Ludismo transcendente Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Quarta, 19 Junho 2013 16:50

Hildeberto Barbosa Filho (*)

Vital Corrêa de Araújo, poeta pernambucano, pública, pelas Edições Galo Branco, seus 50 poemas escolhidos pelo autor. Posso ter, enfim, uma visão de conjunto e uma percepção mais seletiva acerca de sua poética individual que se expressa em títulos importantes, como A cimitarra e o lume (1981), Burocracial (1983) e Canção de Areia (1996), entre outros.

 

 

Vital é daqueles que bifurcam seus caminhos estéticos, sem perder, contudo, a unidade subjacente que trama, em recorrência paradigmática, seu gesto criador. Diria que esta unidade de concepção, contemplando o plano das idéias e dos motivos variados que atravessam os territórios de sua poesia, incide também nos artefatos estilísticos, em cuja clareira iluminada, despontam, por um lado, o rigor da construção contida, quase condensare, e, por outro, a alogicidade visionária de fundações metafóricas radicais. Para me valer da tópica grega, recuperada por Nietzsche em ângulo estético-filosófico, vejo em Vital Corrêa de Araújo uma espécie de soma a fundir Apolo e Dionísio, naquilo que estes mitos podem representar, em termos de linguagem, o arrebatamento órfico e a simetria arquitetônica.

O poema “À”, na verdade uma dedicatória translógica que reverbera no texto “Só as paredes confesso” dá bem a medida do anárquico demiúrgico e da atmosfera dionisíaca em seu espraiamento metafórico surpreendente, assim como poemas, a exemplo de “Batlha branca”, “Hoje”, “O especialista” e “Morrer”, entre tantos, parecem caracterizar perfeitamente a linhagem apolínea dessa poesia consolidada.

Imagens expressivas, fertilizadoras do processo intuitivo de capturação das inomináveis latitudes do real, ao mesmo tempo que instauram uma nova semântica para o idioma, se materializam em versos assim: “(...) à brancura das almas cruéis (...) às pastosas geometrias da morte (...) à lembrança das melodias estraçalhadas/pelas lâminas das horas passadas/ nas alamedas do teu rosto”. E mais, muito mais, no vertebrado poema da página 36 a 42, de que destaco, para efeito comprobatório, os seguintes versos: “(...) às abelhas hermenêuticas/às baunilhas metonímicas (...) à hipermetropia dos rinocerantes (...) ao hipnótico olho da papoula (...) às cimitarras de aço sumério/às facínoras curvas da foice (...) à tenda do equinócio (...) Aos eruditos torsos de Apolo (...) à rótula de Foucault”, e, entre tantos achados de índole surreal e expressionista, esta bela sucessão:

 

às ondas cônicas, às capelas hípicas

aos hinos púnicos, aos sinos ímpios

aos humos côncavos, aos cantos únicos

aos corvos cínicos, às túnicas pânicas.

 

Se aqui se vê o excesso, o exaspero mesmo da cristalização imagética, numa operação que mescla o lúdico e o transcendente, Dionísio tresloucado numa retórica do absurdo, o absurdo estético porejando das estalactites dos vocábulos, observa-se, de outra parte, o viés econômico, medido, construtivista, embora sem a denegação da exigência metafórica como cerne dramático da expressão poética, efetivada, logo de saída, no poema “Morrer”, em versos como estes:

 

perder

o cargo da vida

as cangas

as cruzes

as alegrias

 

perder os trabalhos e os dias

os honorários do sol

as moedas do luar.

 

 

Eis, portanto, o discurso bifronte, ambivalente e uniforme do poeta pernambucano sob a regência particular de sua escolha autoral. A matriz antológica que disciplina a tarefa seletiva, numa coletânea como esta, parece definir, em fase de madureza criativa, os ângulos nucleares de um itinerário poético singular. O peso da metáfora, também assinalado pela exegese de um Sébastien Joachim, naquilo que o tropo pode trair de estranho, de enigmático, de impensável e de impossível, não só eleva as categorias expressivas da língua e da linguagem, mas também colabora, e colabora de maneira seminal, para a densidade significativa dos conteúdos temáticos e ideativos que configuram matéria de poesia.

Ângelo Monteiro, poeta-crítico, em síntese conclusiva, também se associa ao meu pensamento, ao ressaltar que “Vital Corrêa de Araújo, como poeta culto, que não nega o espontâneo, demonstra alta maturidade em relação à linguagem sem perder a capacidade adolescente de sonhar o mundo”.  Verdade inconteste: a cultura do autor, manifesta em requisitos típicos de quem domina as técnicas e os conceitos da criação literária, não elide, por sua vez, as ressonâncias da hubris, isto é, a desmedida, a fonte do delírio, os espantos do devaneio que, segundo Gaston Bachelard, desencadeia o fluxo das imagens mais amadas.

Se a poesia nos confere, pelo arranjo especial das palavras e dos signos, a oportunidade única de ver e de rever o mundo à luz de novos prismas inesperados, não posso deixar de reconhecer, em Vital Corrêa de Araújo, na poesia que ele transforma em poema, a verdade desse imperativo estético de apelos universais.

 

 

(*) Poeta e crítico literário paraibano.