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Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 19:20

“Janelas a” compõem textos – que denominei a um tempo de leituras escritas.

São diálogos de um leitor solitário consigo mesmo e com livros. Sobretudo com o espírito de seus autores.

(O ambiente de leitura é estranho e fascinante. Um velho apartamento de frente para o canal de Jequitinhonha, em Boa Vaigem: 170 m2 de livros (cerca de 10 mil volumes e mais de tonelada de documentos literários). Há anos, só o autor tem acesso a esse local de tesouro).

 

 

 

Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, Valéry, Borges, Séferis, Rilke, Perse, CDA, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Lezama, Montale, Sá-Carneiro, Guillén (Jorge), Jorge de Sena, Eliot e Pound, além de Pessoa e Gomes Ferreira, foram tantos outros para quem foram abertas janelas, tais como a que abro agora a Cioran. (Emil – Emile – Cioran, Romeno maravilhoso, cujo centenário de nascimento ocorrido em 2011 homenageio nestas páginas.

Há uma intervenção do leitor na alma do autor lido. De modo que as opiniões, ideias, frases se cruzam, mesclam-se, copulam, bebem do mesmo riacho literário a água pura da poesia, cristais de palavras.

É o destino (útil como poucos o são) que se dá (dou) a milhares de folhas, rascunhos, borradores, com notas pé-cabeça, xipófagas, emaranhado de citações, sílabas mentais, pensamentos complementando-se. Mais de 500 laudas, só de Cioran.

Com base em alguns originais (em francês, traduzidos por mim em contraste com traduções em espanhol (adquiridas em 1979) e em versões portuguesas (lusas e brasileiras), a principal, do maior especialista brasileiro em E. M. Cioran, o professor José Thomaz Brum – Breviário da decomposição – Rocco 1995, produzi esse texto oferecido a minhas mais infiéis leitoras.

Essa Janela a Cioran é restrita ao panorama poético, isto é, trata de suas ideias no campo da poesia. E abro para só êxtase do leitor.

 

JANELAS A CIORAN

(Sobre o poeta. Com alicerce (físico e psicológico, mental e metafísico, isto é, na palavra e no pensamento) nas ideias “entre aspas” do meravilhoso Cioran. São retalhos costurados com o lápis de Cioran reconstruindo o tecido filosófico sublime do mestre romeno).

 

Não pode haver desenlace (meta, utilidade, azimute) para a vida de um poeta.

 

“Tudo o que (o poeta) não empreendeu, todos instantes alimentados com o inacessível dão-lhe poder”.

 

O poeta, “ele experimenta o inconveniente de existir”. Em consequência da decepção de viver. “Sua faculdade (do poeta) de expressão se revigora, seu alento se dilata ou se dilapida furiosamente”.

 

 

“Uma biografia só é legítima (só tem sentido e justificação) se põe em evidência a elasticidade (ou o triunfo mesmo áspero) de um destino, e abranja a soma de variantes que comporta”.

Mas o poeta segue uma rígida linha de fatalidade cujo rigor nada abranda.

“É aos néscios (ou aos santos) que a vida cabe como quinhão, e é, para suprir a vida que não tiveram, que são inventadas as biografias dos poetas”.

(Ou suas trajetórias vitais – pelas veias sujas do mundo – cheias de façanhas líricas e obviedades santas. Ou inutilidades incontáveis. Ou aventuras pesarosas).

“A alegria não é um sentimento poético”. Provém entretanto de um âmbito do universo lírico – pelo poeta criado e alimentado pela palavra (essa ração de vida e sentido) - , “onde o acaso reúne, em um mesmo feixe, chamas e tolices”. (O ardor e o infantilismo humanos merecem um só infanticida, reza Cioran).

“Alguma vez se viu um oco cântico de esperança (uma ode utópica ou estância afortunada) que não inspirassem sensações de mal-estar definitivo, e até repulsa” (ou mesmo desespero?)

“Entre a poesia e a esperança, a  incompatibilidade é completa (ou mesmo perfeita). E o poeta, vítima de uma ardente (e  impiedosa) decomposição”. Vegeta com sua alma pelos confins do nada, ao encontro da náusea definitiva.

Quem se atreveria a perguntar ao poeta como experimenta a vida (sal, maciez, fel), “se ele vive graças à morte”.

Então, para o poeta não há salvação, só dor inútil e horizonte cego?

Indago, e Cioran retruca.

“Se por acaso das chagas do poeta brotassem labaredas, ao invés de pranto e pus – essa incandescência voluptuosa da desgraça -, a mácula escura e o matiz de vulgaridade (habitantes de sua alma) talvez sumam”, como foi o caso de Holderlin, refugiado num Grécia utópica e transfigurando o amor por cada poro da palavra, em forma de embriaguezes puras arrancadas das taças da irrealidade que o lirismo profundo ilumina ou sonega.

Que a poesia oferece e as elegias incomensuráveis (como Arquipélago e  Pão e vinho, do divo Holderlin) edificaram, plena e profundamente no espírito humano.

E conclui Cioran: “O poeta seria um desertor odioso da realidade se em sua fuga infinita não trouxesse consigo (à ilharga da alma, no olhar central, no eixo vital do corpo), em companhia dos versos (inúteis), sua própria desgraça, exposta, como osso fraturado, ao fêmur do público que contempla sua dor ou sucesso (a mesma coisa)”.

Completo: E a carcaça triste espetasse num mourão envergonhado do mundo como bandeira atrevida, irrenunciável.

Porque “ao contrário do místico ou do sábio, o poeta não sabe escipar de si mesmo, nem evadir-se de sua obsessão. Mesmo seus êxtases (além de vazios) são incuráveis”. E meros prolapsos.

Seus delíquios são excessivos; se são astros, giram sinuosamente em torno das próprias culpas, seus umbigos não são ônfalos, ânforas de carne, pontos de fuga, bússolas de sangue, círculos cegos, taças lascivas. Onde nus embriagamos desse lúbrico vinho.

A premonição do desastre conduz-lo (aos poetas) ao cerne do desespero ou ao arrependimento do mundo, mas eles nada salvam, nem a si mesmo. Coitados!

Nem mesmo se rendem a seus cernes.

Curiosidade da leitora. Quais os poetas que freqüentam Cioran, quando não estava a ouvir Bach – 15 horas por dia ou compor renovados breviários da decomposição (bíblias da carne e do sangue das almas dos homens perdidos no mundo da usura e da franqueza?

(A cofiar a barba do destino ou o cenho da morte palpar).

Valéry ou Stefan George introduzem no curso (túnel ímpio e antiflosófico) de sua vida alguma frágil luz, cuja espessura alenta o seu infortúnio (duradouro), sua inconsolação filosófica, e “nos tornam mais exigentes no plano formal do espírito”. E dispara certeiramente Cioran: “Stefen e Paul são gênios de que nunca sentimos necessidades”.

“Um Rilke, um Shelley, um Baudelaire injetam-se (como aguilhão no olho de um ciclope leitor), no mais profundo que nosso íntimo suporte e nossa veia os incorpore como se vício fosse”.

Observa Cioran (deduzo) que, como a poesia é universal (arquétipo pardo), os poetas formam uma horda epidêmica, laço perene em torno da garganta dos homens sérios, treva viva à frente do olhar empreendedor dos que comerciam a vida, feixe de inutilaria a latir contra as utilidades (e usuras poundianas) da vida que o progresso propicia...

Após esse vislumbre de conforto à poesia, Cioran desanda e perora.

“O poeta é uma agente vital (ou viral?) de destruição, um vírus, uma doença disfarçada (simulacro); é o perigo mais grave, embora maravilhosamente ativo e sincero, para os glóbulos vermelhos da alma” (que ativa pois a poesia é a doença do espírito, pus do verbo, panarício sem panaceia).

“Só no campo da verdade, no corpo do pensamento, a poesia é vigorosa, porque profundamente sincera, estrepitosamente ferina. Aduzo para compensar o ferino Cioran. Mas ele não pára.

“Mais do que na escola dos filósofos, é nas dos poetas que se aprende coragem, a da inteligência (gramática visceral) e a audácia de sermos nós mesmos, ao menos um pouco”.

“As afirmações dos poetas fazem empalidecer os apotegmas mais estranhamente impertinentes dos antigos sofistas” Ou enrubescer batráquios das lagoas azuis em que rasteja a humanidade, de quatro, de cócoras, de vergonha da sua ignorância perene.

“Já houve um pensamento que fosse tão longe como Baudelaire ou que se atrevesse em fulgurar e persistir incandescendo como Lear ou um monólogo de Hamlet”?

E os estribilhos proféticos de Nietzsch? Báquico ditirambo que a Apolo custa lágrimas.

Enfim, o poeta quando extasia a palavra – seu ofício e função (e embriaga a página – inocente e branca, que corrompe e mancheia) faz rebelar a ilusão, e a taça de seu vinho ferrenho (e capitoso porque prenhe de delírios dionisíacos capturados da borra da vida) desdorda e faz ajoelhar o sedento mundo.

Cioran também rende admiração, decerto fervorosa (talvez sinceras?), aos frenesis de Tereza de Ávila ou de Angela de Foligno... “Mas nelas encontramos com excessiva freqüência a Deus, esse sem-sentido (sumo) consolador” (contumaz, viciado em piedade, essa doença divina)... Esse conjunto inóspito de vácuos quânticos...

E encerra o eito de admirações dizendo que “passear, sem convicções entre as hortas furiosas e secretas (de Deus) não é próprio de um homem, nem sequer de um santo, entretanto, o é de um poeta”.

 

Agora, parafraseio Cioran (como já o tenho feito) e arrumo em forma vérsica essas verdades, pérolas sem ventre, gemas  iconoclastas, palavra e destino humano traçados com a pena da impiedade vital, com o buril do desespero (também vital) talhado na página (ou tela) da alma.

Os poetas extraem verdades da maldição de suas vidas

punçam delícias da dor

que as palavras carregama

como fardo ou câncer

em suas histórias trágicas

na boca dos homens

alento dos atanores

na beira de suas almas

(pântano que ao ânimo asfixia)

nos poemas insirem imagens duras

(e líricas) de suas quedas e delírios

– como Poeta, Cioram detestava o cotidiano

como Valéry, os acontecimentos o aborreciam

a banalidade humana o levava à ira absoluta.

 

Cioran e sua pena testemunham sucumbir o limiar

(não o limite nem a fronteira de sua morte selvagem)

céus petrificarem-se, sóis se calcinarem

e fazer grassar do leito ímpio

de suas páginas hinos vivos

coisas que nem a mais maldita das inspirações

o mais tétrico de todos os maldorores

nem os mais abissais ímpetos sonhariam.

 

Cioran alega que o “pesar de não ser poeta” é imenso no mundo (e sempre o foi em todos os mundos) e muitos deploram irremediavelmente não estar iniciados “na ciência das lágrimas, nos flagelos do coração (nos vícios do sentimento), nas orgias formais – e sonoras ou nas imortalidades do instante”.

Se se pede a quem quisesse ser poeta levantar a mão, floresta de intrincados dedos espessaria mais a paisagem poluída em que vivemos (?).

Nutrido dos venenos dos fervores pela crueza da verdade, que não cansa de incitar / aviar (levar à desnudação, ao escândalo da concupiscência) e demonstrar, usando linguagem artística do mais alto nível, Cioran perora.

“A visão da nulidade do tempo

faz nascer os santos e os poetas

e os desesperos (sem cume)

de alguns solitários apaixonados pelo anátema”.

 

“A santidade é uma aventura

como a poesia. (O périplo do abandono).

A banalidade do tempo que passa (trêmulo)

(e mais ainda dos homens que carrega em seu curso ou cesto)

só não é maior do que a morte

que pune a hora, o trânsito.

Quem não estiver imbuído

da convicção de que tudo é vão

fale ou levante a mão”

(de novo a floresta de dedos cerrados).

 

“Quem ousa encarar

as conseqüências disto”?

Que lassa ilação vem desse dito?

Ninguém. Nem eu (ou tu

leitora inútil)! Encara ou comenta.

 

Doentes da esperança, esperamos sempre por quê, por quem, para quê, por si, quando, onde, eis as novas e cruciais interrogações, questões vitais de nosso putrescente tempo – época  abominável de neve poluída (e sem pegadas misteriosas ou senhas imbecis).

E a vida não é mais do que

espera hipostasiada. Esperamos tudo

até o Nada fervorosamente

esperança em riste

(por que acreditamos em milagres?).

 

“Menos ser reduzidos

a uma suspensão eterna

a uma condição de divindade

neutra ou de cadáver”.

Brande Cioran

do alto de sua sinceridade filosófica

de sua humanidade sem cinza.

Do romeno (e gênio da raça), autor dos mais amaros aforismo, extraio, de Breviário da decomposição, estes, para essa trágica e generosa janela.

 

“Ninguém pode escapar da condenação à felicidade ou à desventura, nem furtar-se à sentença natural, ao tribunal funambulesco, cuja decisão estende-se entre os marcos da comarca que se vislumbra entre o espematozóide e o túmulo”.

 

Impregnado de Cioran (impregnação a que a raia do delírio estende seu ácido) poemo

E compartilho com a leitora infiel indesculpável,

hipócrita e vaidosa como a soe de ser as...

pertences à manada das vítimas, vais

a perambular pelos infaustos dias

de tua vidinha hirsuta

pisoteando o bocadinho de paraíso

(alvejando o penico trazido do éden adâmico)

que Escondes dentro de ti (e quebrando

seus telhados, estuprando macieiras)

o ímpeto de teu olhar morreu há muito

teu sonho se sujou da impureza

do tempo, da natureza dos homens.

Só és digna da glória leprosa

e de uma coroa de baba.

(Leitora inoportuna com quem partilho o imundo

a decomposição dos breviários do mundo).

 

(declaração final de amor avesso)

 

Somos (eu e tu, leitora ímpia) servos do fugaz

criaturas do trânsito

(engarrafado da vida)

devotos do vão

amantes do sensentido

da vida e do mundo

órgãos definitivos

cruas testemunhas do por vir amaro

que sempre estamos a esculpir, desejar com fervorosa perícia.

 

 

ADENDO

Quando Caillois (ou a fascinação

pela ganga pura) afirmou

o eu do poeta é difícil

escorregadio, asperoso

intramitoso, volúvel

eqüestre até (bastante inamistoso)

irrevelável enfim, Cioran perorou:

só os obcecados revelam o seu verdadeiro

(real, claro, meridiano) eu... talvez

por serem bastante limitados

ou oneroso ter um.