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CÍCERO FELIPE: UM RELÂMPAGO VERBAL. PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 16 Setembro 2013 19:54

Cicero Felipe (16 anos) é um Poeta. Ponto final. Digo, afirmo, confirmo, e assino em baixo. Jovem, interiorano, trabalhador desassalariado, lutador pelo pão diário, ao lado da mãe – Dona Mary -, uma verdadeira heroína nesse país de heroínas, mulheres que afrontem o destino madrasto, e vençam, pois a vitória está na dignidade da luta e no desabrochar dos filhos para a vida.

 

 

Felipe – como efeito da perversidade do sistema educacional e social herdado do inglório Golpe Militar de 1964 – era quase analfabeto, ou seja, não escrevia certo, mas Deus (gauche como todo bom Deus) orientou seu espírito que cria belezas poéticas, que a mão (coitada) não consegue exprimir direito no papel. Porém, cada página de Cícero Felipe é consagrada pela beleza poética, veio que vem do mais fundo de sua alma jovem e emerge na lauda, na superfície da página como gemas profundas que emocionam e adornam o coração leitor.

Cícero Felipe é um fenômeno como o foram Pelé e Ronaldo. Faz gol de letra, mesmo, e no campo do papel dá o seu show, cria sintagmas, funda expressões, delineia estados da psique ou do mundo, aprimora palavras, lapida diamantes verbais da mais alta possível magnitude em poemas magníficos, objetos de palavras magnificentes.

Cícero Felipe calibra seu verbo com tal precisão, com tal consciência, que nos assombra, leitores e poetas. É de tal quilate sua poesia que difícil é aquilatar seu valor e mais difícil ainda prospectar sua origem, isto é, descobrir a mina de imagens e visões que o afagam. Cícero Felipe é gênio, mágico, mago, alquimista do verbo como o foi Arthur Rimbaud.

Digo: A poética de Cícero Felipe é uma mescla de Augusto dos Anjos e Cruz e Souza. O estro maior desses gênios juntou-se na pessoa do poeta CF. Na poética, no impulso lírico, no concatenar de palavras para o poema, no ofício de poeta jovem, Cícero Felipe, vê-se – ao lê-lo, ao sorver Razões do eu, que algo impregna seu verbo, que é indômito e vigoroso, além de nostálgico e preciso (de uma precisão lírica admirável e caudalosa às vezes, outras obediente a formas rígidas) em armazenar sua melancolia, a de um jovem imberbe e desordenado por não seguir pseudaordem, senda medíocre dos jovens de hoje, que, quanto mais se distanciam da literatura, mais se desumanizam. Quanto mais servem à usura mais odiam a poesia.

Acredito que CF é um caso quase único, admirável, na hodierna poética brasileira. Por trás dele não há tradição, estirpe, trilhas literárias de antepassados, nomes ilustres, nem ele detém conhecimento poético, posto sua formação cultural seja deficiente como é a dos jovens do interior, de família pobre, que trabalham como ele, desde os 10 anos.

O poeta Cícero Felipe é um relâmpago verbal, é direto, ousado, centrípeto, original, em seu fazer poético solitário, em horas náufragas, apanhadas entre raros intervalos que sua vida consente, e sem nenhum instrumental teórico ou prático que o auxilie na geração do poema. (Posteriormente, a partir do impacto de seu livro de estreia, Cícero amanhecer e solar cursou Letras na FAMASUL, e hoje vitorioso).

As estruturas métricas impecáveis não o prendem a padrões obrigatórios ou mecânicos, nem a medida de seu verso obedece a regras exatas em detrimento do impulso imagético original que está na base do melhor poema. Move-o a exigência do ritmo interior, alicerce da melhor poesia.

Sua poesia não é de amor (romântico ou místico) e seus poemas entremostram a raiz existencialista que move sua mão (espírito), e a temática situa-se nos objetos do desespero e da revolta (jovem, mas madura) direcionados ao eu e suas razões, muitas vezes irrazoáveis, outras alicerçadas nos limbos do inconsciente, essa cave, essa bacia, esse continente, reservatório da força psíquica do homem.

Flagram-se rastros em seu estro que vão do simbolismo (autêntico porque inconsciente e pessimista) – que assolou o final do século 19 – até o horizonte da aniquilação que ele acicatra com a ousadia de um jovem, que já é Poeta, de primeiro livro, mas livro de primeira!

O físico e o metafísico da existência nele se conluiam. De vez em quando, percebe-se mescla de amoroso místico e físico, como jovens lampejos de um poeta jovem. Ao mesmo tempo, amalgama-se com a poesia contemporânea que traduz as incertezas do homem como humano.

A poesia de Cícero Felipe recupera o tempo (embora o tempo físico nunca se recupere, ou se resgate) e concentra o espaço em imagem. Ele cerra e abre as pálpebras da hora e escancara a retina das palavras, de modo a captar as visões do imaginário que assediam o Poeta. E triste do poeta (que deixa de sê-lo) que não captar e lançar na lauda as razões e os caprichos da imaginação.

Em suma, sua visão poética denuncia o vezo de um azul profundo e de um verde redenção. Pode-se dizer de Cícero Felipe que o veio enterrado, entre outras gemas da lendária e delicada cidade de São José da Coroa Grande, agora ressurge, brota e se levanta como o sol da poesia (rara, estranha, lírica) do poeta Cícero Felipe. Poesia unificada pelo estilo felipino, síntese do pós-moderno com o simbolismo ainda vivo.

É louvável e digno da maior admiração – que a União Brasileira de Escritores de Pernambuco aproveite para elogiar – o papel cultural, a visão ampla demonstrados pelo Sr. Secretário, Roberto Gabriel e o Vereador Júlio Veras, que apoiaram e estimularam a poesia de Felipe e providenciaram sempre suas vindas aos encontros literários da UBE, denominados Quarta-às-Quatro (que já amealhou mais de 400 sessões). Especial elogio à sua madrinha Matilde, tia de Guilherme Carrera, outro gênio pernambucano, revelado na UBE-Pe.

 

Vital Corrêa de Araújo – Presidente

UBE-PE, janeiro de 2008.

 

 

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