IMATERIÁLIA VERSUS ANIMÁLIA Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Terça, 15 Outubro 2013 12:40

Se a poesia absoluta é atemática, é imateriália. Não é abstrata, sob pena de ser louca, redundante, purononsense, meio decorativa da página, colorífica. Se dispensa o tema, qual o objeto, como substituí-lo? Ao renunciarao sentido, poeta moderno renúncia ao objeto. O objeto do poema não é mais o objeto maternal (material), a descrição, o fato, o aniversário, a queda das torres gêmeas, a enchente, a seca. Algo meramente concreto.

Que antes interessavam. Mas foi (dialeticamente) ultrapassado. O realismo, que foi o gênero por excelência do capitalismo, iniciando sua performance de juros, moedas, ágios, usuras, hoje está obsoleto. Chega a época da abstração, mais do espirito que da carne, o tempo da imateriália e não mais da animália. É a poesia livre (do comércio da palavra) para expressar e expressar-se. Ser verbo. Não pedra. Escambo de sal ou boi por trono. Comércio da alma.

 

Renunciar ao sentido, ou antes abstraí-lo ou esquecê-lo, por indesejado e não pertinente, é essencial à poesia, ao poeta, melhor dizendo. Para a poesia do século XX, desprender-se do sentido é algo equivalente à renúncia à arte figurativa por Malevitch, Kandinsky e Mondrian. Com a poesia (neoposmoderna) assim como no caso da arte abstrata, a forma finalmente se libertou do conteúdo (o poema do sentido, sempre prosaico). A forma torna-se o próprio conteúdo do poema. E simplesmente abstrai-se essa distinção inválida, hoje, de forma e conteúdo. O sentido real (e último) é a forma. Não a forma do sentido, mas o sentido da forma.

Todo texto de poema absoluto está atrasado em relação à novidade estética que ele representa, como ponto do futuro. Então, o campo está sempre aberto... e fecundante. Minado de verbo. O objeto poema absoluto está sempre longe, como um limite (ou ilimite) ou fronteira a devassar.