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NO PRINCÍPIO, FOI O ALEPH PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 20 Agosto 2013 12:57

 

O principio de tudo foi O Aleph, livro escrito entre 1993 e 1969. Quando chegou ao Brasil, nos anos 60, Jorge Luis Borges já era conhecido de uma intelectualidade mas, a partir de então, passou a ser parte das discussões de uma juventude ainda sufocada por uma ditadura militar e que teimava em mergulha naquela ficção tão fantástica que parecia estar tratando da sociedade brasileira.

 

 

O conto O Aleph estava, na verdade, sendo lido como a concentração de uma experiência humana, de todo um imaginário e inimaginário, a partir de um pequeno objeto esquecido em um porão de uma casa. Achava-se, na época, que Borges queria, de fato, fazer caber o infinito invisível e imaginado em um pequeno fragmento narrativo.

A partir dessa época, a obra do argentino tem se tornado quase uma obsessão para quem gosta de boa literatura. Não é sem modéstia que os criticam apontam que ele tinha a enorme capacidade de extrair ficções das coisas mais comuns e bizarras. E de reinventar o mundo a partir do inverossímil, do nunca acontecido, do jamais presenciado. Borges adorava fazer criticas de livros jamais escritos. E nós nos divertíamos e nos encantávamos com tudo isso.

Mas sua criação incorpora, de fato, o melhor que existe desde Homero. Não é à toa que o argentino tinha vasta cultura e conhecimento. E não lhe faltava inteligência suficiente para compor a sua realidade. Enganava-se o público ao pensar que sua cultura era oral, apenas. Há em cada frase um intenso trabalho de estilo.

 

TRAJETÓRIA DE BORGES

 

Fatigado de cubismo e futurismo na literatura, Borges dá inicio ao que chamava de uma nova literatura enraizada numa “perspectiva metafísica da realidade”. E não pára de escrever contos e poemas sobre o que o cercava: o subúrbio portenho, o tango, as tangerias, brigas de faca (comuns naqueles anos 20 em Buenos Aires). São desse período, Homem da esquina rosada e O punhal.

Mas o escritor cansa-se, novamente, do que está fazendo e embrenha-se por um novo caminho na literatura. Passa, então, a analisar a chamada literatura fantástica ou mágica. E, entre 1930 e 1950, consegue produzir o que hoje se considera como alguns dos mais extraordinários textos de ficção do século 20: a História Universal da Infâmia (1935); Ficções (1935-1944) e O Aleph (1949), entre outras obras.

Conhecido praticamente em todo o mundo por causa das sucessivas traduções de sua obra, Jorge Luis Borges publica no dia 27 de março de 1983, no jornal La Nación, de Buenos Aires, o relato Agosto 25, 1983, no qual profetiza seu suicídio. Anos mais tardes, questionado porque havia desistido de se matar, responde: “Por covardia”. Neste mesmo ano, a Academia Sueca nega-lhe mais uma vez o Prêmio Nobel (perde para William Golding) e seus acadêmicos mostram, mais uma vez, que talvez não soubessem ler.

Na velhice, palestra em diversos paises, mas sempre dizia que se sentia melhor na solidão discreta de sua biblioteca. À medida em que a cegueira avançava, Borges acostumou-se a ouvir o que sua mãe lia para ele. Os dois viveram juntos desde que o pai morreu. O escritor só casou-se pela primeira vez aos 68 anos, com uma namorada de infância, mas divorciou-se três anos depois. Poucas semanas antes de sua morte, em 1986, se casou com sua secretária e companheira de viagens, no passado uma de suas alunas, Maria Kodama.

 

FRASES FAMOSAS DE BORGES

 

 

“Não sei exatamente por que acredito que um livro nos traz a possibilidade da felicidade”, dizia. “Mas sou profundamente grato por esse modesto milagre.”

 

“O Aleph é o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos”.

 

“Toda linguagem é um alfabeto de símbolos, cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph...? Os místicos, em transe semelhante, gastam os símbolos: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis fala de um círculo, cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel fala de um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se dirige ao Ocidente e ao Sul”.

 

“Se não se escreve impelido por uma necessidade, acaba-se produzindo uma obra sem valor. Por isso, às vezes, me pedem que escreva alguma coisa sobre um centenário, por exemplo, e isso se torna um esforço para mim. Nem sempre se está pensando em um centenário”.

 

“O exercício das letras pode promover a ambição de se construir um livro absoluto, um livro dos livros que inclua todos os outros como um arquétipo platônico, um objeto, cuja virtude não diminua com os anos.”

 

“Vou lhe contar um segredo”, costumava dizer aos visitantes, “gosto de fazer de conta que não sou cego e cobiço livros como um homem que enxerga. Chego a ponto de cobiçar enciclopédia novas. Posso visualizar o percurso dos rios em seus mapas e encontrar coisas fantásticas nos diferentes verbetes”.

 

“Minha sepultura será o ar insondável”

“Não me dar o Prêmio Nóbel é uma velha tradição nórdica”

“A metafísica é um ramo da literatura fantástica”

“O casamento é um destino pobre para uma mulher”

“Os pesadelos são fendas do inferno”

“O suicídio é um rito que nossos generais derrotados optam por omitir”

“A glória é uma das formas do esquecimento”

“Deus criou as formas do espelho para que o homem sinta que é reflexo e vaidade”

“Consagrei minha larga vida às letras, à cátedra, ao ócio, às tranqüilas aventuras do diálogo, à filologia que ignoro, ao misterioso hábito de Buenos Aires e às perplexidades que, não sem alguma soberba, chamam de metafísica”

“Os artigos filosóficos de Borges são o débil artifício de um argentino extraviado na metafísica”

“Não bebo, não fumo, como pouco. Meus únicos vícios são ler a Enciclopédia Britânica e não ler Enrique Larreta”

“Não me interessa em absoluto o juízo da posteridade. Espero ser esquecido totalmente”

“Quero morrer de todo – e logo – porque estou farto de ser Borges (depois dessa declaração, Borges viveu mais de 18 anos)”

“Só os imbecis nunca mudam de idéia”

“A ironia é algo que aprecio e de que sou totalmente incapaz”

“O luxo é falta de educação”

“Economista é o ministro que arruína a pátria”

“A fé é um dever”

“Eu costumava demorar-me sem fim diante das jaulas do jardim zoológico, apreciava as enormes enciclopédias, e os livros de história natural, pelo esplendor magnífico dos seus tigres”

“Uma famosa página de Blake faz do tigre um fogo que resplandece e um arquétipo eterno do mal; prefiro aquela sentença de Chesterton, que o define como um símbolo de terrível elegância”

“Não há outro tempo que o agora, este ápice do que é, do que será, do que foi, daquele instante em que a gota cai da clepsidra”

“Chego a meu centro, à minha álgebra, ao meu espelho. Em breve, saberei quem sou”

“Comovem-me as vulgares sabedorias que se perdem em qualquer falecimento. Ridícula é a plêiade de aliviados reunida em torno do que não mais sabe: do morto, para acompanhá-lo em sua primeira noite na morte”

“Publicamos para não passar a vida corrigindo rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele”

“Paul Valery é o herói da lucidez que organiza. Um homem que, num século que adora os caóticos ídolos do sangue, da terra e da paixão, preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem”.

 

CRONOLOGIA DE UMA CRIAÇÃO

 

 

24/08/1899 – Jorge Luis Borges nasce em Buenos Aires.

1905 – Escreve o primeiro conto, La Visera Fatal. Redige em inglês um manual de mitologia clássica. Três anos depois publica tradução do Príncipe Feliz, de Oscar Wilde.

1914 – Estuda em Genebra, na Suíça.

1919 – A família Borges instala-se provisoriamente na Espanha. Em Sevilha, publica seu primeiro poema na revista Grécia. Entra em contato com o movimento literário ultraísta. Trabalha numa coletânea de poemas à gloria da Revolução Russa (Los Ritmos Rojos, cujo manuscrito destruirá ao sair da Espanha).

1921 – Volta a Buenos Aires. Lança a revista ultraista Proa, juntamente com o escritor Macedônio Fernandez.

1923 – Publica seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires.

1930 – Conhece o escritor Adolfo Bioy Casares, com quem manterá uma longa parceria literária.

1931 – A escritora Victoria Ocampo, futura mulher de Bioy Casares, funda a revista Sur, da qual Borges participa e que será um dos pólos do modernismo argentino.

1935 – Publica História Universal da Infâmia, primeiro livro de narrativas.

1944 – Publica Ficções.

1946 – É demitido da biblioteca municipal Miguel Cané, onde trabalhava, por ter assinado manifesto contra o presidente Juan Perón.

1949 – Publica O Aleph.

1955 – Queda de Juan Perón. É nomeado diretor da Biblioteca Nacional e eleito à Academia Argentina de Escritores.

1960 – Fica cego, devido a uma doença hereditária.

1961 – Divide com Samuel Beckett o Prêmio Internacional dos Editores, o Formentor. É traduzido em várias línguas.

1967 – Casa-se com uma amiga de infância, Elsa Astete Millan.

1970 – Separa-se da mulher. Publica O Informe de Brodie. Em São Paulo, recebe o Prêmio Interamericano de Literatura.

1980 – Recebe o Prêmio Cervantes e assina apelo de intelectuais contra a junta militar argentina. No ano seguinte, publica A Cifra, poemas dedicados a Maria Kodama, sua secretária, com quem passará a viver.

1985 – Instala-se em Genebra, Suíça, com Maria Kodama.

22/04/1986 – Doente, casa-se no Paraguai, por procuração, com Maria

Kodama.

11/06/1986 – Morre aos 86 anos em Genebra, onde é enterrado.