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PROMETEU E NOSSOS TEMPO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 27 Agosto 2013 18:31

Vital Corrêa de Araújo

Os extremos se tocam, as contradições se amam, os cenários díspares se harmonizam no conjunto da tragédia clássica (e humana).

A miséria do homem, em sua mais triste expressão, se converte em grandeza face à força catárquica do teatro da antiguidade.

A plenitude da vida está no desespero, mas há sempre algo de humano que perdura, em meio às forças da desesperança, desagregadoras do espírito, e que transforma as derrotas em vitórias, a tristeza em exultação, a dor em alegria plena.

 

 

Ressonante música das dissonâncias da vida o trágico extrai e expõe a crua realidade interior, realista que é da alma humana. (Só Dostoiévsky teve acesso – em meio a delírios – a esse elaboratório do ser vital).

Prometeu é exemplo de humanidade, é o titã que, em meio à selva mais selvagem, mostra a clareira aos homens – luz a seus olhos cegos pelo frio da vida antes da libertação pelo fogo.

Para Prometeu, nada de resignação ou aceitação passiva vale ou interessa.

As calamidades existem para forjar e testar a grandeza e a humanidade dos homens.

Prometeu, inerme ante força enorme, preso ao Cáucaso, dilacerado por incessantes abutres, não se submete a nenhuma vontade estranha ao humano, não cede, nem para proferir a palavra de submissão que o libertaria da dor e do escuro. A palavra não liberta: só a ação. Outro Prometeu, Goethe, intuiu e expressou o valor do ato, além de todo o verbo.

Clitemnestra descreve o ato homicida, o uxoricídio, com estas palavras: “Matei Agamenon, não posso negá-lo. Dois golpes, dois gemidos longos. Já caído o rei, abrí a terceira ferida na carótida do herói: foi uma oferenda a Zeus, ao deus dos abismos, salvador e receptador dos mortos”.

“Mancha de sangue marcou meu vestido, quando da última punhalada no pescoço do meu marido. A que extremos me tem levado o destino, indago-me de súbito?”

 

Os clássicos gregos têm muito a ensinar aos novos guerreiros, aos átilas pós-modernos, aos neros redivivos. Lições extremas e precisas encontram-se em Ésquilo, um dos heróis de Maratona, o episódio épico que prefigurou Termópolis e Salamina, quando a maior potência militar do mundo de então (há 25 séculos), a Pérsia (o Irá atual) foi derrotada. (Hoje, os Estados Unidos são os antípodas da Grécia, e a Pérsia, a Babilônia, a Mesopotâmia são vítimas).

 

 

ATUALIDADE DA TRAGÉDIA

Vital Corrêa de Araújo

Ante um tempo iníquo como o nosso, em que bestialidade perfeitamente substitui humanidade, nos gestos e ações dos homens; em que a ferocidade perfura corações e assoma, sobe ao pódio a fúria e instala sua veia violenta e impiedosa na alma, lenitivo e purgação encontramos nas tragédias gregas, onde o humano é exposto em toda sua realidade, além de quaisquer aparências, em toda sua integridade de dor e exultação, de alegria e infortúnio, sob a destra feroz do destino e, às vezes, a égide da piedade.

A releitura de clássicos gregos, escritos e encenados, há mais de dois milanos, é sempre atual e necessária, para que a vergonha de ser humano não prevaleça (ou não perdure eternamente por todos os vastos infinitos possíveis de tempo e lugar).

A batalha de São Paulo é apenas um episódio da guerra civil oculta e permanente que vivenciamos, num ambiente corrupto, caldo de cultura de violência, em que os políticos de mãos sujas enlameiam os votos recebidos e o mandato que devia ser sagrado.

As palavras dos clássicos da velha e eterna Grécia ressoam como abelhas fecundas e distiladoras do mel psicológico que aviva e é o lume da alma, e empolga quem as busque para iluminar os dias que fluem tragicamente hoje.

O verbo de Clitemnestra, Prometeu, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes são bálsamo e víbora no coração do Século 21.

Quando anunciou a queda de Tróia, Clitemnestra (esposa de Agamenon) fez uma pausa no relato de seu triunfo (abastrato) e pintou um quadro realista e concreto da agonia da derrota asiática frente à já poderosa Europa: “As mulheres se arrojavam sobre os corpos sem vida dos filhos, maridos e irmãos. As crianças se aferravam aos velhos mortos, cadáveres insepultos, ainda ardentes, que lhes deram a vida”. (No mar coalhado de mortos da Ásia foi o contrário: avós se lançavam sobre netos mortos).

A tragédia grega tem o condão de apresentar o sofrimento e a morte, a dor e o desespero, a angústia e os atos extremos que singularizam o homem, de tal modo que exaltam e nunca deprimem a condição humana. O inverso ocorre hoje em que vivemos a mais ordinária e terrível das tragédias. E são tragédias sem nome. E sem finalidade.

Contabilizamos mortos dia e noite, apenas com um lançar de olhos nos jornais, e os governos incompetentes e ridículos, reduzem o número de mortos diários, como se classificar as formas e circunstâncias da morte fosse justificativa da inação, do despreparo, da corrupção generalizada que gera tais hecatombes, genocídios de civis trabalhadores, matança desencadeada pela fragilidade do corpo policial, pela omissão da justiça instituída e pelas lacunas legislativas.

 

RESPONSABILIDADE CULTURAL

Vital Corrêa de Araújo

A situação, hoje, da literatura pernambucana e, de modo geral, do livro nordestino se ressente de um grave problema, que tem se alastrado, tornando-se um óbice constante, um entrave formidável, a inibir o nosso desenvolvimento cultural, a ponto de exigir uma reação imediata e organizada.

A questão crucial é a divulgação e especialmente a distribuição do livro  editado em Pernambuco, ou seja, concerne à valorização do livro de escritores ou editoras pernambucanos e, por extensão, nordestinos.

Livrarias importantes, cujas matrizes localizam-se no sul-sudeste, por determinação destas, simplesmente proíbem ou se negam a receber livros editados na região, para exposição e vendas, mesmo que sejam vendáveis e apresentem demanda razoável, como as obras de pesquisa e história de Geraldo Ferraz e Carlos Bezerra Cavalcanti.

É inaceitável tal discriminação, é uma questão vital opor-se a essa situação, que afeta os brios e ofende as tradições literárias de nosso povo. Daí, a magna lei aprovada pela Câmara de Vereadores da Cidade do Recife, projeto de Daniel Coelho, estabelecendo a obrigatoriedade à livraria de receber um mínimo de livros nossos e expô-los devidamente, legislação que será acatada e sancionada pelo Prefeito João Paulo, certamente.

Não se trata de imposição ou intervenção no mercado, mas garantia de acesso mínimo do livro pernambucano às livrarias do Recife.

Essa luta é compartilhada pela UBE, Academia Pernambucana de Letras, Academia de Letras e Artes do Nordeste, além de outras academias e entidades, e advém do movimento em Defesa do Livro e do autor pernambucanos, liderado por Jacques Ribemboim e Waldênio Porto.

Livrarias como a Saraiva e a Cultura, além da Imperatriz e as da terra, já nos acatam em suas prateleiras. Outras, mantêm o “índex”.

Ao dinamismo próprio de nossa literatura, cujos autores, em meio às dificuldades de edição, continuam produzindo e editando livros, não corresponde, ao mínimo que seja, a atividade ou ação de distribuição e divulgação, mecanismos básicos que complementam a edição e que é o desiderato do autor: ter seu livro divulgado, distribuído, aceito e exposto nas livrarias, e vendido ou posto à disposição do leitor.

Ninguém edita um livro por editar, mas a meta é divulgá-lo para criar demanda ou interesse por esse objeto cultural e pô-lo ao alcance do leitor, a quem é exclusivamente dirigido.

A distribuição permite que o livro chegue às livrarias, ao leitor, e a divulgação, em revistas e jornais, através de resenhas e notícias, possibilita que qualquer leitor (anônimo) tome conhecimento da existência do livro, de seu tema ou teor, do seu autor, e assim motive-se, decida pela ida à leitura e aquisição do livro.

Afora a noite de autógrafos que envolve parentes e amigos, o livro mergulha no mais perverso anonimato. Nem o leitor, nem a distribuidora ou mesmo a livraria sabem da sua existência. O elo autor e leitor é feito pela divulgação. Daí, a necessidade de motivarmos, de convencermos os empresários detentores de órgãos e meios de informação (rádio, tv, jornal, revista, etc) a abrirem, a facultarem um espaço, coluna, agenda, rodapé etc destinados à divulgação da produção literária do estado.

Com esse apelo e nossa disposição de lutar por objetivos culturais decisivos, oferecemos o diálogo, a negociação aos empreendedores, jornalistas, proprietários dos meios de comunicação para transformarmos a literatura pernambucana e levá-la – no século 21 – ao pódio, à posição que detentou ao longo do tempo. É uma questão de alta responsabilidade cultural.

 

 

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