Murilo Gun

Quem está online

Temos 14 visitantes em linha

Assista

Admmauro Gomes

Siga-nos



LUZ DO ABISMO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 19:30

A escritora Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque já ostenta obra literária de vulto, no contexto do novo romance brasileiro, com os títulos Memórias Diacrônicas de D. Isabel Cavalcanti (ed. Tempo Brasileiro-RJ), Luz do Abismo (Bagaço/Girafa) e Príncipe e Corsário (ed. Girafa-SP), que a tornam uma revelação e uma realidade, como exímia narradora dotada de surpreendente poder de imaginação ficcional.

 

 

 

Como todo romancista de qualidade, Maria Cristina criou um estilo: a narração leve, sutil, elegante – com momentos de puro lirismo  –, porém objetiva; o diálogo, coloquial e clássico (nunca banal); o tema, personagens e ambiente ou locação geográfica e temporal estabelecidos com base em extensa e cuidadosa pesquisa histórica e genealógica, mas, sobretudo, a capacidade de mesclar a representação da realidade com imaginação solta e severa, criando situações em que o leitor submerge na ansiedade de distinguir o fato da ficção. É este um efeito borgesiano ou ecoeano, que supervalorizam a narrativa moderna.

Integrando, há décadas, o Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano, pesquisadora paciente, metódica, incansável, Maria Cristina começou em 1985 a recuperar, em toda sua integridade, dados que permitissem reconstituir a história das famílias pernambucanas que constituem sua estirpe.

De posse de extenso material, que abrangia desde o casamento de D. Tereza de Albuquerque com Afonso Sanches, filho de Rei Dom Diniz, nos idos de 1280, até Guido Cavalcanti, amigo de Dante, e D. Brites (Beatriz), esposa do donatário Duarte Coelho Pereira, irmã de Jerônimo de Albuquerque, o adão pernambucano.

A romancista restaura, admiravelmente, em forma de ficção, a história de sua linhagem, a partir da matriarca Gertrudes Bezerra Cavalcanti de Albuquerque, que imperava, nos idos de 1770 nas vertentes da Serra de Taquaritinga, a Macondo agrestina – mutatis mutandis – de nossa ficcionista.

Quando se esperava que Cristina transcrevesse a pesquisa na forma “nada romântica” de relatórios genealógicos, em que desfilam séries intermináveis de nomes a de descendentes, arrolados em relações quase infinitas, que se unem e se perdem em labirintos de gerações, entrelaçados e exaustivos, ela – numa iluminação só concedida a romancistas natos – escreveu o “Magnificat ou Memórias Diacrônicas de Dona Isabel Cavalcanti” (para mim ainda o seu melhor romance, ou o mais emblemático, narrativa que é o repositório de dados e história para ene outros).

Nele, Maria Cristina, romantiza, como forma de transmitir e fixar informações genealógicas, a formação e a saga das famílias Cavalcanti de Albuquerque e Corrêa de Araújo, através de sete mulheres excepcionais (que existiram, marcaram suas épocas, sendo a sétima a própria romancista), desde Catarina, filha de Jerônimo de Albuquerque e da Índia Maria do Espírito Santo Arcoverde, da filha de Catarina, Dona Isabel Cavalcanti, cujas memórias (diacrônicas) constituem o fio e dão título ao romance) até Gertrudes, a partir de quando ocorre a miscigenação com os Corrêa de Araújo.

Luz do Abismo, o segundo romance, engloba as peripécias e vicissitudes das citadas famílias, estando o enredo bordado em torno de um velho livro de família, provavelmente o original das “Memórias de D. Isabel”, personagem-tronco da linhagem da romancista (e título do primeiro romance de Cristina).

Observa-se aí a astúcia em manipular o tempo e o passado de velhas famílias, adicionando doses instingantes de mistério, como as que temperam o “Nome da Rosa”, de Umberto Eco (também, enredo em torno de um livro misterioso).

Acrescente-se a isso a elegância, o lirismo, a leveza, a perspicácia e a imaginação que iluminam a romancista Cristina Cavalcanti de Albuquerque, o que redunda numa obra quase impar, no âmbito das ficções de cunho histórico, apenas igualado pelo romance “Príncipe e Corsário”, da mesma autora, publicado em 2002.

A diferença que Maria Cristina instaura, ao construir seus romances sobre pessoas e épocas (Maurício de Nassau e o período holandês) e sobre famílias (o Magnificat e este Luz do Abismo), é que a narrativa não fica subalterna ou a reboque dos dados genealógicos ou históricos disponíveis. Nela, a arte ficcional é uma maneira de fazer, não um modo de pensar ou de simplesmente guiar-se à luz de pesquisas. É claro que cada romance tem seu arcabouço, a eleição e montagem de personagens, o modelo ou a víscera da trama, mas a obra de arte somente se revela na execução. Se a autora não trouxesse em si o dom de narrar, de nada adiantaria os megabaites de material de pesquisa, armazenados ao longo de 15 anos: Enfim, não há bons assuntos capazes de fazer o milagre de transformarem-se em romances pela mão de não-romancistas. No ato de escrever, segundo o velho filósofo Alain e Carlos Drummond de Andrade, é necessário que uma palavra chame a outra, e não que uma idéia atraia a outra.

A romancista em lide – artístia da palavra que é, criou sua própria forma ou estilo, singularizou uma maneira mariacristiniana de narrar, consciente de que toda criação é, na origem, a luta de uma forma em potência em vias de utilização, contra uma forma imitada, conforme preceitua Malraux.

Em Maria Cristina, o leitor sente-se suspenso das aparências do real e alimenta-se da fé que a autora deposita nas personagens – e assim passa a acreditar também na história, além de qualquer e banal verossimilhança.

A personagem Dona, de Luz do Abismo, é um ser mais psicológico (ou narratológico) que físico, contudo um ser corpóreo, de contornos definidos, visível, um eu autônomo e nunca o reflexo ou a sombra da autora (Dona chega a resmungar, maledizer, mordacizar, resmungar e glosar a soberba e a inexperiência de Maria Cristina – criadora e personagem do romance).

Dona é o centro para onde convergem o passado, o presente, portanto o futuro, do enredo, e, como eixo de convergência, é meio atemporal, ubíqua, capaz de saber mais e deter inúmeras informações de que a romancista não dispõe.

As demais personagens de Cristina – embora, em certo ponto e momento – calçadas em pessoas que viveram – têm existência ficcional própria e não são fantoches, visões, sonhos, ilusões ou pesadelos da romancista. E toda essa estruturação quase orgânica exige uma alma: Dona, a narradora.

Quanto ao romance Luz do Abismo, ousaremos, algumas considerações sobre o processo criativo de sua escrita, enfatizando aspectos como tempo, espaço e personagens (vidas humanas, acontecimentos, relacionamentos, ali alocados).

A cidade de Vertentes, entre os anos 1850/1950, povoada de personagens – com nomes de pessoas que existiram e existem, como a própria romancista, que assume a persona de uma pesquisadora, envolvida no enigma do livro, do xale e da santa perdidos na arca da memória. Outros, traçados com o realce da verossimilhança e a necessária ração de ambigüidade, tudo marcado por um movimento pendular que vai do real ao imaginado, com a autora exercendo um papel ativo, ubicado na trama, imiscuindo-se para ordenar a ação e extrair sensações de mistério, energia que move o leitor até o final inusitado.

O sentido ou o senso pragmático da ordenação, de pinceladas de verdade histórica, no contexto (ou quadro) de ficção pura, é a raiz do encantamento do leitor, e o que faz do romance arte maior.

Vê-se na leitura de Luz do Abismo, no enredo tramado, uma busca da autora em destrinchar o seu eu, vislumbrar as entranhas de sua história pessoal, completar-se (como criatura humana, criando personagens e imprimindo ações a elas), traduzir-se, encontrar-se (e centrar-se), revelar (ou velar-se de vez) sua alma cavalcanti, seu espírito albuquerque, sua carne corrêa de araújo. Na personagenalização dos romances de Cristina (a arte de criação do “cast”), inclusive, quando ela cria fictamente Maurício de Nassau e consegue que o personagem seja mais real do que a aparência histórica, a presença de arquítipos e o alto nível de ansiedade detectado (pelo leitor) aliciam a romancista a fugir em direção a uma forma quase perfeita.

Nos romances bebidos na memória ancestral, tão rica quanto as raízes de plantas xerófitas, Maria Cristina puxou o fio da meada do sem fim, mas, diz Dona, a personagem, “não terá condições de recompor sozinha a história toda. De certas coisas, nunca vai saber”. Agora, a própria romancista: “Não sou uma partícula viva e latejante incrustada neste longo veio? Minha avó, dona das Dores, não permitais que eu fique à margem desse fluxo contínuo que vem longe do passado, não permitais nunca que, de vós, eu seja separada”.

As exigências a que a autora se impôs na carreira e na formação médicas, o caráter independente e complexo, avançado para a época (imposição  do pai, Emídio Cavalcanti de Albuquerque, nos anos 40, já agnóstico, um cientista, um darwiniano, um líder humanista, um político ideológico e consciente), a necessidade de autonomia e alteridade, que pulsava e se enlaçava nela, levam Cristina à escrita literária, onde chega já madura e precisa, como se ocultamente preparasse o ofício de romancista ímpar.

Sente-se na ficção de Maria Cristina a busca de raízes humanas como complemento do ser; toda uma submersão no controle, na volúpia de guiar o destino (seu e das personagens), no êxtase de criar para ser, que só a literatura concede, e nela a ficção é válvula, não para escapar, mas para se aprisionar no mundo verdadeiro da criação romanesca.

Nos romances de Maria Cristina, em ato, flagra-se, em alta dose, a compreensão dos significados inconscientes dos símbolos e arquitipos manejados pela alma da artista, despojando-se e abrindo ao leitor claridades insuspeitadas, que, de tão puras, submergem em veios escuros.

O grande mérito da romancista, no entanto, é que ela demonstrou um fôlego quase sem limites aparentes em seus três romances, tendo repudiado – ou posto à margem inconscientemente – o conceito de narrativa enquanto um mero conjunto de procedimentos técnicos.

Na escrita de Cristina, tem-se o privilégio de apreciar, graças a sua mescla de estilo (másculo e lírico) a capacidade criadora da linguagem em ação e o coadunar-se de formas lingüísticas com conteúdos ficcionais, de modo pertinaz e conseqüente.

No entanto, o pressuposto maior para que as narrativas alcançassem foros de cidadania literária ou estatuto artístico é o alto nível de desautomatização em relação à linguagem ordinária, isto é, o rompimento com as associações habituais, clichês, lugares comuns na enunciação ou voz dos personagens.

No romance Luz do Abismo, o objetivo da escritora não é contar uma história, imitando as aparências da realidade externa ou biografando pessoas do passado que ela pesquisou: é dar carne e sangue, cor e brilho a almas, ao que, além dos ossos e dos velhos registros, restar do passado e do inconsciente reconstituídos com minúcia e paciência.

Surpreender a verdade interior, escavar o que há sob o nome e a vida ordinária de pessoas que viveram nos séculos 19 e 20; evocar o mundo profundo da consciência, com suas instabilidades e totalidades, dessas pessoas-personagens e libertá-las das categorias convencionais de identidade, de espaço e de tempo – ou de vida banal, igual, como é o padrão humano, ordinário, mundano.

Ao reconstruir ficcionalmente fatos e vida de pessoas que existiram genealogicamente, vestindo-as da condição de personagens de romance e, como tal, dotando-as de características imaginárias concretizadas na tessitura do enredo – Maria Cristina revive-as e completa suas vidas terrenas, não com base somente em fatos inventados, mas através dos valores simbólicos de que se revestiram suas existências e marcarem sua época.

É como se ela concedesse novas identidades (sob as velhas que a hora corroeu) e novas vidas, num espaço geográfico familiar, numa paisagem renascida.

Dona – narradora de Luz do Abismo – é a catraca-mor que mói o urdume, tritura e realça personagens e ações, refinando o romance e espalhando vibrações, êxtases, genes, pelo espaço e tempo cartografados, como cenário, tela e fundo ficcional de uma história entranhada na verdade mais humana de todas, a verdade genealógica, da qual não se escapa jamais, e que nos reveste a todos da alma genética do tempo, que nos completa, e nos desvela e aviva (nossa alma e os descendentes dela). Dessa verdade, não escaparam os Cavalcanti diabéticos e o ensandecidos Corrêa de Araújo. No romance, são destrinchados, desenolvelados ou revelados os inconscientes coletivos de duas famílias da nobiliarquia nordestina.

Dona, também, é a velha e astucios aranha, quase atemporal e ciosa da teia que secreta, vela e restaura os hiatos e as elipses. Os labirintos da genealogia são fios que, pela saliva, fala (voz enunciadora), ajusta, enlaça, às vezes, às avessas, secreta enigmas, e novela dúvidas. Maria Cristina é a mosca (azul) que, inquieta, buliçosa, auto-suficiente, cai na trama da estirpe bem urdida de Dona, a Aracnídea que comanda, porque sabe a extensão, os atalhos, as armadilhas e os segredos da teia, que fia, em nome da ficção literária.

Conforme o modelo kierkegaardeano, ao enovelar-se na trama/enredo, Maria Cristina faz tremer, pulsar a teia da existência das linhagens, das pessoas cujo passado entretece, sob o domínio e a devoração da Dona.

Além das influências notáveis de Borges, Eco, Faulkner; além de sabermos que a autora é leitora voraz de Balzac, Dostoyévski, Proust, impressiona-nos a coincidência com o gênio russo. Para Maria Cristina, como para Dostoyévski (na análise do eminente crítico Wilson Martins, que, nas páginas de O Globo, publicou apreciações críticas sobre Luz do Abismo e Príncipe e Corsário), “a ação e o movimento, esses valores teóricos do romance, existem apenas porque materializam o que ele (o autor russo) pretende mostrar: o espírito humano, a consciência do homem, o seu subconsciente”. Para a romancista da Luz do Abismo, não existe sociedade como não existe paisagem, sua narrativa completa-se e perfaz-se com e no Homem revolvido em seus abismos e interrogações. A luz do abismo é a do desespero e a da revelação da verdade da estirpe, e é, sob essa iluminação gestada no coração da treva, que a autora encontra-se e se completa. Ou, pode-se dizer, é um romance antropológico, em que à ontologia do humano ou da alma do homem dá-se alto relevo.