O QUE É POEMA? Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 19:50

O poema é uma valsa

de sílabas descalças

condessas caretas

êmbolos de palavras

em ritmo verbal de salsa

pela cola sintática amalgamada

sob graças da gramática

que dança na página da alma?

 

Palco do poema luada

repouso e abismo cesura

pedra de artifício rima?

 

Metáfora seu magnificat

poema avança linha a linha

até a náusea.

 

Com exércitos de tropos

e esquadros compassados

ao bélico das palavras

na página instauram cenário

da batalha contra o sentido

bárbaro (atro prélio contra o poema certo)

atropelando símbolos e múltiplos

até que o detenha

precipício do hemistíquio

laurel e triunfo do espírito

contra avanço prosaico

em todas as fronteiras do mundo

e nos arredores da estrofe.

TEXTO DE ROUXINÓIS

 

 

Texto de pássaro e quartzo, mundo

de comovente mármore

árvore de sono e vigília, ramos

de nomes canoros e ouro alelúiuco

céu de tons áureos e pétreos caminhos

rima de cores berrantes, sonorosos ribeiros

trombetas de bocas inconsoláveis

com vômitos de anjos ocupadas

e linfas geométricas serpenteando

entre músicas cristalinas e algas de solfejo

urna de arco-íris, penca de bem-te-vis

alaranjados de cujos canoros esôfagos brotam

flores irredimíveis, contraltos de prata

texto lunar, hiperbóreo, clavicular, ibero

texto de mares alevantados e minuciosos

cores da lepra em profusão doente

nas carnes do meio-dia, timbres tumulares

adentrando lápides

iluminando epitáfios

 

amanhecendo nas estribeiras cinzentas do riacho

cadavérico de teus olhos inamistosos

cegando a paisagem eufórica do poema

rimas de nuvens dos céus de setembro

nimbos de abelhas, relâmpagos de ferrão e pólem

texto de elos longos, cânticos de cidreira

partituras de sal, celas de  candeia, sonatas pétreas

lumes de baunilha, gumes de ameixa

das solenes ameias arqueiros imperecíveis

textos de alies invicto, ambrosias

dos lábios de deuses derramadas

texto de cortesã encastelada em nobres falos

alevantados menires cárneos

odor de donzelas amadeirado de cio

cisternas de gozo iluminado púbis

moçoilas de húmus cativante e vivos e róseos

dos prélios da libido vencedoras amantes

texto de hímens delirantes e hinos viris

sons volumosos do gozo, trompetes de gemidos

lascívia estampada nos acordes inefáveis dos trombones

deliciosos da carne

 

 

 

texto de cadelas cedulares e células de volúpia

soberba multiplicando cores do orgasmo

árabe texto perdido num ás do oásis

de teus olhos tão benditos

beleza deserta porque impossível ornada

por uma coroa de perdizes arenosas

num sábado beduíno escravocrata

texto que desliza ao mover dos punhais

dos seus sorrisos alumiados de gumes

dos cantos movediços de tua boca o infinito

desnudando-se como amêndoa de precipício

desgrudada de teu cio infinito

 

texto de pântanos e bafios, miasma sombrio

e celestiais sílabas escandidas

dos nomes avulsos de Deus

texto cruel de nômade abril

escrito na água do delírio

que desce do sexo de cascata da mulher

em coito com a eternidade dos ungüentos macios

e óleos voluptuosos que manam de fêmeas fontes

texto estro eslavo e macio

porque lascivo e nunca senil

 

 

texto de entulho de prédio, barco

casa, avenida, criança e esperança

movido a tsunami e crocodilo

texto de armas automáticas

da mão de mercenários líbios

gemido desesperança do fundo da alma

humana agonizando como barata

num banho de DDT, texto

ametista brilhando no espírito da safira

texto de rouxinóis de Vertentes

e gaivotas do Atlântico.

 

 

 

Poema escrito no pano verde da sala

de jogos de cartas do navio Bleu de France

navegando no Atlântico, às 3 horas da manhã

da sexta 11 de março de 2011.

RESTOS DO TEXTO DE ROUXINÓIS

(Arranjados em partituras de palavras

no convés do Bleu de France

entre a piscina e as jacúzis

após desjejum do dia 11/03).

 

 

 

Textos preliminares à morte dos círculos azuis

de quilate latino e ouro visionário.

Deles guardo como relíquia líquida.

verso ametista do fundo da alma (marítima)

 

 

 

Texto de milho e híbridas sílabas

de ébrios colibris vírgula rouxinóis

texto de cédulas latinas e cadelas lusíadas

de colinas escurecidas e sibilas recifenses

texto de coivara, trama de insetos viris e aviltantes

testículos de estrelas vespertinas e teatrais

pocilga de pérolas exatas

cálida onda de sono e entulho latino.

 

texto rosa de efêmera eternidade

sono de rima, necrópole de cipreste

texto da comarca do sonho mota de Mauro

e ventura da carne

texto da nômade água do mar

e espumas venusianas

texto náufrago eclesiástico

texto persa, brâmane, cipango

texto cubano à Lezama

helênico à Seferis

marítimo à Perse

texto vital (e atlântico);

A FRANCISCO BRENNAD

PRÓDOMO

A experiência da poesia é o modo dela infletir-se

sobre nós e abonar a alma exprimindo

suas máculas ardentes e profusas submersas

no tempo cósmico – e cíclico que tramou Borges

horas prenhes da duração do evento ou parto

que nos deu Sócrates e Absalão

Pound, Eliot, Cabral, Murilo e Drummond

ou seja, servos da produção ou parturição

do poema no sentido da maiêutica crítica.

 

A melhor forma de definir ou conceituar

– expressar – isso (ou aquilo), ou maneira

Intensiva e absoluta de fazê-lo

é por meio ou pela veia aorta da poesia (porta)

– linfa ou fluxo, vaso ou vinho – que é

a linguagem (ou instância desta) impregnada

(dir-se-ia fosse carro de corrida: envenenada)

com carga máxima de voltagem  expressiva força polindica

ou curva de maior conotação possível.

 

 

Dê a palavra a exata – imprescindível

ração de ambigüidade, indetermine

com (des)propósitos poéticos o sentido

exija suor do leitor a enfrentar intrincado

lodaçal dela (palavra) atolada no poema: e louve-se.

(a si mesmo pela espessura doce de seu canto).

 

 

CONCEPÇÃO

Que inóspito hóspede sente-se (e sinta?)

à mesa deposta, mastigue bisquis

acepipes estupendos devore

(mandíbula grata lambendo-se)

louçanias cruas ouça hinos convulsos

carnívoros sais consuma

em pratos de cerâmica felina

e entorne acres (trâmites) de loucura,

cálices fale com o falo da palavra

bordas de apinhadas vertigens sorva

crateras de óleos do cio morda

beba bibelôs, brocados, ornamentos

deguste compêndios esquizofrênicos

copule com manequins semimecânicos

sirva-se de grifos, sinos mônades, gônadas, harpias

clitóris, ciclopes, agaves colha

gatos egípcios do chão rastejante e místico

pássaros vítreos, cânforas nuas manipule

considere estrelas bordadas do céu

quando após banquete adira ao alpendre

macia varanda de pássaros ancorados na tarde

inale relâmpagos, ouça gaivotas, toque

tintas do labirinto, cores do delírio.

 

 

ACONSELHO AOS POETAS

Nunca dizer mesmas coisas três vezes

sobre a mesma coisa ou com

mesmíssimas palavras (indispensáveis)

- gastas do uso abusivo, banalizadas

pelo blablablabla irreparável

pelo irreparável repertório da comunidade

dos poetas emocionados (em beleleu cônico, vácuo vocal)

com a beleza literal (não profunda)

do próprio umbigo ou brilho (infundado)

dos olhos ambíguos

nem expor palavra (tão bem cavada)

à insanidade do sentido

obrigatório, presumível

reiteradamente reincidente

mas por o ser em suprema conquista

posição cúbica, bíblica

(a pacificação do ente como meta mórbida, não!)

dar-lhe esteios, objetivos cavos

alicerces ínvios (de uivos) e sonhos vis

das vísceras vãs dos arúspires

extrair vaticínios gentis.