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A Marginal Recife 5 e o Movimento dos Escritores Independentes de Pernambuco PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Quinta, 06 Junho 2013 19:53

À Dama da Epifania - Cida Pedrosa e aos Cavaleiros da Terceira Margem

Chico Espinhara e Eduardo Martins

Vital Corrêa de Araújo

 

Findava o violento governo Geisel, e Figueiredo, alérgico ao cheiro do povo, já coreografava, com uma gestão grosseira e delirante, as últimas e grotescas cenas dos estertores da ditadura, ameaçando escoicear praças e transformar o que restou da pátria em haras.

A agonia, artificial e irresponsavelmente estendida, da ditadura brasileira - por todos os títulos e aspectos prejudiciais a todos - era apenas uma doentia satisfação a meia dúzia de generais golpistas e renitentes, antidemocráticos por natureza e formação, nos bunkers didáticos do Pentágono, onde epistemólogos belicistas da guerra fria ofereciam a cabeça das pátrias na bandeja geopolítica, cercados de Salomés dolarizadas. Tudo sustentado pelo estabelecimento industrial-militar (que a linhagem Bush teima em reproduzir), e que no Brasil teve sua versão cabocla, simbolizada pela cerimônia de iniciação, em que as madames davam as jóias e poupavam os dedos e as mãos dos maridos, habilitadas assim, para a faina corrupta da busca do ouro fácil, que por 20 anos aflorou por estas plagas sem lei nem rei (os tentáculos da corrupção civil gerada pós-64) e, sob o manto militar, mesmo podados, resistem e lutam.

 

 

 

A oblíqua e tortuosa transição ao estado de direito fez o Brasil perder a década 80/90. O clamor às eleições diretas, atendido tardia e desastradamente, nos empurrou Collor, de pútrida memória, o que representou, não obstante o processo eleitoral claudicante, a continuidade - por força pura da inércia - do autoritarismo temperado pela velha corrupção. Com a segunda redemocratização, estouraram em todo o país movimentos literários que, se ainda não tinham uma face pública, por força da repressão feroz e da mais feroz ainda censura que inibia o desenho do pensamento, e também por decorrência da idade dos integrantes, mostraram surpreendente vitalidade, utilizando recursos inéditos de mídia e criatividade bem brasileira, estabelecendo desde logo um terreno próprio e independente do centro acadêmico, oficial, estabelecido. Eis a gênese de todo um movimento artístico, amplo, profundo, que levou o Brasil ao mapa da vanguarda das vanguardas. O movimento de arte processo, praxis, concreto, em suma, brusckyano, hanseniano e danielsantiaguiano, começou assim.

E os poetas, estampados nesta quinta e nas seguintes coletâneas que Fernando Duarte e Heloísa Arcoverde propiciam, são a continuação viva do MEI-PE.

Assim como, em Pernambuco, nos anos 80, o sinal de vida estética não vinha dos nichos oficiais ou das mansões, mas da rua, das calçadas, dos bancos de praça, da Livro 7 e de poucas instituições como a UBE de Paulo Cavalcanti, IJNPS (e do bravo JC do mais bravo ainda Esmaragdo Marroquim), que abrigavam as primícias do movimento independente, agora, a chama, não treme só nas tochas das academias ou universidades, mas irrompe das bibliotecas, dos saraus, dos sebos, das mesas dos bares, dos pátios, mini-teatros e escolas.

No Recife e arredores, o epicentro dessa explosão de criatividade foi o ano de 1984 - emblemático por que exatamente o aniversário de 20 anos da ditadura de 1964­, quando a pressão, vinda desde o começo da década, destampada a panela autoritária com a candidatura Tancredo Neves, deu vazão à grandiosa ebulição que semeou novos horizontes e fez pipocar jornais alternativos e gerar movimentos, como o dos Escritores Independentes de Pernambuco, que, 25 anos depois, é parte vital da história da literatura pernambucana e nordestina do último quarto do século 20.

Marcaram época revistas e jornais como Pirata, Americanto, Poesia Pro-texto, Cântaro, Contágil, Cultura e Tempo, Fandango, Espaço Cultural DM, Commercio Cultural, Pasárgada, Geração do Pátio, Cochicho (de Amara Lúcia, autora do revolucionário A difícil vida fácil), Mandacaru, A Gaveta, Agenda 07, entre muitos.

Destaque especial para a revista/jornal (profética e realista) Lítero-Pessimista, de Chico Espinhara, cuja primeira e heróica fase (81 a 84) englobou 03 (três) números e representa um rico acervo, um repositório da produção do MEI-PE, veiculando, com galhardia e coragem, a desesperança e o inconformismo.

Em suas várias fases, o jornal Lítero-Pessimista foi obra e sonho de um visionário, do já legendário Francisco Espinhara, cuja trajetória de vida, até a morte recente em 2007, foi cercada de uma auréola de autenticidade, de um líder literário que encarnou até o último sopro a marginalidade poética mais pura, romântica, autêntica e corajosa, sem nunca "tergiversar, conciliar, submeter-se a seduções ou conluios que o desviassem de seu rumo ou afastasse o vento rebelde de sua bandeira, que nem com sua ida deixará de tremular no pódio da luta poética. Rebeldia e inteligência, intransigência e sensibilidade de mãos dadas. Espinhara é o nome e é o timbre"desse tempo vital.

Esta excursão pela poesia que se nutre das ruas, beira livrarias e ilumina os bares, toma praças, faz lampejar os adros - e que não viceja no útero calcinado das entidades fechadas - faz-se pelo que esse pugilo de poetas independentes dos estabelecimentos fez, e os poetas consagrados pelas antologias Marginal Recife continuam a fazê-lo. Ser livre e conseqüente.

Silvio Hansen - um dos maiores poetas visuais do Brasil ­- expressões que emergem como Rogério Generoso, Luiz Carlos Dias, Nivaldo Lemos, Vanessa Sueldy, Altair Leal, Antonio de Campos, Sérgio Leandro, Milton Pitanga e Adonildo, estampam-se nesse liber qvintvs e continuam a fazer a história de um dos mais íntegros e conseqüentes movimentos literários do Nordeste, o dos Escritores Independentes de Pernambuco, mais vivo do que nunca, graças à curadoria do poeta Valmir Jordão.

 

Vital Corrêa de Araújo presidente da UBE I PE maio de 2007

atualizado em Quinta, 06 Junho 2013 19:59
 

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