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Escrito por Administrator   
Quinta, 26 Dezembro 2013 18:01

A mobilidade das imagens (ou imagemóbil) em VCA é grave, intensa, completa. É uma poética cacheada de imagos verbais, chegando a um vórtice o delírio lírico, convulso verbo, fuzilando o noturno para criar manhãs definitivas sobre noite furiosa e sonâmbula dos calabouços (de que poetava o luso José Gomes Ferreira), mestre e ícone da poesia absoluta.

 

 

A imagem do cacho dela vem do próprio JGF, colhida por mim, não poeta ainda, em Manaus, nos idos de 1972, quando era puro burocrata (Diretor Geral da Receita Estadual). “Poesia das imagens aos cachos”, se autodefinia objetivamente num poema, o imenso José Gomes Ferreira (no livro Elétrico, de Poesia militante I). Este poeta tão singular, especial, de peculiar estilo único (vale o reforço) que assusta. Assombra o leitor.

Trata-se de uma expressão poética originalíssima, que segui. A senda Gomes Ferreira, a marca JGF, o ferro luso e cósmico ajudaram-me sobremodo.

 

POESIA LIBERDADE ABSOLUTA

A arte (no caso, poética) começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida. Ao declarar tal, Gide indica que o caminho da poesia passa pela experiência de viver e sua superação ou ultrapassamento. Como para a poesia, a linguagem é vital, inclusive como tema e instrumento, objeto e sujeito, o bom poema é o que se refina a si mesmo, se realize nele e não vise somente o outro (que no caso é referência além do poema) A poesia absoluta expressará o nível de liberdade que o tenha no poema. E tudo o que macule o ato poético ou amarre a imaginação é irrecomendado. Prega-se uma poesia que porte a absoluta novidade da linguagem.

 

TESTEMUNHO

 

Vi um anjo descer do céu face cadente.

Na mão chave do abismo resplandecendo.

E vi o olhar de Jano cair sobre a cabeça de um lobo faminto

(que o passado sepulta e o futuro defronta).

E vi o ano mil morrer cheio de chagas e gritos, lepra e prece.

O pânico beber seus olhos, o rosto

acorrentado a horas impiedosas

(era um velho cego, raquítico, árido

escorraçado por açoites de varas

para além do muro da vida, das tinas do tempo).

E vi o solo morder demônios e o selo vedar abismos.

Vi o sol negro, o saco de crinas, as hóstias enfermas.

Estrelas demolindo-se, a cinza das figueiras.

Homens desfeitos em pó.

E vi a loba esquálida que devora homens em declínio.

Vi a tribulação acasalar com a glória.

E o filho desanuviando-se e suas máculas celebrando.

Vi as dez tribos perdidas de Israel.

E rios passando homens, vi Sião fugir.

Vi na cidade de Megido, no campo Esdrelon.

E vi a ambígua noite cujo muro separa

o velório do velho milênio da cova

onde brota a nova manhã.

E vi o rosto de um homem erguido do lodo das horas.

Vi Jano contemplar barca de Caronte

com sua carga de sombras atravessar o Estige

rumo ao Hades terrível, longe do Eliseu.

Vi no Tártaro a alma do azeite.

E na ilha dos bem-aventurosos a sede de viver, o estertor.

Eu vi o cadáver do milênio na vala comum do tempo.

 

 

 

Conciliábulos invadiam devoto vestíbulo

de rumor incendiavam saguões.

 

Era a conspiração chegando ao fim

ramalhete de orvalho aterrissou

sobre a tonsura do pároco redondo

depositando ósculo úmido.

 

Era a conspiração chegando ao fim

(o termo final do delírio alegre da ira)

ramalhete de orvalho aterrissando

sobre tonsura do pároco redondo

depositando ósculo úmido

na circular calva santa.

 

Alcateia de secretos carneiros urdia

no recinto mais submarino da noite

mortandade dos lobos devassos.

 

Esquadra de códigos era inútil

para desarmar o acúmulo de naves coalhando

horizonte defronte de cada alma.

 

Bordel de hemácias ofereciam

a lentos transeuntes rubro fulgor

que por sua veia tentadora transitavam.

Matilha de especialistas desfiava

pecúlio de ricas anedotas e prendas raras

sobre asneiras de generalistas desempregados.

 

Turbamulta de ricaços se negava

a cobrir com tributos sonegados

rombo das contas do Estado.

 

Na roda de andorinhas

o de que mais se falava

era da voz dos pardais em revoada.

 

Um magote de PHDÊS consultava

corja de tratados abstratos

anunciando novos planos quinquenais falidos

desde a véspera.

A malta dos magnatas debruçada

nos balanços anuais avaliava

lucro de suas mensais espertezas.

 

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