SOBRE UM POEMA PERFEITO Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Segunda, 10 Junho 2013 20:22

Poema conjetural é um poema com 44 versos, distribuídos em 2 estrofes (uma, com 38, outra, com 6 versos), vazado em endecassílabos, em métrica espanhola.

O poema pode ser dividido em 10 blocos nítidos, constituídos pelos versos 1/5, 6/12, 13/17, 18/21, 22/24, 25/27, 28/31, 31/35, 36/38 e, última e segunda estrofe, versos 39/44.

 

 

 

Curiosamente, a montagem do poema poderia ser diferente, imprimindo ao mesmo mais logicidade, o que Borges detestaria. Os blocos 2, 5 e 3, iniciando nessa ordem o poema, resultaria numa composição mais direta do tema, bem como os blocos 4 e 10 constituiriam o encerramento lógico da peça, além de outros arranjos possíveis.

Neste poema, um dos mais perfeitos, senão o mais bem urdido da poética moderna, Borges assume a consciência da Laprida, no fatídico momento em que a morte busca o prócer, e procede a uma meditação filosófica sobre a vida:

 

“Eu, que estudei as leis e os cânones

eu, Francisco Narciso Laprida,

cuja voz declarou a Independência

destas cruéis províncias, derrotado

de sangue e de suor maculado o rosto

sem esperança nem temor, perdido,

fujo até o sul pelo último declive dos arrabaldes”.

 

Nessas seqüências enumerativas é realçado o contraste da expectativa com a realidade, da vida perante a morte, quando os louros do passado são demolidos pela presença da eterna Senhora (a morte).

 

No início do poema, o leitor é introduzido no fato objetivo do fim da batalha, dramatizando-se o espaço em que:

 

“Zumbem as balas na tarde última

há vento e há cinzas no vento”.

 

 

Nos versos 13/17, do 3º bloco, Borges alude a Dante (Purgatório, V, 85/129) e praticamente transcreve dois tercetos da Divina Comédia; no trecho dedicado ao Capitão gibelino Montefeltri Buoncomte.

É inusitada a forma de narrar o Poema conjectural, ora em 3ª pessoa, ora na voz do próprio Laprida, que anuncia e denuncia sua própria morte, e posteriormente é citado pelo autor como uma 3ª pessoa, momento em que Borges se confunde com o narrador (o eu poético).

Um dos instantes mágicos do poema ocorre quando laprida aceita com júbilo o destino da morte (e a morte como destino): o preclaro varão portenho, herói humano, fala:

 

“porém me espessa o peito inexplicável / júbilo secreto. Ao fim, me encontro / com meu destino latino-americano”.

 

Reicindindo na técnica de enumeração caótica, Borges diz descobrir, encadeadamente:

 

“A recôndita chave de meus anos

a sorte de Francisco Laprida

a letra que faltava, a perfeita

forma que Deus soube desde o princípio”.

 

A confissão quase final de Laprida, vazada nos belíssimos versos:

 

“No espelho desta noite distingo e atinjo / meu insuspeitado rosto eterno. O círculo / vai se cerrar. Eu aguardo que assim seja”.

 

representa o acesso à eternidade, como categoria, onde o tempo já não existe, como mera passagem, embora ressonâncias viquianas fluam, entre dantescas alusões.

 

A estrofe final descreve a presença da morte de Laprida, que contempla o último alento chegando fatal e heroicamente, e prega a aniquilação, já antecipada no 4º bloco (versos 18/21), em versos magistrais:

 

“A noite lateral dos pântanos, oblíqua e nua, / me espreita com sua sombra. Ouço os ossos / de meu corpo alanceado que a morte tremula / com emblema, vertigem e ginete”.

 

Poema conjetural é um dos mais profundos, expressivos, concisos de Borges, que alcança alturas metafísicas insuspeitadas.

 

POEMA CONJETURAL

 

 

O doutor Francisco Laprida, assassinado no dia 22 de setembro de 1825, pelos guerrilheiros de Aldao, pensa nates de morrer:

 

 

 

Zunem as balas na última tarde.

há vento frio e cinzas no vento,

dissolve-se o dia e a batalha

se esgota e é dos outros a vitória.

Vencem os bárbaros, gaúchos vencem.

Eu, que estudei a fundo a lei e os cânones,

eu, Francisco Narciso de Laprida,

cuja voz declarou a independência

dessas cruéis províncias, derrotado

de sangue e de suor maculado o rosto,

sem esperança nem temor, perdido,

fujo até o Sul pelo dective dos arrabaldes.

Tal como o capitão do Purgatório

que, a pé fugindo e ensangüentando o chão,

foi cegado e morto Tombou

onde um escuro rio perde o nome,

assim hei de cair. Hoje é o fim.

A noite lateral dos pântanos, oblíqua e nua,

me espreita com sua sombra. Ouço os ossos

de meu corpo alanceado que a morte tremula

com emblema, vertigem e ginete.

Eu que almejei ser outro, ser um homem

de sentenças, de livros, de ditames,

a céu aberto jazerei nos charcos;

porém me espessa o peito inexplicável

júbilo secreto. Ao fim me encontro

com meu destino sul-americano.

A esta ruinosa tarde me levava

o labirinto múltiplo de passos

que meus dias teceram desde a infância

tempo já remotíssimo. Então agora descubro

a recôndita chave dos meus anos

a sorte de Francisco Laprida

a letra que faltava, a perfeita

forma que Deus soube desde o princípio.

No espelho desta noite distingo e atinjo

meu insuspeitado rosto infinito. O círculo

vai se cerrar. Eu aguardo que assim seja.

 

Já pisam-me os pés a sombra das lanças

que me buscam. O escárnio da minha morte,

os sinetes, as crinas, os cavalos

me circundam... Eis o relâmpago do golpe

e o duro ferro que me racha o corpo

e demole a alma. E a íntima facada na garganta.

 

 

1943

JUNÍN

 

Sou, mas também o morto sou, por certo,

O outro do meu sangue e do meu nome;

Sou um vago senhor e sou o homem

Que deteve as lanças do deserto.

Volto a Junín, sem nunca ter lá estado,

A teu Junín, avô Borges. Tu escutas,

Sombra ou cinza última, ou refutas

Em teu sonho de bronze este clamor partido?

Buscas talvez por meus inúteis olhos

O épico Junín de teus soldados,

A árvore que plantaste e os cercados

E no confim a tribo e os despojos.

Vejo-te triste, de feições austrais.

Quem me dirá quem foste e como eras.

 

Junín, 1966

(El Outro, el Mismo)

 

JOÃO, I, 14

 

 

 

Não será menos um enigma esta folha

que a de Meus livros sagrados

nem aquelas outras que repetem

as bocas ignorantes,

julgando-as de um homem, não espelhos

obscuros do Espírito.

Eu que sou o É, o Foi e o Será,

volto a condescender com a linguagem,

que é emblema e tempo sucessivo.

Quem brinca com uma criança está a brincar

com algo próximo e misterioso;

quis brincar com Meus filhos.

Estive entre eles com assombro e ternura.

Por obra de magia

nasci de um ventre invencível.

Vivi enfeitiçado, prisioneiro de um corpo

e da humildade de uma alma suprema.

Conheci a memória,

essa moeda que não é nunca a mesma.

Conheci a esperança e o temor,

esses dois rostos do futuro incerto.

Conheci a vigília, o sono, os sonhos,

a ignorância, a carne,

os lentos labirintos da razão,

a amizade dos homens,

a misteriosa devoção dos cães.

Fui amado, compreendido, louvado e pendi de uma cruz.

Bebi o cálice até às fezes.

Vi por Meus olhos o que nunca vira:

a noite e as estrelas.

Conheci o puro, o arenoso, o áspero, o diferente,

o sabor do mel e das maçãs,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma da mão,

a voz humana, o rumor de uns passos na erva,

o cheiro da chuva na Galiléia,

o alto grito dos pássaros.

Conheci também a amargura.

 

Encomendei esta escritura a um homem qualquer;

nunca será o que quero dizer,

mas não deixará de ser o seu reflexo.

Da Minha eternidade estes signos caem.

Que outro, não o que é hoje o seu copista, escreva o poema.

Amanhã um tigre serei no meio dos tigres

e pregarei a Minha lei à sua selva,

a uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com saudade

no olor dessa carpintaria.

 

(Elogio de la Sombra)

BUENOS AIRES

 

 

 

Que será Buenos Aires?

É a Praça de Maio a que voltaram, depois de terem guerreado no continente, homens cansados e felizes.

É o dédalo crescente de luzes que divisamos do avião e sob o qual estão a açoteia, a vereda, o último pátio, as coisas quietas.

É a parede em ruínas da Recoleta contra a qual morreu, executado, um dos meus antepassados.

É uma grande árvore da rua Junín que, sem o saber, nos concede sombra e frescura.

É uma longa rua de casas baixas, que perde e transfigura o poente.

É a Doca Sul de onde zarpavam o Saturno e o Cosmo.

É a vereda de Quintana em que meu pai, que estivera cego, chorou, porque via as antigas estrelas.

É uma porta numerada, por trás da qual, na escuridão, passei dez dias e dez noites, imóvel, dias e noites que são um instante na memória.

É o cavaleiro de pesado metal que projecta do alto a sua série cíclica de sombras.

É o mesmo cavaleiro sob a chuva.

É uma esquina da rua Peru, onde Júlio César Dabove nos disse que o pior pecado que pode cometer um homem é engendrar um filho e sentenciá-lo a esta vida espantosa.

É Elvira de Altear, a escrever em cuidadosos cadernos um longo romance, que no princípio era feito de palavras e por fim de vagos riscos indecifráveis.

É a mão de Norah, a traçar o rosto de uma amiga que é também o de um ajo e de um círio.

É uma espada que serviu nas guerras e que é menos uma arma que uma lembrança.

É uma divisa desbotada ou um daguerreótipo gasto, coisas que são do tempo, esse soberbo.

É o dia em que deixamos uma mulher e o dia em que uma mulher nos deixou.

E aquele arco da rua Bolívar do qual se divisa a Biblioteca.

É a sala da Biblioteca, em que descobrimos, por volta de 1957, a língua dos ásperos saxões, a língua da coragem e da tristeza, vogais da mágoas, consoantes de triunfo ....

É o aposento contíguo, onde morreu Paul Groussac.

É o último espelho que repetiu a cara de meu pai.

É a cara de Cristo que vi no pó, desfeita às marteladas, numa das naves da Piedade.

É Lugones, a olhar pelas janelas do comboio as formas que se perdem e pensando que já não o perturba o dever de traduzi-las para sempre em palavras, porque esta viagem será a última de quantas foram inultimente empreendidas.

É, na noite desabitada, certa esquina do Onze em que Macedónio Fernández, que morreu, continua a explicar-me que a morte é uma falácia.

Não quero continuar; estas coisas são demasiado individuais, são demasiado o que são, para serem também Buenos Aires.

Buenos Aires é a outra rua, a que não pisei nunca, é o centro secreto dos quarteirões, os pátios derradeiros, é o que as fachadas ocultam, é o meu inimigo, se o tiver, é a pessoa a quem desagradam os meus versos (a mim também me desagradam), é a modesta livraria em que porventura entramos e já esquecemos, é essa rajada de milonga assobiada que não reconhecemos e nos toca, é o que se perdeu e é o que será, é o depois, o alheio, o lateral, o bairro que não é teu nem meu, o que ignoramos e queremos.

 

(Elogio de la Sombra)

ELOGIO DA SOMBRA

 

 

A velhice (este é o nome que lhe dão os outros)

pode ser o tempo da ventura.

O animal está morto ou quase morto.

Restam o homem e a sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que ainda não são trevas.

Buenos Aires,

que outrora se esgaçava em arrabaldes

rumo à planície interminável,

voltou a ser o Retiro, a Recoleta,

as confusas ruas do Onze

e as precárias casas velhas

que chamamos ainda o Sul.

Na minha vida as coisas foram sempre demasiadas;

Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;

o tempo tem sido o meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não magoa;

flui por um manso declive

e parece-se com a eternidade.

Os meus amigos não têm cara,

as mulheres são o que há tantos anos foram,

as esquinas podem ser outras,

as páginas dos livros não têm letras.

Tudo isto deveria apavorar-me,

mas é um regresso, uma doçura.

Das gerações dos textos que há na terra,

só terei lido uns poucos,

os que na memória continuo a ler,

a ler e a transformar.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte,

convergem os caminhos que me têm trazido

ao meu centro secreto, a meu íntimo teorema.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, ressurreições, agonias,

dias e noites,

entressonhos e sonhos,

cada ínfimo instante do passado

e dos passados do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os atos dos mortos,

o amor partilhado e as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Posso agora esquecê-las. Atingi o meu centro,

a minha clave e a minha álgebra,

o meu espelho.

Em breve saberei quem sou.

(Elogio de la Sombra)

AO IDIOMA ALEMÃO

 

 

O meu destino é a língua castelhana

O bronze de Francisco de Quevedo,

Mas na vagarosa noite caminhada que se desdobra em sombra

Exaltam-me outras músicas mais intimas.

Alguma foi-me dada pelo sangue

– Oh voz da Escritura e Shakespeare –,

Outras pelo acaso, que é benévolo,

Mas a ti, doce língua da Alemanha,

Escolhi-te e busquei-te, solitário.

Através de vigílias e gramáticas,

Da selva espessa das declinações,

Do dicionário, que não acerta nunca

Com o matiz preciso, aproximei-me.

Minhas noites estão cheias de Virgílio,

Disse uma vez; também posso dizer

De Hölderlin e de Ângelus Silesius.

Heine deu-me seus altos rouxinóis;

Goethe, a fortuna de um amor tardio,

A um tempo indulgente e mercenário;

Keller, a rosa que uns dedos depõem

Na mão de um morto que lhe queria muito

E que nunca saberá se é branca ou rubra.

Tu, língua da Alemanha, és tua obra

Capital: o amor entrelaçado

Das vozes compostas, as vogais

Abertas, esses sons que propiciam

A decifração do hexâmetro grego

E o teu rumor de selvas e de noites.

Tive-te algumas vêzes. No fim, hoje,

Dos anos fatigados, vislumbro-te

Longínqua como a álgebra e como a lua.

 

(El Oro de los Tigres)