O POETA E A CONCEPÇÃO DO MUNDO Versão para impressão
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Segunda, 10 Junho 2013 19:45

Cláudio Veras (Heidelberg)

Combato, de modo renhido e extremo, a ilusão de representatividade clássica, da representação do homem, da sociedade, da vida, do ser via poética. Filósofo (ou sociólogo, isto é, a filosofia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e não o poeta devem tratar da questão de apresentação da realidade humana (ou não). Da realidade, em termos de literatura, a prosa trata. Por que então duplicar essa tratativa, com a poesia juntando suas forças heterogêneas à prosa para explicar o mundo, desvendar o homem, expor as coisas que constituem ou movem o real. E isso com a necessária embora insuficiente racionalidade. Ou quase.

 

 

Não se deduza daí ser o poeta um alienado da realidade, um sonhador de coisas vãs para quem cada aspecto ou ângulo do real seja lírico.

O poeta poeta deve seguir o aforismo de Terêncio, caro a Marx: Nada do humano me é estranho. Defendo com plena segurança que o poeta, antes de começar o primeiro poema, deve ter uma concepção do mundo, da vida, do homem, da sociedade, do ser, das coisas humanas ou não.

Só assim, munido dessa perspectiva, desse entendimento de si e do outro (do céu e do inferno) é que o poema inicia-se, dotado de toda essa visão humanista buscada na filosofia, na história, na política, no universo do social, no fato e na sombra do fato... e todo esse arcabouço atravessado de portentosa dialética, a lógica de nosso tempo.

A poesia trata do irreal, do irracional – que desde os gregos está em nós, do imaginário (da imago mundi, não do reflexo), busca o fóssil da consciência (forjada pela economia vital), pretende arrancar o ser de dentro para fora do seu casulo (de pele e carne) e expor as estranhas do espírito. No entanto, a poesia é humana, quase demasiadamente humana e como tal não está fora da história e do coração.

Daí que pergunto em relação a VCA, arguo como leitor dele e de outros: como o leitor encara a questão do reflexo da realidade na obra poética (em geral ou não). Desse belvedere, adianto (o que é lógica decorrência da posição exposta – e com base na poesia de VCA) a poesia poesia não pode ter relação (promíscua, ordinária, pele a pele) com a realidade, seus referenciais transitórias, sua estrutura negocial, evolutiva porém estacionada, sua visão usurária do mundo e do homem.

Como poeta se insere na realidade por ser um ser, parte da humanidade que tem locação no tempo e no espaço preciso? De que modo e forma ocorre a inserção do poeta – com seu texto em riste lírico (mas não bucólico exatamente) e por causa dele, na realidade do mundo?

O professor Admmauro Gommes, sapientissimamente forneceu nítida e forte, segura e basta explicação, no caso de VCA, em especial: VCA usa a palavra no poema com tal caos lingüístico, com tais intenções (terceiras ou quartas) de incompreensibilidade textual explícita, como uma resposta à condição insana, perversa, inumana, antidemocrática (na acepção grega) do mundo atual (do último quartel do século XX até aqui) e do Brasil em particular, que antecipou as mazelas, a violência, a inumanidade no período 1864/1985, quando militares (e a sociedade civil-empresarial-militar em aliança) empolgaram a modo de títeres o poder e esmagaram seu próprio povo, em benefício de outros. V.g., destruíram a ferrovia (e sua tradição) brasileira para benéfico integral das construtoras de caminhões americanas e estradeiros brasileiros.

VCA verificou que não havia mais condições para prestação de contas ao mundo, quando esse mundo é ilegítimo e mesquinho e violento contra o ser humano. O mundo deve a ele. E ele o deforma para protestar no cartório da página.

Se capta o real, o irrealiza, porque esse real é mau. Ou o deforma para vê-lo pelo avesso. De pé-cabeça. As intenções de Vital são malévolas, não há dúvidas.

Cabe ao leitor absorvê-las e torná-las legítimas e conseqüentes. Posto que o leitor é quem completa o poema.