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AMOR FÍSICO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   

Hugo Vaz, escritor, já maduro no exercício da ficção, experiência que traz no alforje onde o jornalismo

(pesquisador lendário dos “causos” da imprensa escrita – v. os cinco volumes do “Bestiário da Imprensa”, do autor) – se mescla com o acervo furioso de leitor de qualidade e vasto, inova admiravelmente com o seu DIÁRIO DE UM SÁTIRO (Maria de Lorvão).

 

Este trabalho, o quinto do autor na arte complexa do romance, denuncia o pesquisador obsessivo, em busca de locações, diálogos, ambientes físicos e psicológicos (cenas e cenários, na visão técnica de R. Carreto), personagens, detalhes e descrições alicerçados no campo da psicologia, sociologia, antropologia, da biologia, sexualidade, anatomia (erótica), endocrinologia (o âmbito hormonal), fisiologia (além de história e poesia oriental), tudo apimentado com o tempero da ficção, o que possibilita o instável equilíbrio entre a verdade histórica e fisiológica do homem e a criação ficcional de alto nível.

Num relance, escava-se o embasamento da escritura hugoana em mestres como Machado de Assis, Dostoiévski, Eça de Queirós, Casanova, Boccaccio, Shakespeare, Saramago, Lord Byron e todo o vasto campo, cultivadíssimo e fecundo, do romance de século 20.

Hugo Vaz, propositadamente, elege um estilo mesclado, impuro mas eficaz (e delicioso) para comportar e lastrear sua narrativa, para ordenar a linguagem expressiva e o imaginário rico de enredo, característico deste romance.

Mistura épocas, escolas, ou melhor, utiliza (ou contempla) a imaginação e a forma romântica, simbolista, realista e, assim, desse amálgama, dessa urdidura de estilos, reconstroi formas retrógradas de narração, nos planos da expressão e do conteúdo, iluminando-as com as luzes da escavação de novos caminhos no rumo do pós-moderno na ficção.

O âmbito espacial (a geografia) do romance é amplo e vário, abarcando o Brasil (diversas regiões) e outros continentes (Europa e Estados Unidos).

Nos 29 capítulos de DIÁRIO DE UM SÁTIRO, Hugo Vaz utiliza uma estratégia inovadora e feliz: usa poemas de Omar Khayyām (30, no total) e 23 poemas (próprios e de anônimos, como epígrafes de cada capítulo). Esse tratamento dá um tom unificador a cada conjunto e propicia a sensação de continuidade substancial ao longo da narrativa. Assim, alcança a unidade e alicia o leitor (em especial “a leitora”...) a imergir nesse mundo (báquico e perverso) da imaginação erótica, de peripécias amorosas, de insaciedade sexual e volúpia ilimitada, sob a regência de um sátiro revivido e autêntico.

Na utilização da técnica de epígrafes, que é parte integrante do romance, Hugo Vaz traz versos decisivos e cria um efeito inusitado, em se tratando de um romance, como: “Toda essa labiríntica nevrose das virgens nos românticos enleios; os ocasos do amor, toda a clorose que ocultamente lhe lacera os seios”...”

Igor, o personagem central, é um Casanova pós-moderno (que herdou integralmente todo o velho instinto e a espessa imaginação erótica que a humanidade carrega ao longo do seu périplo na terra). É um Byron atualizado, um Chaucer numa Cantuária babilônica, um Shakespeare carioca, um Boccaccio nordestino, enfim, um Dom Juan tropical.

Nada menos do que 55 mulheres personificam os sonhos erógenos e as fantasias de Igor e atendem a seus reclamos sexuais, mas perpassam a narrativa como se o usassem como um troféu de caça invertido...

O final da história é impensável, abrupto, chocante, e muito desvenda a personalidade complexa de Maria de Lorvão. É um puro anti-clímax a cena final, que Hugo Vaz imagina e usa como apoteose do romance.

A segunda parte final do capítulo 29 narra um sonho erótico e mitológico, em que Igor é um Pégaso concupiscente, um Belerofante lascivo – ou mesmo, Igor encarna o próprio cavalo em cio – e sua façanha erótica excessiva imita um bigbang cósmico, em forma de explosão de sêmens, dealbar de unguentos, espumar de sangues, um bigbang falópico, em meio ao qual a potência sexual estilhaçada renasce como Fênix, não das cinzas, mas de fragmentos de pênis. Maria de Lorvão, no fim do sonho (túnel) cavalga Pégaso-Igor.

De certa forma, DIÁRIO DE UM SÁTIRO é mais do que um romance de amor (de amor erótico), mas também de ódio. Há nuanças misogênicas. Igor é um desencantado do amor, e aquele que nunca conheceu o amor dificilmente distinguirá o amor da dependência sexual. Há um prélio constante nesse romance entre o amor e sua caricatura. Só o amor é libertador, o quase amor escraviza, adula, entorpece, vicia e desencanta. Igor, sobretudo, ama a si mesmo e, se se refugia nas mulheres, é para punir o seu ego soberbo, possessivo, que ama mais o sal do que a terra. Igor odeia o mundo naquilo que não consegue aturar em si mesmo e para eliminar tal mácula utiliza a mulher como pia, biombo, caixa de gozos, biscuit, ser de pelúcia que amacia sua vontade e dissolve suas culpas.

A leve misoginia e a volúpia de eternidade, o diário da memória (erótica, portanto, localizada) e as versões (fictas ou reais), a possessão do outro, a derrota do medo da morte e o eflúvio de vida que vem num sêmen, a posse de poderes estranhos que dominariam a grandeza e o trunfo do território masculino no âmbito da vida humana, daí o aguçamento do instinto de caça à fêmea, tudo demonstra a profundidade da verdade sobre nós mesmos, que jaz nessa escrita, e é uma verdade perversa, se deteriorando e mesmo trágica.

Este romance não encerra orgasmos ingênuos (ou algo, diga-se, metafísico), mas prazer físico genuíno (nada mais além do que físico, não à flor da alma, mas na superfície da pele), eletricidade, descarga fugaz, sublime e vazia. Catarse via volúpia física. Purgação lasciva.

A satisfação física do amor tem o condão de ultrapassar as convenções sociais e os mandamentos morais, justificando relações adúlteras, ocasionais, efêmeras e irrepetíveis.

Hugo Vaz escreve um tratado do corpo e do espírito comungados, em busca da dor que grita e espanta, que suspende e concentra a existência. As sucessivas pequenas mortes de Igor não o ensinam sobre o mistério da vida, mas criam uma sombra existencial que o desilumina, porém é refúgio para misóginos e desesperados do amor real.

Uma empresa magnífica de agora é ler o DIÁRIO DE UM SÁTIRO e descobrir porque uma história de amor e sexo tem um desfecho tão brutal. Assim como não há explicação para o rompimento entre Igor e Maria, não há explicação para a vida. (Desconfio que algo bem autobiográfico ressoe nessas fictas páginas).

Nota: Prefácio do romance DIÁRIO DE UM SÁTIRO, quinto trabalho de ficção do jornalista maior Hugo Vaz, um eterno sedutor das palavras e báquico escritor, em cuja residência lendária, na mais lendária ainda Aldeia, jaz um altar ao poeta persa da predileção fanática de Hugo Vaz: Omar Khayyām.

 

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