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(DES)ENTENDIMENTO POÉTICO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 23 Setembro 2013 18:14

Na página, mármore, poeta cinzela (plasma sígnicos sentimentos), lança nesse pétreo mar branco sua rede de metáfora, apanha o peixe-sintagama, e do cardume de significantes içado arma o poema, objeto terreno e alado.

 

Ou sobre o branco da página se debruça, arranja o texto como quem a tela com tino pincela, mancha gráfica que sobre é o poema.

 

 

 

Em si a página branca é parte do significante. Como são as pausas (ou os silêncios), a visão material (ou sintática) dos signos (forma das palavras e elos gráficos entre elas) nela traçados, transados, arranjados (como a tinta na tela espalhada) e sensações táteis e visuais traduzidas na mancha gráficas (alma) que encarna o branco da página.

 

Tudo participa do significante, de cuja teia se forma o poema. Daí: poema, objeto de palavras, e... poema concreto e outros... armações, jogos, bordados, manipulações do significante, o signo sem o conceito, a face única da moeda da palavra em transações visuais, viscerais, etc.

 

Todo o branco que cerca as palavras no poema são, portanto, partes componentes do objeto verbal que a poesia cria quando encontra um artesão (marcenaria linguística) à altura, ou melhor, um artista da linguagem.

 

O problema é que esses são raros, daí o desastre que representam os supostos e inumeráveis poetas (como eu, Vital) com obra completa, livros publicados, e carreira literária fundada em ...nada (rima?).

 

A salvação da pátria estaria na leva de poetas que deslancha (ou desembarca) nos cais dos primeiros 10, 15 anos do século 21, porque as gerações passadas (ou ainda passando) – dos últimos 30 anos do século 20 – estão perdidas, naufragaram (sem a bóia do verbo), no inferno do mar ordinário da vida pregressa intoxicados que são da lógica do prosaísmo disparado ou incontido. Daí, o prosaicismo sem conta vigendo na poesia atual.

 

Para isso é preciso que os novos (e candidatos a) poetas saibam, ao menos, o que é poesia. Sobretudo, como recepcionar a poesia neoposmoderna. (A dele mesmo).

 

Para a poesia o significante vale mais que o significado. Forma mais que conteúdo. Ou melhor, o poema está todo no significante, não no significado. No como se dá o sentido. O conteúdo do poema é dispensável. Sem forma nenhum fundo aparece. Sem forma poética, o que sobra (fica) é prosa, em verso.

 

A famosa mensagem do poema, a lição, o exemplo, o moral, o sentimental, fecho do ouro, prata, bronze, tudo é dispensável, pois não se trata de olimpíada de palavras, mas de poesia.

 

Costumo dizer que poesia é para (nós, nos) compreendermos, não para sermos compreendidos.

 

Então a questão do que queiras dizer não é importante. O que importa é como o disseres.

 

A poesia não está, não reside, não se encontra na mensagem, mas ela está na forma de mensagem. É a forma da mensagem.

 

Busca-se extrair (processo de abstração) das palavras a forma poética e não um conteúdo (ou significado, sentido ou equivalente). (Se se subtraísse a forma poética sobraria um poema prosaico).

 

A poesia (o poeta) tem o poder de transformar a realidade, ir além das aparências – e aparências são tudo, formam uma rede que nos prende ao mundo do simulacro. O poeta desmonta, desnuda, desvenda, desvela (poeta dez) a teia das aparências e revela o mundo real, verdadeiro. A essência vital das coisas, do homem, da sociedade. Do ser.

 

O poeta navega a bordo do sonho, ou melhor, singra no barco da utopia, nau imaginária e patente, barca ébria, rimbaldiana, argonáutica, com que ele funda o mundo humano (Holderlin).

 

A beleza verbal é tanta que estonteia e aderna.

 

Então, é preciso pesar, medir, avaliar sopesar o quanto se pode (e deva) sacrificar pela poesia, do ponto de vista da vida prática, porque a empresa da poesia exige muito, a entrega ao estético é exaustiva e total. O negócio é o ócio. A poesia está fora ou contra a vida prática. Poemas não são ossos, são ofícios (ofídicos).

 

O desafio de quem empreende no campo da literatura é equilibrar e não se deixar envolver pela vertigem. Pairar como o espírito (ser etéreo) mas não deixa de ser pedra (terreno, mundano). Mescla de Heráclito com Parmênides.

 

Essa vertigem eu tive. E, se sou humano, médio, normal, o elo é a pedra do sono, a raiz da vigília, o remorso, a voragem, que é a poesia.

 

 

 

 

 

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