BORGES LEITOR E PROLOGUISTA Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Quinta, 20 Setembro 2018 23:38

A prosa deslumbrante, surpreendente, inconfundível de Borges, com seus requintes estilísticos, sua temática labiríntica e ângulos inusitados de abordagem da realidade

– para ele, a realidade literária é superior e quase absoluta – avassala o leitor e torna a leitura infatigável. Lê-se Borges horas a cio e a meada de sua imaginação, os fatos da ficção, expressos nuam linguagem requintada, metafórica e irônica e linguagem, são como fios de Ariadne invertidos, que nos indicam o centro da álgebra, o coração do enigma, e assim levam leitor a enovetar-se, flutuando como Dédalo e como Ícaro, arriscando-se a tocar os círios do sol.

 

Na escrita borgeana, a palavra tornará real o que não existe e sintetizará em raros versos o universo. Seus poemas e contos convertem-se em espelhos da condição humana, ao mesmo tempo em que a imergem no império da forma. No plano da ficção, o literário torna-se realidade – uma realidade construída, a partir da ficção. Borges compraz-se nessa altercação entre ficção e verdade, até confundir uma com a outra. Tal como o faz Maria Cristina Cavalcanti Albuquerque.

A arte, através da palavra, funda o mundo e pode fazer-nos participar do absoluto. A linguagem é o instrumento da literatura e esta é invenção, tão real (ou mais) como a própria realidade, para iluminá-la em suas camadas mais profundas, resgatar os dados do inconsciente humano, trazer sombra ao guante da claridade, revelar o invisível da alma do homem, aproximar Deus da criatura da palavra, obra demasiadamente humana. O ser imaginário é mais vivo, tem mais seiva, é mais belo que qualquer ser comum, arranjado ou moldado pelos sentidos, tantas vezes insensatos quanto manipuláveis.

É impossível escrever algo de novo, já tudo foi escrito, pouco resta que as palavras não disseram. A tradição é algo novo e operante. Este é o axioma de Borges. Cabe ao escritor dizer de outra forma, encadear de outro jeito, apresentar o fato literário com outras palavras, o que já leu. Antes de sê-lo, escritor precisa ser infatigável leitor.

Borges orgulha-se mais dos livros que leu do que dos que escreveu.

Riqueza incomensurável encontra-se nos prólogos e notas e observações de leitura que ele nos lega, revelando o profundo e vários leitor que era.

Assim Borges definia o prólogo.

“O prólogo, quando os astros são propícios, não é uma forma subalterna de brinde; é uma espécie lateral de crítica. Não sei que juízo favorável merecerão os meus, que abarcam tantas opiniões e tantos anos”.

Ignoro se a música sabe desesperar da música e o mármore do mármore, porém a literatura é uma arte que sabe profetizar o tempo em que terá emudecido, enfurecer-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar seu fim. Borges.

BIOGRAFIA

Borges nasceu no dia 24 de agosto de 1899, numa casa da rua Tucumán, em Buenos Aires, Argentina, filho de Jorge Guíllermo Borges e Leonor Acevedo Borges.

Em 1906, escreveu o seu primeiro conto, La Visera Fatal, influenciado por Cervantes, e redigiu em inglês um texto sobre mitologia grega.

Em 1921, Borges, juntamente com outros intelectuais argentinos, como Macedônio Fernández, Pablo Rojas e Ricardo Güiraldes, filiou-se ao movimento modernista argentino e fundou as revistas Proa e Prisma.

Em 1923, publicou o seu primeiro livro de poemas, “Fervor de Buenos Aires”. Dois anos depois veio o segundo, “Luna de Enfrente”.

Em 1937, começou a trabalhar na Biblioteca municipal de Buenos Aires.

No ano seguinte, o seu pai morreu. Neste ano também começaram a manifestar-se os sintomas da doença que o levaria à cegueira.

Em 1950, Borges foi eleito presidente da Sociedade Argentina de Escritores, entidade contrária à ditadura, e logo fechada pelo governo. Após a revolução e a queda de Perón em 55, o escritor assumiu a direção da Biblioteca Nacional. No ano seguinte, foi nomeado para a cadeira de Literatura inglesa e americana na Universidade de Buenos Aires. Por esta época, a cegueira que vinha aumentando progressivamente tornou-se definitiva.

No dia 4 de agosto de 1967, Borges casou-se com uma amiga de infância, Else Astete Millan, viúva e dez anos mais jovem do que ele. Em julho de 1970, já estavam divorciados.

Em 1975, morre a sua mãe, D. Leonor.

Em 81, Maria Kodama, jovem que fora sua aluna aos doze anos, tornou-se sua secretária, passando depois a ser sua companheira.

Em 1985, Borges e Maria Kodama seguiram para a Itália e de lá para a Suíça. Em 26 de abril de 1986, casaram-se no Paraguai, por procuração: Borges era divorciado e não podia casar novamente pelas leis argentinas.

Jorge Luis Borges morreu vítima de um câncer no fígado, no dia 14 junho de 1986. Atendendo a um pedido seu, foi enterrado em Genebra.