O DESTINO POÉTICO DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO Versão para impressão
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Quarta, 19 Junho 2013 16:52

Sébastien Joachim

Existem poetas cuja obra desenha uma curva parabólica, com um período de tentativas medíocres, o período de apogeu e um de desistência de suas possibilidades criativas: sobreviverão nas antologias pelos feitos da segunda etapa.

Outras pessoas que reivindicam o título de poetas, mas que em vão cortejaram a musa, desaparecerão do cenário mundano onde evoluem, uma vez extintas e/ou privadas dos apoio “políticos” que as sustentaram.

 

 

No entanto, os verdadeiros grandes poetas são aqueles que foram visitados pelos Deuses desde o berço. Podem demorar até os 30 anos antes de publicar, mas já viveram em poesia. As ciências biológicas e neurológicas descobriram que estes favoritos das musas trazem inatos certas inscrições e determinados traços, beneficiam-se de tal aprendizado pertencentes à memória do corpo e da sensorialidade, suscetíveis de ser reativados no processo de criação (Cyrulnik e Duval, 2006: 19-23). Sendo o escritor aquele ser humano que, sem o saber, expressa-se em várias línguas, ao menos em uma multiplicidade enorme de registros, suspeitamos que, tal como o músico-compositor, a área temporal esquerda de seu cérebro seja geralmente maior do que a de seus receptores, unilíngües por função. Essa conformação, como no caso do músico, não é gratuita. Assim como os servos de Melpômene, os favoritos da musa ritmaram e musicaram seus textos.

Tudo leva a crer que o cérebro peritemporal do compositor e do poeta seja três vezes mais largo do que o de seus leitores-auditores (Cyrulnik e Duval 2006:19-23). São pessoas envolvidas a vida toda com a artisticidade verdadeira. Sua vida é uma vida de criação. Seu destino, um destino de poeta.

Assim é que pensamos ser César Leal e Vital Corrêa de Araújo, com as devidas ressalvas de ordem contingencial.

No Panorama Literário (Diário de Pernambuco, Recife, 1/3/1985 – B-6), Mozart Lopes de Siqueira, tratando do “imaginismo de Pablo Neruda”, sublinhava “em passant” a que ponto “Invenção da Noite Menor” e “Soneto Acrobático III”, de César Cerl, se distanciaram do tipo de imagem poética de seus confrades poetas, por sua singularidade. Coincidentemente, na mesma página literária, Silvio Roberto de Oliveira saudava igual especificidade nos poemas de Burocracial, que acabava de publicar Vital Corrêa de Araújo.

Portanto, a aproximação que acabamos de fazer não é fortuita. No entretanto, tendo enaltecido o talento superior de César Leal em vários ensaios publicados no Rio de Janeiro) e alhures, concentraremos nossos esforços desta vez sobre VCA (Vital Corrêa de Araújo).

Nesse volume, apresentaremos este poeta como o poeta da metáfora. Mas não se trata da metáfora dos clássicos retóricos. Para melhor entendimento, é preciso voltar aos alicerces corporais e mentais a que nos tem introduzidos Boris Cyrulnik e Philippe Duval (Psychnalyse et Résiliénce, Odile Jacob, Paris-2006).

É preciso remontar ao “processo de mentalização”, de construção de sentido, de “simbolização dos afetos”, de “colocação em pensamento das excitações externas”, de “conversão em palavras daquilo que só se sente, se experimenta”, portanto, das “visões” (Araut, 2006: 90-91). Deve-se dizer da metáfora, dinâmica propulsora, aplicada a toda a produção poética de VCA, aquilo que Marcel Proust dizia do estilo: é uma questão de visão.

Vamos provar isso ao nos debruçarmos sobre duas obras sintomáticas na carreira poética de VCA (Título Provisório, Burocracial), anteriores a Simulacro, seguido de Escuras, que se destacam hoje como a quintessência de sua produção em poesia.

Nosso propósito é confirmar o seu talento poético superior. Impossível cumprir essa tarefa sem levar em conta alguns dos primeiros opúsculos que saíram entre 1976 e 1992, em jornais e em casas editoriais.

Constatamos que em 1976, ele ganhou um prêmio literário aos 31 anos, o prêmio Otoniel Menezes, instituído pela Secretaria Municipal de Educação da Cidade do Natal – Rio Grande do Norte. Muito interessantes os termos nos quais o articulista do jornal O Poti (Diário de Natal aos domingos) noticiou o fato da premiação, chamando atenção sobre o seu lugar de nascimento, a sua profissão e principalmente o fato dele ser um total desconhecido. Leiamos:

 

“Vencedor do Prêmio Otoniel Menezes (...) Vital Corrêa de Araújo foi caracterizado (...) como um ilustre desconhecido”. Ele é pernambucano, nascido em Vertentes há 31 anos, desempenha na Secretaria da Fazenda uma atividade que nada tem em comum com a poesia: Chefe do Gabinete do Secretário”.

 

O anônimo autor da notícia ignora certamente que Paul Valéry foi licenciado de matemática e funcionário da agência de turismo Havas (e José Luís Borges, bibliotecário de subúrbio buenairense).  Esse “falar”, como se vê, adere-se ao superado molde biográfico de apresentação.

Ora, um poeta nasce a qualquer idade e em qualquer contexto. Porém, absorvendo esse contexto, lhe cabe recriá-lo imaginariamente, como os Sertões de Ariano Suassuna, de Raimundo Carrero (não nos esqueçamos que Vertentes é parte do Agreste e perto do Sertão de Pernambuco), e , dessa forma, dentro e acima do tempo e do espaço.

Essa tareta foi cumprida por VCA. Se olharmos atentamente a  obra de estréia “Titulo Provisório”, publicado pela Fundação José Augusto, já estaremos presenciando (ou flagrando) o poeta que ele é e será  30 anos depois, a saber, um autor de validade universal, que bebe na filosofia e na literatura de todos os tempos, tanto da Europa, quanto das Américas; um poeta sensível ao ambiente tecnológico e aos problemas ecológicos, que surgem em seu tempo; preocupado por aquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu qualificava de “A Miséria do Mundo”, não somente do mundo político, mas também do mundo cotidiano das pessoas obrigadas a trabalhar e a viver na urbe moderna, veloz, ruidosa, poluída. Numa palavra, já está nas primeiras produções o VCA de Simulacro e Escuras (Antologia poética, Bagaço, Recife-2004), com as oito linhas metafóricas  que o consagraram na alvorada deste milênio: o exotismo, o heroísmo, a auto-reflexividade, a ironia mordaz (que finge ingenuidade), a ecologia, a mediocridade e a burrice, a injustiça social, a vaidade.

Numa monografia recente, frisava a metaforicidade e o sublime como os dois gonzos sobre os quais gira o conjunto dos processos da escritura vitalina. Hoje, sublinharia (mais adiante) de que maneira uma nova definição de metáfora confere ao empreendimento do poeta sem sentido mais profundo e mais amplo, e que confunde leitores expertos arraigados numa tradição hermenêutica racionalista. Antes convém mostrar a presença dos temas mencionados no Titulo Provisório (primeiro livro publicado).

Titulo Provisório se divide arbitrariamente em uma primeira parte de sete poemas seguida de “4 poemas” (sic), depois vem Verbicida, mais coerente tematicamente, enquanto ”Outros Poemas” que fecha o livro reune as mais diversas fontes de inspiração, inclusive aquelas encontradas na parte anterior. O erotismo está em seu auge no primeiro poema do livro: “Em teu corpo de carne e claridão”. É um título que ecoa na totalidade da obra, em todos os poemas dedicados a Ivonilde, esposa do poeta. Nesta coletânea, este poema tem uma variação na “Constelação do púbis”, do conjunto “ Outros Poemas” ( Pág. 49), de nível quase igual pela intensidade do desejo e do voyeurismo. Curiosamente no comovente poema de homenagem póstuma (2007), que o poeta acabou de dedicar a sua mãe, Deográcia Cavalcanti do Albuquerque Corrêa de Araújo, se observa a mesma vontade de endeusar o claro-escuro de “um corpo de carne e claridão”. Convergente com o efeito poético desses poemas eróticos de estréia, é aquele que se ressente quando o eu poético de VCA exalta a bebida e a comida no poema antológico “Poética da Almôndega” (Presença Poética do Nordeste, Col. Nordeste, Recife-PE, vol 04, Editora da Assessoria Editorial do Nordeste, 1985, P 70-71), que será retomada na Antologia do Poeta, em 2003 (e 2007), junto a este outro poema antológico intitulado “Só às Paredes Confesso”.

Revendo todos esses textos, inclusive do livro de estréia, o poema “Pão” (pág 51-54), também do volume que acabei de citar o “Soneto das carícias” (p. 67) dedicado em 1985 a Deográcia (mãe do poeta), antes de ser levado ao cume em 2007, com “Soneto dos seios” (para Ivonilde, mulher, em 2007), todos de intenso lirismo, e meditando sobre a sua significação na produção de conjunto do poeta, cheguei a lhes atribuir um valor que só pode ser entendido depois de termos apreciado criticamente todas as outras temáticas e suas expressões ao modo singular do poeta.

Vejamos bem. A lírica auto-reflexiva se exemplifica em “A tecelã”, um longo poema de seis páginas, em que VCA igualou um outro largo poema de mesmo título, do poeta, editor e artista plástico pernambucano, Vicente do Rego Monteiro, cuja obra foi publicado por Paulo Bruscky e outros, sob os auspícios do Governo do Estado de Pernambuco, em 2007 (traduzida do francês e prefaciado por nós, no que tange à literatura).

Essa veia de poesia praticada por João Cabral de Melo Neto (Poesia Crítica) é mais palatável em VCA e em Rego Monteiro, em razão do caráter quase exclusivamente parabólico imprimido na narrativa de seus poemas. Ambos autores desdenham de construir uma alegoria clássica. Não há nem um verso que aluda ao trabalho poético, que é o inegável assunto, aparentemente, uma defesa da trabalhadora envolvida no ofício da tecelagem. Outros poemas de Título Provisório tematizam o processo poético ou o valor do ato poético, através de seus representantes: CDA (P. 14), Poema de Semeir (P. 41). Sempre farei uma canção (p. 45), principalmente os dois textos dedicados a Pablo Neruda: Canção do cárcere (46-47) e Lição de grito (48). E que serão seguidos de várias menções deste poeta chileno, símbolo da poesia amordaçada pelo autoritarismo que vigia na época.

Como se vê, a lírica auto-reflexiva tenta definir o que é poesia, bem antes da aurora do século 21, e se põe em defesa dos poetas e de sua função de porta-voz da humanidade. Por isso é que depois da CDA e de Neruda, desfilarão na metapoesia de VCA, poetas do mundo inteiro, com prioridade para Rainer Maria Rilte e Federico Garcia Lorca. Ao poeta da Andaluzia, poeta-mártir que faz balançar, como Neruda, a linha de inspiração auto-reflexiva para a da crítica social, foi dedicado um poema em Presença Poética do Nordeste (Recife, 1985): Geografia Sentimental (p. 66) dedicado aos filhos Cláudio e Murilo Gun. Indicação de um envolvimento de Lorca na intimidade familiar do poeta pernambucano, que ressurgirá em simulacro seguido de Escuras (2007).

A vertente épica aparece em 1977 no poema Dura-habilidade do herói, feito anunciador do livro “Gesta Pernambucana” (1990) dedicado às grandes páginas da Restauração Pernambucana. Este livro, oferecido à pintora e poeta, Ladjane Bandeira, baseou-se – e foi solicitado por ela – no álbum Tricentenário da Restauração Pernambucana (gravuras, de que só restam dois exemplares). É preciso reconhecer que, haja visto o plurissentido do título do poema, é fortemente provável que se esconda por aí algo similar ao texto A teceta. E não é por acaso que quando Gesta Pernambucana foi escrita, já fazia parte da vida brasileira a onda de comemorações acopladas à busca de identidade, que caracterizou o trabalho de Ariano Suassuna e que virão reforçar Os Heróis de César Cel, os romances de Raimundo Carrero e Cláudio Aguiar, a publicação de diversas antologias de poemas sobre o Recife, nas pegadas de JCMN. A essa tentativa de recuperação da memória, ao emergir dos projetos de revalorização do Recife Antigo pelos poderes públicos, um poeta da envergadura de Vital Corrêa de Araújo não podia se eximir. É um trabalho de resistência (de superação dos traumas do passado) que se corporifica não apenas em festa pernambucana e no poema “Durabilidade do herói”, mas também nos poemas sobre o Sertão (VCA é de Vertentes, como Raimundo Carrero é de Santo Antonio do Salgueiro, como Ariano Suassuna é de Nossa Senhora das Neves, suplantada no seu imaginário pela cidade de Taperoá e seus entornos): Poema de barro. (Título Provisório p. 37-39), Cactoscânticos (mesma obra, p. 40), que serão aliás republicados para marcar e remarcar a sertanidade do poeta que tanto inventa e é inventado pelo mundo lá afora.

Particularmente significativo é o fato de Vital ser o jornalista encarregado da apresentação de Ariano Suassuna numa página dedicada ao Movimento Armorial (Diário da Manhã, Recife, 28 e 29 de agosto de 1983, p. 03). É uma questão de paratexto ou de cumplicidade? Afinidades, sem dúvida.

Voltemos ao apontar das apresentações temáticas.

O setor menos díspar tematicamente no Título Provisório é aquele chamado Verbicida. Cada poema arvora o subtítulo “didática” seguido de um adjetivo e de uma pequena dica. Isto se resume numa crítica social ou numa ironia ou numa charge poeticamente bem sucedida de alvo múltiplo. O pedantismo dos cientificistas e dos especialistas, a guerra e os genocídios (Auschwitz, como símbolo), a promiscuidade dos bordéis, que é o funcionalismo vegetativo (conformismo sem criatividade), os que pretendem ser poetas sem sê-lo.

Já estamos no ambiente do livro que vai requerer toda a nossa a tenção, no que tange ao processo metafórico de VCA: Burocracial (Recife, Edições Pirata, 1982).

No livro do estréia, ao ecologismo do Agreste (Vertentes) e do Sertão contrapõe-se a cidade (urbe, megalópolis) e seus males, já enfocados anteriormente, e de que dão conta não apenas Verbicida, mas também: “INPS do Poeta (13), Natal à manhã” (15), “Hoje” (16-17), Tecnopoema sete (22). De tal modo que está plenamente justificado que Titulo Provisório já projetou numa tela todo o caminhar temático da poesia de VCA.

Entretanto, seu destino poético, tal como o Grande Sertão de Guimarães Rosa, não se deve perder na multiplicidade das veredas. Cabe ao leitor crítico lhes imprimir uma coerência, revelando em que encruzilhada se confraternizam todas as veredas. E por isso, através de várias releituras, entrevemos que, para além de todas as fachadas temáticas, emergia uma que resumia todas: o prazer.

Temos mencionado, a respeito da veia erótica, o prazer da carne, o prazer do corpo visto, tocado, agirimensurado. Também, é uma fachada que traduz evidentemente o Poético da Almôndega”. Porém, se encararmos as coisas do lado do receptor, o prazer não reside menos nos poemas “A teceta, Poema de barro, Só às paredes confesso, Sob nascose, V., e a maioria dos grandes poemas de Burocracial, como o poema Burocracial, p. 6-8); Poema funcionário (14-15); Morrer (16-18); Gide ou o desejo (23-30); Cidadão incêndio (44-49); O ofício da faca (79-80) Mesa posta ao apocalipse (56-60).

Este livrinho (Burocracial) de 95 páginas é uma antologia de poemas publicados apenas cinco anos após o livro de estréia, uma galeria de jóias verbais minunciosamente talhadas, por um ourives da palavra. Digo antologia porque reaparecem aqui certo, grandes sucessos de 1977, ora na versão anterior, ora re-escritos: “Poema de barro”, Poema a “Pablo Neruda”, “Poema a Ivonilde” (Eu e tu), “Durabilidade do herói”.

Mas, de que  prazer se trata, retomado o fio da meada? That is the. O filósofo francês Paul Ricouer nos responde, no livrinho que Olivier Abel e Jerôme Porée (Ellipses, 2007: 11-14) acabaram de lançar.

Em primeiro lugar, Paul Ricoeur estima fundamental o desejo erótico, porque é por Eros que estamos na vida e, com um toque spinoziano, é pela atração dos corpos que preservamos na existência. Em segundo lugar, é o ponto que mais nos interessa – o amor erótico é a “ raiz oculta de grande jogo metafórico, o qual impõe  uma troca generalizada entre  todas as figuras do amor (Ricouer, Philosophie de la volonté 2, finitude et culpabilité 1, L1Honra faillible. Paris: Aubier, 1960, p. 199; Penser la Bible, Paris: Seul, 1998: 457).

Já encontramos uma lei explicativa da proximidade do diverso, dos mais estranhos objetos e dois mais desconcertantes predicados em Vital Corrêa de Araújo, o poeta da metáfora. Por trás da metáfora, diz Ricoeur, há Eros ou o prazer dos sentidos (retenha a polissemia da expressão), há a presença do desejo de ligar tudo que existe (seres, entes, coisas de toda natureza) no coito sem fim. Porque, segundo o filósofo, “A vida é única e universal, toda em todos”; é desta matéria que o prazer sexual participa (1960: 119, 146-147; 1998: 449). Mas Paul Ricoeur acrescenta essa ressalva: a Eros se opõem Thanatos, e essa força de desestabilação e de corrupção leva ao desabar do desejo. Daí, a presença na poesia de VCA, a onipresença da noite, o oposto do entrecruzar-se do todo. Se “a linguagem do amor e da metáfora”, se “a jubilação” que marca essa linguagem dinamiza a metaforização do mundo, resta que, em VCA, predomina, junto ao prazer da prolação, de conversação nupcial dos opostos ou dos díspares, em quase cada pagina Burocracial, em quase todos os poemas da dupla veia de critica social e de defesa da ecologia, um sopro de decepção permite a constante ação negativa, desconstrutora de Thanatos.

Estou pronto agora a rever a concepção de estilo que o poeta Silvio Roberto de Oliveira atribuir a Burocracial, de Vital Corrêa de Araújo (Diário de Pernambuco, Panorama Literário, B-6, Recife, 01/03/1985). O titulo do texto de Sílvio, “O processo vital”, é muito feliz pela esperteza de incorporar o nome VCA. Vamos acompanhar “pari passu” a análise do crítico poeta.

Ele começa por dizer que esse texto de funcionário público é uma “diversão” e que essa diversão consiste numa subversão dos “Textos diretos”, sizudos, obrigatórios dos pareceres e despachos da repartição”. Pode ser. Mas, se fosse apenas divertimento, duvido que o escritor os tivesse apresentado num concurso. Mas, Sílvio Oliveira, logo foi mais adiante do simples torneio divertido com palavras: ”Essa conjuntura (o concurso)” permitiu a VCA desenvolver um método poético bastante pessoal, com raciocionio especial, um processo analítico que lhe permite decompor a realidade em módulos de expressão poética recortados a seu modo e em seguida remontados, conforme uma visão pararreal do mundo que o cerca.

Julgo louvávelessa critica que leva a sério o ensaio poético. Mas existe  um substrato racionalista procedendo em analise (decompor) e síntese(remontar) que me parece discutível. E também é essa a idéia de uma intenção do poeta de criar um mundo para-real, “paralelo ao real, mas em contato permanente com o mesmo” (continua dizendo Silvio Oliveira). Veio em seguida a noção goldmaniana de homologia entre Literatura e sociedade, que faz passar o imaginário, portanto, a metáfora, ao segundo plano, privilegiando “nma construção normativa”.

Porém , estou plenamente de acordo com o crótico, quando afirma que VCA ultrapassou os limites do mordenismo. E nosso estudo sobre o sublime o prova. Mas volto a contestar o positivismo da demostração de Silvio Roberto de Oliveira, quando, conforme convencer os pressupostos acima colocados, ele re-declara: “O poeta VCA recorta o sentido visível em módulos gulosos, tridimensionais, rearrumando-o em uma composição de palavras, onde predominam figuras geométricas e cortantes; usa, para isso, permanentemente, as proparoxítonas e os grupos consonantais fortes – tr, st, gr, cr, gl, tl.etc”. As últimas considerações são perspicazes, mas nego as primeiras. Como nego as seguintes colocações que vêm ressublinhando e “o desmontamento do real” a subversão pela aplicação de adjetivos aparentemente ilógicos, a criação de artifícios etc. Silvio Oliveira tem o mérito de ter sido o primeiro leitor a tentar provar a seriedade do trabalho, do empreendimento poético de Vital Correia de Araújo. Por isso, ele merece nosso apreço, mesmo discordando dos seus recursos argumentativos.

Com fundamento em Paul Ricoeur, propomos um outro “Processo Vital”.

Temos avançado no argumento de que a força motriz da escrita de VCA é o prazer. Ricoeur estende esse prazer não apenas à carne, mas ao todo existir, e postula a linguagem, que põe juntas(unifica) todas as coisas do mundo, apesar de suas diferenças, a linguagem metafórica. Ora, a pulsão de escrita em VCA é justamente a metáfora. O prazer coincide portanto com o gesto mesmo de escrever. Um tal gesto se origina numa intuição, numa visão inicial. Essa visão é pré-discursiva, ante-preposicional. Diria até ante-predicativa.

É aí, neste nível, que já temos colocado no inconsciente como os neurologistas e biologistas, que pertence a visão, e não em qualquer comparação com um mundo a subvertir.

A análise de Silvio Roberto de Oliveira se prende a uma critica de pender cartesiana. Ora a “démarche Ricoeur, em que se assenta o processo poético de VCA, desloca a questão da metáfora, do puro jogo de linguagem a uma “tensão entre áreas semânticas heterogêneas, de repente usadas(...), criando uma aurora de fala, toda referência ao real abolida” (tradução livre de Ricoeur, in Abel et Porée, 2007:51-52).

Diria mais: o poeta não junta, não casa isto e aquilo que antes eram separados. A metáfora em VCA não obedece a um trabalho de justaposição sintética(ou sintática). Primeiro, era o complexo, a diversidade dentro da unidade. Todas as realidades, até os “imcompossiveis”, estão associadas, como num mundo anterior à queda inscrita no livro de Gênese ( cidade, corpo de natureza, elementos da vida burocracial, corrida, morte, vida etc).

E tudo continua convivendo, e se entredestruindo depois da queda. Para a nossa fruição de uma escrita poética chamada Vital Corrêa de Araújo.

 

Montreal, Verão de 2007

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

I – Obras do autor. Referidas no presente trabalho: Araújo, Vital Corrêa de, Título Provisório. Natal: Fundação José Augusto, 1977.

Presença Poética do Nordeste. Recife: Edição da Assessoria Editorial Nordeste, 1985.

Burocracial. Recife: Edições Pirata, 1982.

Gesta Pernambucana. Recife: Fundarpe, 1990.

 

II – Estudos consultados

 

1. ABEL, O e Porée, J. Le Vocabulaire de Paul Ricoeur

Paris: Ellipses, 2007.

 

2. ANAUT, Maria. La résilience au risque de la Psychanalezae ou la Psychanalyse ou risque de la résislience? IV Boris Cyrulhik et Philippe Duval, Psychanalyse et Résilience.

Paris: Odile Jacob, 2006 p. 105-126.

 

3. BELLEMAPE – PAGE, Stéplane. La littérature su temps de la post-mémoire: é criture et résilience chez Andrei Makine. Im Estudes Litterares: Escriture, mémoire, résilience, Autorre 2006, université laval p. 48 – 56.

 

4.CYRULNIK,B et DUVAL, ph. Psychanalyse et Résilience. Paris: Odele Jacos, 2006. Introduction por Boris Cyrulnik, p 7 – 25.

 

5. RICOEUR, PAUL. Philosophie de la Volonté 2 firitude et culposibilité a, Lhonra Faillible. Paris: aubin, 1960 Penser la Bible (Ajel A. La Cocque), Paris Seul, 1998.

 

Percours de La Rennaissance Seul, 2007