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JANELAS A PERSE PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 19:23

Só existe a história da alma. S-JP

As chaves de prata do seu exílio impenetrável

Perse nos deus, inflanqueou-o totalmente

(a seus leitores inconsolados

mas perdidos em sua estrídula pertinácia

em suas vertigens e calabouços da palavra).

 

 

 

 

Nunca propenso ao pudor

ou a abdicações da lucidez

conforma Cioran

nem a compromissos da transparência

Perse multiplica suas máscaras

e se esgueira fora de todo finito.

Foge da inteligibilidade (fácil) e is que o limitem

recusa fronteiras (não suporta lindes)

entre o id e o verbo

que não fossem os da voragem

que impregnam suas palavras

(de que resultam ditames vertiginosos

Imprecações à náusea).

 

Pense elimina qualquer ponte entre o desterro e o ser.

 

Vacuidade não o comove

ao niilismo não é simpático

(is não lhe infestam o nome poético, nem ismos o tentam

seu estilo é implacável

não concilia com as vias

de mão única da palavra).

 

Perse perse –

gue o Ser (dis-

para Cioran)

“única via para escapar ao pavor da coerência”.

 

“E subitamente tudo é, para mim, força

e presença, onde arda ainda o tema do nada”

estou inteiro, cremado como um círio eterno

responde (a si mesmo, não a nós, cegos leitores).

 

Nunca dado, sempre construído

com a dor de viver

(massa comum da humanidade)

e o apoio servil da palavra

(essa entidade da alma).

“O Ser merece a honra da maiúscula”

essa minúscula mônada

que começou do homem

é a história de sua alma.

 

No processo de revelar-se o Ser é duro

e árido, habita o incomensurável

alimenta-se do aparente

íntimo do simulacro.

Inóspita é sua via por dentro da alma

submerso no espírito que move a palavra.

 

Mas “o próprio Mar

como uma súbita ovação” o salva

sedia sua metamorfose

avia alguma limitação que o revolte

dirime incompreensões senis, sutis distúrbios

que o verbo consinta, elimina

fagulhas que o ceguem, faúlhas

que o sonhem

(mas não as cura felizmente).

 

 

 

 

Questões abissais vêm à tona

para salvar Perse (de seus precipícios

e da lógica impiedosa dos homens)

levá-lo a seus túneis, cânions

pérolas, coivaras, cristais sonâmbulos

esmeraldas venenosas, veias de carbúnculo

diatomáceas, cotonifícios.

 

Grita Perse:

Só o súbito me absolve

o tribunal da palavra é meu esteio

“a vitória sobre o vazio azul é definitiva”.

 

Branca ovação, águas em diáspora

mares inamovíveis, espetaculares

ondas de insolente azul

marés montadas, cavalos líquidos

navios sem ventre, catedrais de sombras

estalactites vivas, guilhas dodecassilábicas

infractuosidades sólidas, solidões

de cristalinas masmorras

assembléias de algas, gaivotas

que laceram o céu (a serviço de Deus)

gáveas aladas, sereias

amarradas nos mastros (rodeando falos)

meios-dias atentos ao sal da luz

(aos pinos da sombra penduradas bandeiras

estraçalhadas de sóis, árvores e vieiras

arrulho de ampulhetas, os pássaros das horas

do espaço calendário revoando o átimo

do silêncio nascente, da ventura amara

hecatombes de pombos em tranqüilos telhados

(catástrofes infiéis também)

Imarcessível penhor branco, tudo

(o que murche, enflore, passe, canse)

tomba sobre (o) súbito, nutre-o

de geometrias e abandonos

de cristais intransitáveis

de safiras o consola

alenta-o, liberta-o

do peso da sombra

do som da hora

do tombo da náusea

cotidiana

(e dos caçadores de covis)

colapsos, coleiras, cabelos, traqueias, calhandras).

 

“É preciso mais inteligência para prescindir

de uma palavra do que para adotá-la”. Valéry

numa carta a F. Brunot.

 

Toda expressão (vocábulo em rede) de escola (não dominical)

deveria ser proscrita (jamais prescrita)

e comparada a um delito (fuzila Cioran

a propósito de Perse, e segue):

“É inconscientemente desonesto todo escritor que

para superar alguma dificuldade de escrita (tergiverse)

invente uma palavra empolada, pretenciosa, qualquer”.

 

 

Leva Cioran ao paredão os neologistas de plantão

incursos nas normas do mormaço da poesia

que está além de suas existências mesquinhas.

 

A palavra não tem verão.

O verbo é invernal.

O paraíso era ártico.

Deus trouxe alento do inferno (cálido).

Roubou-o (Prometeu divo

para incutir no Homem).

 

O exílio é azul (e é lá dentro)

Clama Sébastien Joachim.

O exílio não é estrangeiro. É da alma

não do corpo, que não o acolhe.

 

O exílio está enraizado em mim (poeta

nostálgico da Floresta Negra

e do rumor Martin, Martin que voa

da boca das carpas e do lábio

das minas de água inacabada ainda

que desce das corredeiras das pedras

para a boca dos poetas). Que um dia bebi

e desta água beberei sempre.

 

O exílio prospera em meu espírito

como um cadáver

onde vermes desovam, mas perdoam.

 

Perse compôs o exílio

como uma partitura de sal

como uma corbelha de sol

que uma grinalda de andorinhas trouxe

para dentro do seu colete

fato de ervas e pássaros

seiva diplomática

selva de Dante.

Dedilhou o exílio, sílaba a sílaba, até

encontrar na flor do verbo seu nome

entre as nervuras de uma pedra estóica, asteca

abeirou todos os cânions da palavra americana

bebeu a vertigem da fonte

amalgamou rocha e canto

cernes e nuances visitou

espicaçou propósitos

introduziu sentimentos em colmeias abandonadas

por abelhas vespertinas, indomáveis rezou.

 

“Cada palavra de Perse se debruça

sobre a coisa que traduz

para exaltá-la aponta Cioran

com a magia de seu verbo romeno insuperável.

 

Cintilante hino de pétala e alce

perpetra Perse

parte de erudita seiva

abeira lume de abelha

consulta a embriaguez dos deuses

a omoplata de Afridite olha

dita o delírio com azeitonas indomadas ainda

ode selvagem inicia

com sua

ante o ímpeto virgem da palavra

abre labaredas e voragens

o verbo porvir pronuncia

sílabas de tempestade e sombras de candelabro

Perse anuncia

tudo que o liberte da mundanidade lógica.

 

 

Pré-socrático e antibíblico, Perse

assimila ao sagrado

tudo o que é suscetível de ter nome

tudo sobre o que a linguagem verse

(antes do homem) – essa salvadora epifânica

que domina, sujeita, conserva o poeta.

 

E nome o dão poetas gratuitamente

registram-no nos anais da verdade

que a linguagem mantém aberto em cada verbo

que atravesse o poema (o dilacere)

em palavras comuns e armadas.

 

(“Justificar as coisas é batizá-las”

dar-lhes sal e nome ultima Cioran).

 

Perse, num poema escatológico, afirmou sem reservas (ou remorsos)

que até esse “gólgota de lixo e ferrugem”

que é a cidade moderna (frisa Cioran)

deve-se amar

e percuciente – crucientemente – acrescenta (E.M.C.):

o recurso, mesmo irônico, à terminologia cristã

adquire um estranho efeito

nossa obra fundamentalmente pagã.

 

Em Perse, poeta imedido, imiscível

todas as coisas participam do instável

(têm parte com o demônio do impermanente)

que é a palavra poética em ato

despotencializando todos os significados existentes

estabelecidos como dogmas sedosos

arribeirados ao verbo como rêmora a tubarões

(ou casca grotesca a remidas feridas).

 

Perse pensa o outro (e é o outro Rimbaud

francês e universal, ubíquo, incontinental, pétreo

mas de leveza sustentável.

 

Fazer pensar o leitor

que não corresponda a nada objetivo o poema

– ocultar possíveis referências

sonegar ângulos lúcidos, velar

o brilho significando

é o objetivo de Perse

(e da poesia).

 

Como se do poema nada perceptível assomasse

e somente pedra aparecesse

(pedreira de metáforas)

é propósito perse

intenção poética.

 

E Perse insoberbo, intratável, imenso

como uma manhã ou um duodeno

invencível como um cristal de rocha crível

adjetivo iconoclasta intransitivo

insubstituível como o infinito

ressurge do âmbito das ondas nuas

dos limos desesperados (de Cioran)

para proferir um só ditame

“uma frase só longa

e ininterrupta para sempre ininteligível”

como a melhor poesia.

 

(Busque a sábia embriaguez das palavras

– leitora não incompatível com a página

apta à poesia desordenada –

pois todo um povo ergue-se de um verso

porque o mundo é belo como o sânscrito).

 

A exceção é eterna.

 

Não se usou talher na ceia final.

Nem toalha para aparar o vinho-sangue.

 

O tempo é uma invenção humana

para detê-lo por alguns segundos

ou porque não tinha o que fazê-lo

no espaço de um sítio, átimo ou fêmur.

 

A obra poética de Perse é incólume

a escrúpulos cronológicos (dispara

o certeiro Cioran, xerife da linguagem)

pois Perse é um contemporâneo intemporal.

 

Detentor de versículos apocalípticos

venerador do verbo.

 

Perse indomável.

 

Todo fútil é fúnebre

toda sífilis Flaubert

todo sutil é maníaco

todo azul regozijo

toda dor dissipável

todo inútil necessário

todo kitshe moderno

toda poetisa assombra

toda leitora alumbra

todo lento expressível

e capaz de aniquilar o verso

toda mulher secreta

toda tenda cirúrgica

a vida a única

certeza do acaso.

 

 

Toda perfeição é inacabada

senão não é perfeita.

 

O poeta precisa impedir que o poema

mergulhe na complacência (desventrada)

incorrigível, amortizante, cabelada

 

que o poema seja quitute de aniversário

acepipe de réveillon

coisa culinária

 

ou em imprósperas ruminações cegas

ou em só vésperas suspeitosas

não caia, levante-se e proclame

o mundo é um droga legal (mas insana

para a mente industrial).

 

Portanto, amiga – ou inimiga – leitora

esteja pronta

para irrupção de um novodeus

abandone (leitura espúria) os últimos

escrúpulos, inclusive teológicos

e aguarde o intervalo (da pipoca?)

me espere numa pausa branca

na encruzilhada de um hemistíquio

e me ame.

 

A poesia de sentido unívoco

não é poesia por definição

e natureza (moderna).

 

É poesia passada, antiga

boa poesia.

 

Leia Perse. Não pense.

O poeta serve para compreender

não para ser compreendido.