APRECIAÇÃO LIGEIRA DA NOVA OBRA DE ADMMAURO GOMMES SOBRE VCA Versão para impressão
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Quinta, 31 Outubro 2013 18:18

Cláudio Veras

AdmmauroGommes –meu colega professor de literatura, num gesto ousado e demonstrando extrema competência e exemplar metodologia, organiza, em tempo recorde, cerca de 30 dias, livro em torno da obra do poeta Vital Corrêa de Araújo, reunindo depoimentos, miniensaios, artigos, reflexões sobre poesia absoluta (ou neoposmoderna, como deliciosa e não muito ortodoxamente VCA apoda esse novo surto de sensibilidade poética, essa neoforma de poesia no atual estádio da literatura brasileira).

Há um fio condutor da teia admmauriana, um norte da colmeia que é o livro, em razão da elaboração do trabalho: estudos de um primeiro pré-livro VCA na FAMASUL (70 págs), há 6,7 meses, e a entrevista na Rádio Cultura dos Palmares concedida por VCA a AG e a cerca de 15 graduandos de literatura da FAMASUL, há cerca de um mês e meio – inícios de abril.

 

Dessa colheita e da lida que foi a literatura de alguns livros de VCA, leitura provocada e monitorada pelo teacherAdmmauroGommes, resultou esse volume esplêndido. Depois do professor Mestre Absoluto Sébastien Joachim, AG retoma o caminho do professor canadense e avulta com um estudo vital sobre Poesia Absoluta. Agora, mais inovadoramente ainda, com a participação de dezenas de estudantes do curso superior de Letras, de vária série, desde a 1ª, o que valoriza sobremodo a perspectiva e a reflexão. Rapidamente, avaliei o nível geral... e vejo muito mérito na iniciativa, muita espontaneidade, o que é bom, e muitíssima liberdade e estilo na apreciação, além de larga perspicácia demonstrada pelo alunato. Parabéns!

VCA é um poeta inovador (desde o 1º livro, em 1979) e original até os últimos, 2013. Isso é uma marca vital. (Acompanho-o desde 1995, quando partilhamos três ou quatro antologias com outros 40,50 poetas, em Recife).

Mas, o que é poeta original?

Poeta original não o é no sentido de primeiro, mas de que traz o novo à vista do hoje, ao agora. Que renova – sempre (não só inova). Mesmo sob velha forma. E dá-lhe formanova. (E dialética).

Poeta original é o que oferece a novidade (em bandeja nova também), mesmo sob sol impossível. É o que traz (leva a leitor também novo – não cronológico, ou que assim o queira) a evolução – e não o mesmo estado – status quo, isto é, o vital poema. E que seja fruto de (desesperança) insatisfação absoluta com o todo já bem estabelecido. Ou com a totalidade do estabelecimento (pobre). Poeta absoluto é o que rediz (repete, mesmo) algo de modo (forma) original, viva, nova, diferente, definitiva até. Que renova. (E inovar pode ser difícil ou não).

Tenho lido muito VCA nas tardes geladas e aconchegantes de Heidelberg. Algumas vezes, caminho na elevação já afamada (caminho dos filósofos) acima da vetusta ponte, e carrego livros no sobretudo. Embora, VCA seja muito esquisito. Não me manda regularmente informação. Perde meu endereço, e-mail, etc. Sei que isso advém de sua hiperatividade (que herdou de Murilo Gun).

O que chama a atenção é que dos milhares de sintagmas (conceito vital na teoria literária alemã moderna) que VCA produziu, não há sequer um repetido. É mesmo uma questão de demiurgia (como AdmmauroGommes perscruta, especula).

Escrevi ensaios (livros) sobre a poesia hermética italiana e sobre o Expressionismo poético alemão (infelizmente não os traduzi para o português). Então sou treinado. E sinto que VCA está ampliando incessantemente sua abstração poética. Até quando? Até onde?

 

DADO INTERPRETATIVO (INTERPOLAÇÃO)

 

Flagro na poética vitaliana algo recorrente e demoradamente estranho – fato pelo qual chamo esse traço à colação no presente estudo. Ele insculpe seu objeto de palavras (o poema) de modo a fazer avultar um rosto insólito do real ou traço da realidade sobre a qual debruce seu lápis (ou alma). Insólito porque contrário à habitual e ordeira coerência de que se impregnam as coisas lógicas humanas. (Vivemos, desde há 2.500 anos, numa estreita faixa, num círculo como que gramatical, numa jaula lógica sob os ferros das premissas que se nos impuseram... e poucos – como os que lidam com a poesia absoluta, se evadem dessa prisão lógica a que se sujeita a mente ocidental, desde os idos peripatéticos).

Desse modo todo o efeito “zen” na consciência (?) do sujeito leitor – ocidental, a ele exposto, pela poesia absoluta, é neutralizado, de forma tão áspera que tal leitor se descarta do livro, da página em que se insira tal poema, de modo abrupto, como se o poema absoluto fosse víbora. Ou mordesse sua máscara. Fosse ímpio e dessacro estigma.

É preciso, pois, que o novo leitor se desinsira do fato (real?) cru da vida a que estamos viciados, por uma decorrência da lógica dominante. Portanto, leitor vital escamoteie de si toda a pátina parnasiana. Enfrente-a lendo Augusto dos Anjos e Cruz e Souza (ou Verlaine). Impute isso. Impute-se tal. Declare-se salvo da ácida fé parnasiana. De seu paraíso de cromo (lívido) e lantejoula de rima. Diga-se: tudo é vertigem.

 

CONCLUINDO

 

Nos seus vários livros (10, entre 2010/2012), VCA construiu uma barreira de compreensibilidade inexpugnável, algo que somente agora os professores, graduados e graduandos (desde a 1ª série) da FAMASUL estão a derrubar, vencer, separar... e o estão fazendo com nítida competência conforme vi e li; via e-mail, recentemente.

Já é meio que lendária sua ojeriza à rima. O que é mais que normal na poesia moderna. Sua resistência à métrica, o que é crescente desde Pope, Wordsworth (poesia-emoção recolhida na tranqüilidade) e Goethe. Maestria métrica é algo meio que aritmético, ou bem dantanho, ou coisa falida, ou algo pouco valido (ou inválido), fragilizado temporalmente... e nada a ver com maestria poética, nem de longe, diga-se de passagem (ou não).

A métrica é uma pedreira de um edifício antigo (bem abaulado, cai não cai) da arquitetura literária do século XIX (e já estamos no XXI!!). (Metrificar palavras não mais é dom de mestre artesão de silabação, mas vício).

Toda essa relojoaria virou impostura e anacronismo perfeito. Cadê a poesia? Cadê a rima? É que alguns (muitos) não acordaram ainda do sono dogmático da literatura do século XIX. E simplesmente não são contemporâneos deles mesmos. VCA, digo eu, é contemporâneo do futuro. Ele e professores e alunos da FAMASUL. E uns poucos do Recife: SébastienJoachim, Carlos Newton Jr e Rogério Generoso.

A poesia de VCA – como bem o disse Admmauro Gommes (em Para entender VCA), reflete o caos (geral) externo da vida e do mundo agora. É verdade. Pois VCA é uma pessoa fundada em uma nítida (e humana) concepção do homem, da vida, do ser, da sociedade.

E viver um presente tão degradado, uma época tão caótica, uma era tão mecânica (mecânica virtual, porém mecânica), um tempo sem referências sólidas, sem utopia (pois a utopia foi proibida no Brasil por 21 anos – quando a liberdade virou escárnio, tortura e assassinato, sob pena de morte – legal ou ilegal, e esquecida pelas atuais gerações); um tempo do mundo, um tempo (não humano) só para passar, como a banda.