MERCOSUL DA LITERATURA Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 19:33

A versão 2007 da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (21/09 a 30/09) ganha densidade e amplitude, amplia seu espectro e ressonância, em termos de qualidade e quantidade de intelectuais, escritores envolvidos, abrangência que o faz ingressar no calendário dos máximos eventos voltados à literatura, a exemplo de Passo Fundo e Flip-Parati, o que automaticamente coloca Pernambuco e o Nordeste no circuito dos grandes festivais literários da América.

 

 

 

A idéia de Eduardo Cortes e da arquiteta Tuca, sua dinâmica mulher, sobreviveu bem ao batismo, em 2005, cresceu e consolidou-se em 2006, sempre com o apoio da Rede Globo Nordeste, de empresas com visão cultural e da imprensa local. Agora, sob a curadoria e coordenação geral do escritor e acadêmico Antônio Campos, numa realização do Instituto Maximiano Campos – IMC, atravessa fronteiras, rompe os últimos óbices, torna-se internacional, isto é, universaliza-se e vira megaevento em sua terceira edição.

A FLIPORTO-2007 é dedicada aos países latino-americanos – ou seja, à integração literária do subcontinente - o que o reveste de uma sorte de mercosul da literatura e traz mais de 40 escritores da Colômbia, Venezuela, Chile, Peru, Cuba. República Dominicana, México, Argentina, Equador, Porto Rico, Nicarágua, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Canadá, isto é, escritores das três Américas, que, dentro do gênero latino-americano, representam as espécies ibero-americano e hispano-americano, categorias ou conceitos que Angel Rama tão bem avalizou e precisou em seus ensaios, que alicerçavam sua missão intelectual em prol da integração, empresa heróica de pregar e lutar pelo intercâmbio, conhecimento e fraternidade continentais, através da literatura.

O projeto americano, causa de integração literária, foi abraçado por Basílio da Gama (soneto de exaltação à rebeldia nativista de Tupac Amaru), a tragédia desaparecida, Atahualfa, do jornalista José Natividade Saldanha, secretário de Bolívar, que morreu em Caracas, o poema épico (romântico) Colombo, de Araújo Porto Alegre, o Guesa Errante, magnífico poema de Sousândrade, bem como por Castro Alves, Fagundes Varela, Joaquim Nabuco (Balmacena), Manuel Bonfim, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, além de Neruda (Canto Geral) e Marcus Accioly (Latinomérica), entre outros. Estes contribuíram para uma reflexão abrangente sobre a comunidade cultural do complexo Latino-América, se bem que o foco se alastrasse a todo o continente.

Configuram-se, ainda, dois grandes sistemas literários separados pela língua: ibero e hispano-americano, o Brasil e os outros, embora tenda a uma futura e necessária unificação num sistema literário comum (como o mercado econômico), com diferenciações nesse sistema único, que preservem a identidade e formação originárias.

Frise-se que o primeiro passo (ou condição) para a integração da literatura latino-americana – que é construída aqui, pela visão e ação ousadas e conseqüentes do presidente do Instituto Maximiano Campos – é a nítida consciência de sua ausência, isto é, a partir da realidade de sua completa fragmentação, deflagrar-se o processo contínuo de aglutinação. È que a unidade não é feita de nomes, mas do confronto de textos. A identidade perseguida é de formas heterogêneas e de alteridades legítimas.

Em síntese, o desafio é integrar os ramos ibero e hispânico (miscigenados do indígena e áfrico), consciente de que se trata de duas áreas lingüísticas distintas, cuja unificação pressupõe intercâmbio continuado e comunicação critica.

A literatura, a partir do boom, que representou o avanço e a vitória sobre os últimos resquícios de um colonialismo literário, fiel a modelos e escolas influentes do velho mundo, saiu do regionalismo estéril e mimético, ou seja, de um realismo romântico e alienado, para um estádio em que se conjugavam criadoramente a dimensão nacional e universal, num entrelaçamento dialético, em que o regional se transfigurava no universal: Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Alejo Carpentier, Borges, Rulfo, Vargas Lhosa, Clarice Lispector, Osman Lins, Nélida Piñon, Raimundo Carrero, Gilvan Lemos.

Prevaleceu a imaginação criadora, não a romântica, centrada no eu, mas a que buscou arrancar do cotidiano e de ângulos inusitados e não banais da vida comum os elementos que traçassem a imagem de um íntegro futuro. A utopia literária sul-americana, como a visão de Guimarães Rosa, é uma contribuição central, axial e irrecusavelmente criadora, que baliza e deve nortear nossos passos para o futuro literário da América Latina.

O que a III Fliporto fará é retomar o rumo da integração, aplainar e abrir os caminhos do intercâmbio e começar o trabalho de aproximação dos escritores e interessados em realizar o projeto do Mercosul Literário.

Destaque-se a iniciativa de Antônio Campos em homenagear o escritor Marcus Accioly, pelos 40 anos de literatura.

 

(Publicado na semana do evento)