A FLOR DE MALLARMÉ Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Quarta, 06 Novembro 2013 13:21

Quando numa tarde meio estéril, nevoenta (londrina, nervosa) de Oxford heroica doutores curiosiados retóricos por cátedras nutridos, engordados por letras e lipídios (alfabetizados com bifes e bacon matinal) pela classe do clima crismados, aperfeiçoados pelo brutal ansioso, substancial, doentio e adjetivo conservadorismo britânico e atual, indagaram a Mallarmé sobre a situação da poesia: ele disparou. “De fato (e direito tendes a ouví-lo) trago notícias esplendorosas”. As máculas. A virgindade da poesia foi-se. Decepou-a (estuprou-a) a foice do tempo pedófilo afiada contra a inocência perigosa da palavra. Testículo do verbo, corda da harpa poética, cortaram.

 

 

A poesia tem carne e alma. E fome de rua e nome. Derrubou-se o mito da intocabilidade do verso. Viva o promíscuo verbo emasculado tempo, era venérea, ávida, torpe. Bulímica. Informe.

Meio assustados os longos catedráticos oxfordientos uníssonas (neste caso, sujeito gramatical) então largaram em meio à chávena de murmúrios redondos que percorreu as vísceras do minianfiteatro. Presos a suas poses e casacos, encartolados e undosos em togas apodrentados, aprisionados encravados em vestes talares saborosas de linho cinzento e golas ebúrneas, escravos de gestos únicos catedráticos ouviram, Mallarmé pouco ofegante, meio libertino perito em luas e dólares e baldes de água quente, descarregar todo o potente pente (de voz ereta, crua), ingrata munição projetar a voz nos afrescos frisos e cornijas albiônicas do templo de Oxford (o que ecoou como um tiro no coração do ermo que na víscera escura do prédio ricocheteou como ervilha). “Os governos mudam, a prosódia permanece talvez (fique o vício) nas revoluções passe despercebida incólume, porque a opinião pública não crê que ela sendo dogma possa variar”. “Porque o verso é tudo, é toda literatura”. É mesmo a poesia o além da literatura. Outra coisa maior. E eterna realmente.

Então, prosa não passa de versos quebrados que jogam com timbres peculiares, digressões sutis e rimas dissimuladas. Tudo simulacro. “Porque toda (a) alma é um nó rítmico”. (Indago o cronista: Quem vai colher a flor de Mallarmé - ausente de todos os buquês, presente nas lapelas dos milênios - a que num vaso-soneto floresceu como uma corbelha da alma?).

 

ADENDO

Mallarmé foi um poeta do século XIX (que incólume atravessou o XX e alcança o pódio do XXI). de cabo a rabo. Nasceu em 1842, tombou em 1898 (Borges nasceria no ano seguinte à morte do Mestre). De um ano antes datou sua obra marco da revolução da palavra, na palavra, pela palavra: Um coupe de dés jamais n’abolira le hazard (1897). (O meu pobre, Um lance de búzio abole o acaso, é de 1997 – 100 anos após, uma homenagem).

Situou-se (ou o situaram) sempre como poeta simbolista refinado – e precioso como qualquer parnasiano de boa cepa. E hermenêutico, como decorrência e não como resultado. Na verdade, Mallarmé usou a máscara de simbolista como forma de sobreviver em hostil ambiente, caldo de cultura das pérolas do Parnaso – e não ser catapultado para longe do pântano dominante da mediocridade organizada e conservadora de então. Ser oficialmente repudiado equivaleria a isolamento desoxigenário. Sua poesia extrema (com Um lance, O fauno, O brinde, Salut rècif) era inconcebível à época, mesmo impalatável ou impotável se fosse declarar-se diferente (como o era) e render o confronto suicida.

Segundo a exímia e magnífica crítica de cultura Leila Perrone-Moisés. Mallarmé foi agente e azeite da mutação do conceito-máquina de poesia, inaugurado mesmo um given volo.

Muitos o admiraram de primeira hora: Gide, Claudel, Valéry. Mas sua poesia sempre estranha ficara fora do alcance da maioria (mesmo de seus admiradores). Mallarmé foi o anunciador de uma nova era da poesia. Promotor da revelação que só veio a ser sentida (digerida) no século XX, com sua ascensão ao pódio do panteão da melhor poesia do mundo. Reservado a meros e notáveis dez ou doze no todo vasto e rico de poesia século vinte