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NOVA CULTURA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

A partir de 1905, de forma tímida, e, de 1910 em diante, com radicalidade e maior frequência, brotam grupos de escritores que põem em xeque toda a literatura existente. Começa a era da vanguarda.

O ímpeto contínuo de renovar, a efervescência febril, o avanço incomensurável, tudo se passando ou provocado pelo definhamento definitivo de uma época em processo de decomposição, face da velharia e do anacronismo de seus produtos e do decaimento de sua verdade.

As vanguardas foram um fenômeno específico do século XX, e suas causas estão enraizadas, tanto na degradação da arte vigente, há muito, quanto nos grandes movimentos como o romantismo... e nomes cruciais gênios especiais, como Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, para citar só os franceses (além dos francos uruguaios, Ducasse e Laforgue).

Os principais movimentos de vanguarda do século XX foram o expressionismo, o dadaísmo, o cubismo e o futurismo (tardiamente o surrealismo). Observe-se que as vanguardas revelaram-se primeiro na pintura.

E representaram o surgimento de algo radicalmente novo na arte europeia, caracterizando a formação de uma nova cosmovisão e promovendo uma tremenda inovação, na relação entre artistas e o mundo, entre sujeito e objeto.

Uma ruptura definitiva entre escritores, artistas e público desencadeou os movimentos de vanguarda.

A literatura e a arte pararam no tempo e promoveram e alienação do público, que cansou da mesmice de séculos. Enquanto o mundo se complexiza, se muta, se refina, e adquirem as coisas incompreensibilidade e crescente complexidade, graças ao avanço científico, a literatura permaneceu quase a mesma estagnação de sempre, como si perpetuando o antanho.

O mais incrível é que ainda hoje temos sonetistas dedicados ao lavor perpétuo, apegados a regras do renascimento.

Fazia-se preciso renovar a arte e a sociedade, uma revolução cultural, para eliminar o descompasso entre povo e literatura.

Em decorrência dessa revolução radical, em suas primícias, ocorreu o ponta-cabeça que levou às nuvens os alicerces vigorosos e centenários do bom gosto burguês, bem arraigados na sociedade (no caso, a brasileira). Sociedades que eram adiantadas na economia e reacionárias na cultura, em especial na pintura e na literatura. O pior é que isso resultou numa crise, pois a relação, entre sujeito e objeto, artista e obra, criador e criação, esboroa-se .

O poeta busca relações desconhecidas entre as palavras, mutila o unívoco, consagra o equívoco, alarga e ora ao ambíguo (o objeto poema torna-se polissêmico ou polifônico, e, por efeito, incompreensível de pronto). O poeta precisa penetrar a aparência e resgatar a essência, a fórceps. Investe contra a rotina gramatical, a sintaxe civilizada e o verbo pasteurizado. O poeta confronta o condicionamento mecânico do verbo, o normativismo hipócrita e anacrônico absolutamente.

Daí, a célebre frase de Paul Klee: “Arte é imagem alegórica da criação”.

As noções e o entendimento de tempo e espaço fundidos, unificados por Einstein, fragmentam o mundo, a continuidade das coisas some-se e floresce com vigor a descontinuidade (vital à poesia absoluta). Tudo se dissimetriza, a forma torna-se caos criador. A elipticidade e a fragmentação passam à ordem do dia em poesia. (Só o Brasil não sabe).

O sentimento em poesia é algo pequeno burguês. Em seu lugar, a vontade do desejo e paixão da palavra, a ironia, o humour noir.

A vanguarda anunciou o século XX como algo qualitativamente novo. Ela sentiu e antecipou a revolução tecnológica (a 2° industrial) e moral e econômica e social – portanto cultural, que ia vir (havia de vir e adveio).

Quanto mais a ciência avança, mais impenetrável fica a natureza – e não mais se pode sombrear essa situação, com ideias sobrenaturais, face o avanço das ciências naturais. A verdade da existência e o princípio da liberdade humana, em ciência e literatura, são postulados dessa nova cultura.

Para exemplificar o desconforto e a estranheza das pessoas para com a poesia absoluta, isso já no terceiro milênio, narro um dos vários encontros no apartamento de um grande amigo judeu, intelectual, que reunia amigos e escritores para amanhecer o dia discutindo especialmente poesia. O jogo era cada um recitar poemas para enlevo e comentários. Formada a roda, me inscrevi e aguardei.

Quando chegou a minha vez, eu disse, de súbito, vou ler 73 poemas, o que assustou todo mundo, todos já com fome, e eu era um dos últimos. De pé, puxei do bolso da bunda, um papel – frente e verso – com 73 monósticos. Li a frente, e pedi a Ruben Rocha que lesse o verso da folha com 30 ou 40 versos... e ele se recusou. Depois, se desculpou a mim, já na sobremesa de excelsos doces judaicos, e explicou: ler aquilo não dá pra mim, ninguém vai entender logo.

É que a mensagem – que o recitador em sua leitura artística comunica – não está explicita no texto (tal, de VCA, monosticalizado), não é emitido de imediato o recado pela palavra (falada). Caso exista algo dizível, está conotado, cifrado em velozes metáforas mínimas, concisas pra caber numa linha, apriorístico, desimediato, aforístico que seja, etc.

O conteúdo estético que no texto poético se conota pode não ser alcançável pelo ego leitor, que se frustra. E se o tal conteúdo não transluza, a frustração leitoral é grande. Porque pequena a capacidade de retenção ou recepção estética do poema absoluto. Por falta de exercício... são poucos os poemas absolutos, e quando alguém se depara com um deles, simplesmente foge, fechando o livro, como se contivesse bruta heresia.

Assim como a estrutura da língua (langue) se nos oferece só no fato real e cotidiano da fala (parole), o texto poético composto na langue previve unicamente na parole. Que é o fato ou ato de atualização singular, individual, uso pessoal e intransferível ou único da linguagem artística. Ou opera nos recessos do id onde amadura e se submete à decifração ou hermenêutica orgânica a cargo das poderosas estruturas e agentes neuroniais do cérebro, os verdadeiros poetas.

 

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