medida da escrita de VCA, retorno ao título e renovo a questão do fragmento enquanto forma, na poesia de Vital, aplicando Schlegel: como uma pequena obra de arte, o fragmento deve ser totalmente pleno, autônomo, separado do entorno (poemas do livro em que se materializa).

O fragmento deve conter agudeza (witz) de tal modo que fira os olhos do leitor, como um ouriço escrito.

O fragmento designa o enunciado que não almeja a exaustividade e corresponde à ideia moderna de que o inacabado pode e deve ser publicado (ou ainda reforça a ideia de que o publicado nunca está acabado). A poesia de Vital e mais espírito do que letra. Muito.

Cláudio Veras é poeta homossexual e   Professor Universitário em Heidelberg          desde há 17 anos.

 

 

HERMETISMO VITAL

Rogério Generoso

 

Por que a predominância, na poética do século XX (Perse, Montale, Seferis, Quasímodo, Elithis – todos prêmio Nobel pela obra poética) do hermetismo, ou o que torna a poesia indizível.

Na fruição da obra poética, há um óbice considerável constituído pela atuação de uma força que leva a percepção atual do presumido leitor ao passado, ou seja, a uma situação de imobilismo (que se confunde com tradição, cuja permanência autoritária afeta o futuro estético).

Os modelos não são atualizados em face da força de inércia que paralisa a forma e vulgariza o conteúdo da obra: a estatura diacrônica é pigmeunizada pela corrosiva ação sincrônica.

A arte é tida como algo já concluído, estabelecido no passado, e o presente de toda arte é supérfluo. Qualquer inovação equivale a desvalorizar o passado, profaná-lo, e atentar contra o que já foi alcançado – e está consolidado em arte. Para os arraigados cultores do passadismo poético, a arte do presente é estranha. Algo eteizada. Pararreal.

Outro critério dualista (quase mesmo maniqueísta) é o que empluma o prélio clareza versus obscuridade (que são conceitos relativos, pois só se é claro ou obscuro, para alguém, para um público determinado por suas competências literárias) afirma Cláudio Veras. A obscuridade ou a clareza não são qualidades em si, mas percepções, fatos psicológicos, deduções. Não são ações, são efeitos.

A obscuridade que chancela a arte moderna (poesia, pintura, música, cinema e o romance experimental – Musil, Joyce, Carlos Newton Jr, Alberto Lins Caldas, João Marques, Osman Holanda, Guimarães Rosa, Osman Lins, Bramhs, Mozart, Cage), por largo tempo, não dizia respeito ao mérito da obra, mas concernia ao julgamento negativo do público, viciado em consumo fácil, e da critica dita acadêmica, apta a consenso raquítico.

Os poetas modernos não mais se comunicam com a maior parte da classe geral dos fazedores de verso.

A obscuridade resulta de uma comunicação interrompida. (Ou inapropriada.) Com o passado. Mas não é algo ainda suspenso no passado. Essa abordagem tem como alvo o trabalho poético de Vital Corrêa de Araújo.

A V.C.A, como poeta, aplicar-se-iam facilmente as epígrafes. “Há certa glória em não ser (bem) compreendido”, dispara Baudelaire. Fazer poesia, para G. Benn, equivale a elevar as coisas à linguagem do incompreensível.

“Poeta ambíguo, entre coisas duplamente agudas, assiste ou elabora peleja entre tudo aquilo que luta pelo presente contra a completa perspectiva do futuro’’. S.J. Perse.

“Ninguém escreveria versos se o problema da poesia fosse fazer-se entender, ser compreensiva amiga’’, diz Montale (Prêmio nobel de poesia).

Porque na poesia moderna há algo que força a linguagem poética num sentido que se distancia do âmbito da comunicação social normal, a pecha hermética é aplicada (e somente) pelos ingênuos leitores.

 

POESIA RUMOR DE CRISTAL E CHAMA

Cláudio Veras

A poesia que se decifra na paixão pela palavra também se exprime no prélio entre cristal e chama, entre diadema e pássaro, escolha ou luta a que poetas dedicam a vida, a dúvida, o ânimo, a alma, o sonho, as horas e o sangue.

Poetas como Valéry, Wallace Stevens, Gottfried Benn, Drummond, Fernando Pessoa, Jorge Guillén, Ítalo Calvino, Murilo Mendes, Jorge Luís Borges, Juan Ramón Jimenez tiveram como emblema o cristal, a transparência expectante, luxuriosa, cardinal, sobretudo mística, que o cristal, ao pulsar, incorpora e aveluda ou alumia, tornando transcendentes e quase absolutos textos minerais e primais desses extremos criadores da beleza verbal.

O cristal que contém facetado poder de refratar luz e invariar a fé na beleza é emblemático do poder descomunal que a palavra dá a estes homens por ela eleitos para alto ofício da poesia, para alto sacrifício da paixão pela palavra.

Eleitos são poetas que incólumes atravessam séculos e a estes lustram suas mazelas, angústias, promessas, virtudes, afiam vicissitudes e triunfos, tudo exalçam, com o poder apaixonante do verbo.

Na chama, temos a ordem do rumor, a volúpia geométrica da agitação, do vibrar púrpuro, palpitação fractal, incêndio líquido e extremo assédio ao céu, posto que vórtices de fogo da palavra se elevam, pássaros verbais sob ímpeto da metáfora das asas. E guante ensandecido da paixão pela palavra poética criadora de mundos e sublimes visões humanas.

Poemas, como estrelas do verbo, alçam-se do firmamento da página, branco páramo de suas metonímias e sinédoques, de seus símiles e epítetos magistrais, aos olhos verazes dos homens.

 

O CRÍTICO ÁLVARO LINS – I

Vital Corrêa de Araújo

 

Num país em que a literatura, a cultura literária, perde espaço progressivamente na proporção direta do progresso material, não surpreende o esquecimento que envolveu o nome (e a obra) de Álvaro Lins, por largos anos, que só agora começou a ser revisitado. Levantou-se o véu, quebrou-se a pátina, mostrou-se o céu do valor desse grande intelectual brasileiro, como João Condé e Austregésilo de Athayde, caruaruense. E universal.

O conceito (a instituição objetiva) de crítica estabelecido por AL foi, para a época, 1939/40, sob plena guerra, em que as paixões estavam em polvorosa e o medo dava às mãos ao desespero, algo extraordinariamente importante.

Especialmente, para que a crítica literária e cultural brasileiras se alicerçasse em valore modernos, atuais, em consonância com a francesa – modelar para época, e ganhasse foros de universalidade e suficiência.

O mestre reconhecido de AL foi Alceu Amoroso Lima, mas Álvaro revelou-se uma personalidade ímpar: militante, político, inconformista, intimorato, inovador, cuja ação crítica não se rendeu a qualquer partis-pri.

História literária de Eça de Queirós (1939) e um conhecimento profundo de uma plêiade de amigos e poetas (com quem convivia): Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Vinícius de Morais e Jorge de Lima, além de conhecer em igual profundidade a literatura francesa da época, deram background poderosos para Álvaro Lins assestar suas baterias críticas sobre as letras brasileiras e universais.

A crítica, que, para ele, se exerce como um destino (e não um fardo ou uma obrigação profissional) nada tem de iconoclasta ou de negativa. Ela forma alicerces, levanta ideias, resolve teorias, ergue instrumentos para novas construções intelectuais. É idealista e objetiva. Nunca conformista.

Na primeira intervenção no Correio da Manhã (1941), conceitua excepcionalmente o ato crítico.

“O ato de tudo aceitar, como o ato de tudo negar, não é um ato crítico. É um ato de positiva ou negativa apologia. E só”.

O ato da crítica é aquele que completa, retifica, compreende, amplia, abre perspectivas, desdobra situações, dilata horizontes, põe e repõe as coisas no seu lugar.

“O crítico que se cinge ao círculo do que ele critica está esterilizado (fossiliza-se) e não deve ostentar o nome de crítico criador”.

A atividade crítica é criadora por excelência, cabendo ao crítico, além de interpretar, sugerir e julgar, ver além da aparência e extrair o caminho verdadeiro do cipoal de trilhas e ardilosas armadilhas, que pode desviar a criação literária.

O crítico que se insubordina a leis, regras, cânones, princípios velhos e outros positivismos (já no tempo de Álvaro, anacrônicos), como condição da ciência, gera uma situação que o evita de se tornar criativamente estéril ou apenas mais um cronista superficialmente literário.

Quanto à questão relevante na época dele, relacionada à crítica católica, AL diz que o cepticismo, instrumento vital do crítico moderno, deveria se adaptar à crítica de índole católica.

“Pois o cético absoluto e o católico integral são quem dispõem das melhores perspectivas intelectuais para compreensão da beleza da arte e das verdades do mundo temporal. Um, porque possui o sentido do todo; o outro, porque dispõe da verdade do nada”.

São duas atitudes opostas e humanas, que se complementam, ambas capazes de poder dialético e de profundidade de lucidez, de entendimento e de compreensão, acima de todas as paixões.

A partir de 1940, começou a ação jornalística do crítico Álvaro Lins.

Após analisar a poética de Baudelaire (o equilíbrio entre o delírio e a razão), Rimbaud (o vidente), Mallarmé (o alquimista da palavra poética), Valéry (o esteta), num artigo que é um verdadeiro ensaio, AL realiza mais dois ensaios (no mesmo artigo a ser desdobrado para publicação) sobre Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt.

Compara Bandeira com Baudelaire: ambos, poetas clássicos e modernos, participando das velhas formas de poesia e buscando formas novas, não só para o presente como para o futuro, e influenciando gerações, além de guardarem em si o timbre difícil da permanência, na história literária.

Como Baudelaire, Bandeira é um poeta que está no centro de uma época e que tem sido raiz e ponto de partida para numerosos poetas.

Em certo artigo, AL analisa e compõe um quadro crítico no qual demonstra que Carlos Drummond de Andrade teria influências diretas de Bandeira.

Ainda em 1940, AL resenha, lança, avalia e expõe poetas como Odorico Tavares – A sombra do mundo – 1940, Alphonsus de Guimaraens Filho – Lume de Estrelas – 1940, Manuel Cavalcanti – Lanternas pela noite – 1940, que Lins conhecera de Recife, quando estudante; Mário Quintana – A Rua dos cata-ventos – 1940:35 sonetos impecáveis, veículo mais adequado à expressão, segundo AL, ou seja, o soneto como meio e não fim; Érico Veríssimo – Saga, 1990, Lúcio Cardoso – O Desconhecido, 1940, Luz do Subsolo (1936) e Mãos Vazias (1938); Parmínio Asfora – Sapé – 1940.

Num próximo artigo, abordaremos um tema caro a Álvaro: o conflito entre a percepção transitória de crítico e a decreto definitivo do tempo.

 

DE FREUD SOBRE PROUST

A renomadíssima psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco escava dos arquivos inéditos da colega Marie Bonaparte carta de Freud (04/01/1926), em que comenta a novela inicial da portentosa e seminal obra Em busca do tempo perdido (Marcel Proust). O pai da psicanálise diz de No caminho de Swann: “Não acredito que a obra de Proust possa durar. E esse estilo! Ele que ir sempre às profundezas e nunca termina suas frases”.

 

FREUD, PROUST E O ID

Enquanto Freud foi impelido à sua descoberta (do inconsciente) pelo sonho, Proust usou como combustível de sua epopeia literária o sono impregnado de sonho (como soe ser) que instiga a memória involuntária. Ou o que é a mesma coisa: a fantasia. No caminho de Swann foi recusado por muitos editores. E muitos se arrependeram absolutamente.

 

FREUD E PROUST: DOENTES DE CIÚME

A propósito, Freud e Proust dividiram a mesma fatia de uma ciumada sem limites razoáveis. O vienense demonstrava sem máscaras ou censuras um ciúme extremado de sua mulher, tanto com estranhos quanto com amigos (e parentes). E seus filhos homens (édipos) o que pensavam e sentiam disso? Gestos edipianos e traços electrainos deviam borbulhar na casa de Freud em Viena e Nova York. Dos seus filhos, dizem que Sigmund tinha afeição especial para com Anna.

Já Proust tinha e demonstrava ciúme de seus inúmeros namorados. Apaixonado por jovens que tinham namoradas ou por homens casados, Proust sofria e se envenenava de frustração e despeito, e tudo isso despejava de modo admirável e estético em sua obra ficcional.

 

O SONHO COMO MEIO DA MENSAGEM

Para Freud, o sonho era caminho para o autoconhecimento (que o outro, o psicanalista revela escavando, via associação de ideias ou sensações, o id – ou a alma). Meio ao acaso de acesso ao inconsciente. O sonho – produto ou efeito do sono, foi também utilizado por Proust para autoanálises. (Ou consultas diretas à alma). Exemplo do processo de associação de sensações é a famosa passagem da bolacha Madeleine. Na cena, mergulhada na taça de chá o docinho molhado acende, tece, traz involuntariamente (isto é, não por propósito e inesperadamente) à memória do personagem toda uma pletora de sentimentos, episódios de Combray. Daí Proust confessar: Combray saiu de uma chícara de chá.

 

 

POESIA (NEOPOS)MODERNA

Vital Corrêa de Araújo

 

A poesia (neopos)moderna foi impressionista. Poética era a realidade que (im)pressionasse (a alma ou os olhos d)o poeta de metáforas sucessivas, isto é, mutabilíssimas porque impressões. Para os antimordernos (a maioria gritante e esculachada porque tem medo de o ser – e do ser do futuro diferente), o real não passava de variedades permanentes, conservadas (no formol da fôrma) acabadas definidas tradições que se desdobram (incessantemente a mesma coisa, versos replicantes, clones do que é ou já foi) no céu do tempo.

Tudo o que fosse independente (ou diferente) do ato de percepção do existente não havia. A impressão era, como os sentidos, ilusão.

Poeta não está atrás (perseguindo ou escondendo-se) de mundos objetivos, dados em definitivo, concreções usurárias, mas de novas realidades (que alimentem o espírito humano) propiciadas pela palavra (poesia morada do ser). Ele não representa o que há. Apresenta o que haverá. (In)certamente.

Poeta não faz história, faz futuro. Poesia advém da raiz grega com acepção de criador. E não mero imitador. Ou repetidor de realidades esgotadas. Sonetinando-se sem parar para ver que o futuro já começou.

Por que poeta não diz logo (tudo)? Por que a frescura (da poesia moderna é difícil)? O poeta (neopoeta) tem que dizer o que as palavras ainda não disseram. Mas não em prosa que é por definição e natureza inviável.

Por que indizer? É que ele (poeta) não quer desvalorizar o leitor. Deixá-lo passivo, inerte ante tanta clareza. Claridade cega (o sentido). É passiva ou age desnudando de vez.

Poeta salta palavras meio soltas ou dissolutas, meio ínvias ou verazes em demasia. Cabe à mente (quente ou fria) de leitor ligá-las, contê-las, apressá-las. Amalgamar. Atiçar. Alcançar o matiz. Cravar a nuance. Senão leitor seria perfeito idiota, lendo  o óbvio (sorvendo o mastigado, obtendo o dado). Cabendo a ele só ulular. E nada mais.

É preciso revalorizar o leitor. Sofisticá-lo. E não considerá-lo como passivo, capaz de tudo entender em poesia (past) porque a poesia é fácil.

As palavras no poema devem ser independentes do seu valor linguístico estabelecido (por gerações ou degenerações).

Há séculos. Ou meses. Livres de suas más (ou boas) relações. Peias. Intacto o hímen filológico. Virgem para a prenhez poética. Para o parto (sintagmático) do leitor (paradigma final). Para o gozo maiêutico. Para a catarse do Juízo Final da poesia.

Nada de ser o poema representativo, porque na república (platônica de hoje) poeta não entra. Entra no limbo plutônico. Fácil e gravemente.

PENSAMENTOS INDOUTOS

 

Encontrei uma geometria azul numa tarde de maio comum. O termômetro da Santo Antônio em dígitos astigmáticos indicava 21 graus célsius. Já conheci diedro ébrio. E hipotenusa zarolha. Mas. Tentei tangenciá-la com cuidado. Espesso. Ela me abordou num encontrão assimétrico. E proclamou sua profundidade. Balbuciou que suas relações e figuras regulam o cosmos. Que para o criador geral fractal ela era absoluta. Seu G(enes) é Deus. E não sei se geometria entusiasma. Porém azul é difícil. Interessa. A mim, tão amorfo.

E de alma oblíqua. (Não iníqua). Da Geometria já fui ídolo. A plana. Cujos trinta teoremas facilmente demonstrava. E o professor (do Colégio Padre Félix) Padre Aníbal, também de latim, rigoroso, exigente, reconhece meu pendor geométrico e azul.

Porque adoro manjares geométricos e pinhas. Porque doces triangulares me apalpam as papilas. Porque minhas mucosas são perpendiculares. Todas. Porque o espírito geométrico de Pascal me fez ler sem parar três anos Montaigne.

Mas o finesse não me abandonou totalmente. Sofro porque não passei do primeiro teorema de Pascal. Por razões que coração conhece bem. Ultrafilosóficas.

Porque degradei-me sou poeta ageométrico. Energúmeno ambíguo. Tristemente hermético, incerto, não probo, obviamente, com as palavras (que querem ser parnasianas, mensuradas, a soar bem). Traio o verbo comum, operante, austero. Mesmo operário.

O próprio verbo duvida de mim. Porque em Garanhuns escrevi Ovos de verbos. E me alastrei de pusilânimes lamúrias. Me incondestei. E pululo. E escombro. E concentrico porque não concavo. E não existe, ainda, o verbo concavar (tornar algo côncavo) e concentricar.

 

 

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