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A MORTE DE CRUZ E SOUZA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

Perto do fim, sentido a hora glacial a bafejar-lhe alma, abeirando-lhe ossos, Cruz e Souza canta:

“Fecha os olhos e morre calmamente/ morre com a alma leal, clarividente/ da crença errando no vergel florido/ e o pensamento pelos céus brandindo/ como um gládio soberbo e refulgente”.

 

A tuberculose insidiosamente ousada avançava, quase galopando. O poeta, pressentindo a morte – à sua ilharga, cavalgar a cada passo, via aproximar-se enlace terrível, fatal hora que iria coroar brutal e temporãmente sua parca existência e infeliz, na Terra. Decidiu buscar (qual Augusto dos Anjos fizera) numa estação de águas mineira algum alento, restos de esperança, mesmo a complacência de Deus para com o artista, com tantos grandes poemas a compor ainda. E sonhos verbais a realizar.

Viajou sozinho, destino à cidade de Sítio (MG), num velho trem rouco (como ele) que ritmava o resfolego com os golpes de hemoptise lentamente, em meio a um ambiente desesperado, num trânsito solitário, em que o poeta se possuía da mais dolorosa ou tenebrosa angústia, a espargir pelos caminhos seus lamentos, em poemas inconcebíveis.

O fim da viagem coincide com o fim de sua vida. O percurso entre as estações testemunhou os últimos e desesperados momentos de um dos maiores poetas do mundo.

Cruz e Souza viajou assistido pela morte que aos poucos e inteiramente possuía o poeta, entre sufocações e vômito de sangue coagulado, na festa terrível do bacilo.

A mudança de clima, o desconforto da viagem, a angústia e doente solidão, o absoluto desamparo, contribuíram agudamente para agravar a doença do poeta. Acometido de dupla pneumonia, impotente e desesperado, Cruz e Souza morre na estação de chegada, sem adeus, sozinho como nasceu.

A morte o envolveu – golpeia com impiedade corpo já sofrido, quase sem ânimo, violado do poeta. Com suas bandagens espúrias, com a espessura de todas as noites reunidas num só e terrível manto, falece o Dante Negro, sem um amparo, sem um curto adeus, só consigo mesmo, com seu medo e seu desespero intactos, únicos companheiros e surdos testemunhos da passagem entre as duas fatais estações: a da vida e a da morte. Do útero à cova decorreram dias de mais dores que alegrias.

Morreu “Quem florestas e mares foi rasgando e entre raios, pedradas e metralhas ficou gemendo, mas ficou sonhando”.

A trágica notícia consterna os meios literários do Rio, mas só alguns poucos amigos acorrem à Central do Brasil à espera em desespero do frágil corpo do poeta sem alento retornando ao Rio.

Às nove horas da manhã sem título e fria do dia 19 de março de 1898, depositado num “horse box” de um trem vagaroso como o céu daquele dia, desembarca o cadáver de Cruz e Souza, coberto de poeira, em meio a excrementos de cavalos, nu jogado no chão do animal vagão como um saco, um traste, um desvalor extremo.

Suprema ironia e nada poética do destino cruzsouziano: ele morrera ao desembarcar na repentina estação ferroviária de Sítio, para onde fora exatamente buscar arrimo, saúde, esperança, conforme prescrição médica.

“Fiz estrofes assim, de asas de rima

depois de fecundá-las e acendê-las

de amor, de luz – pus lágrimas em cima

como as florescências das estrelas”.

Imprescindível reiterar: morrera C. e S. repentina e totalmente (sofrera muito ao longo viajar com acessos incontidos de tosse e assomos de sangue, isolado num banco último, e mais sofrera na própria estação de destino Gólgota – seu rico calvário). E foi, repito, na estação de Sítio, cidade da estação de águas salvíficas, que ocorrera ignominioso e purulento óbito do Cisne Negro, poeta máximo, absoluto cantor sublime. E foi dessa triste estação – de cujo vagão não desceu vivo, que o reembarcaram de imediato morto, para o mais terrível ainda caminho de volta à treda cova que o aguardava no Rio de Janeiro. Apenas mudara de Vagão – do de passageiro para o de cavalos e bois rugentos.

O poeta negro rijo, rosto em palidez tremenda, corpo frio como uma semente seca, na baia alada jazia empoeirado no chão de um vagão de carga – de um horse box – wagon para transporte de animais. E inanimado o imenso poeta estava jogado entre cavalos, em meio a esterco e desprezo. Eis a glória suja, animalesca, fétida que o Brasil lhe dera.

Cena aterradora abre-se aos quatro amigos que o foram buscar na estação central do Brasil, sem um lençol sequer, sem uma rede, velha camponesa mortalha, sem uma mera caixa, o corpo do poeta estava quase nu no chão de ferro.

Relata Carlos Dias Fernandes: “Somente quatro amigos chorosos, compungidos, inconsoláveis, compareceram para receber os despojos estremecidos do poeta: Tibúrcio, Jubim, Frederico e Nestor”. (Os quatro cavalheiros do apocalipse do poeta).

Após a descida despreocupada dos passageiros, os quatro se dirigiram à cauda da locomotiva, no fim do comboio onde jogaram o máximo poeta: num vagão sem janela ou bancos, sujo de merda animal, entre muares e bois, que iam aos açougues, estava Cruz e Souza. Depositado no chão sobre jornais rasgados, à guisa de lençol piedoso, o corpo do poeta maior, gênio da raça como Augusto dos Anjos.

Envolto no terno marrom e único que sempre usava, no estrado do trem leito sujo que bestas conspurcavam, imóvel e pequenino, um esgar de sorriso no lábio sereno, um hino na alma, flor na lapela murcha, ali inerte, no mais extremo e inimaginável desamparo, o poeta.

Quando os quatro, naquele ambiente apocalíptico, cercavam o pobre cadáver acomodado melhor sobre um balcão qualquer da Central do Brasil, chega José do Patrocínio, intelectual também negro, legendário jornalista.

Patrocínio, de supetão, grita comovido: “Mande fazer enterro de primeira, por minha conta, e uma harpa de lírios, na Roseland”.

Foram tuberculosos egrégios, além de Castro Alves, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, Novalis, Keats, Chekov, Kafka, Shakespeare, Hoffmann, Safo, Virgílio, Molière. Todos foram visitados pelo bacilo sagrado, que Koch descobriu.

Outra enfermidade sagrada foi a epilepsia. De origem tanto psíquica quanto física, assemelhava-se por seus efeitos à loucura (que desde Platão acomete os poetas. Ver na Revista de literatura URUBU número zero o ensaio de Alberto Lins Caldas: VCA é completamente louco, como poeta).

Padeceram de intensa epilepsia Flaubert, Byron, Swinburne, Dostoiévsky. Este último escreveu muitos de seus grandes romances sob ataque epilético (apocalíptico), que chamava de “visitações divinas”.

Flaubert os denominava “transportes místicos”, algo como cruz necessária para sua vida artística. Flaubert achava mesmo ser a epilepsia a causa de dedicar-se à vida literária.

Na Idade Média, a melancolia era a enfermidade clássica dos monges, torturados anacoretas, criando situações de tristeza, tédio vital e angústia inexplicável (como acontece hoje nos mosteiros, e testemunhei). Essa digressão meio longa foi necessária.

Eis então o corpo de Cruz e Souza adentrando terrível e nada poética cova, com harpa de lírio decorado.

 

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