ATRAVÉS DE ROGÉRIO GENEROSO Versão para impressão
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Quarta, 06 Novembro 2013 13:28

Vital Corrêa de Araújo

É preciso atentar, ao ler Rogério Generoso poeta, que as frases (versos) que constituem ou lastreiam a linguagem poética carecem do valor (ou avaliação) de falsa ou verdadeira. Verdade, que atribuímos ao território da ciência, como referência ou prática, como algo objetivo; ou ao campo da filosofia, como reflexão teórica, como visão subjetiva do objeto (mundo/homem).

 

 

Isso porque a linguagem cognitiva (com suas exigências lógicas e metodológicas, tipo penso, logo existo ou o outro é o inferno e eu sou deus) é estranha à poesia. Não são do mesmo patamar real, não se encontram nem se confundem, são de edifícios e fundações, de alicerces e coberturas diversas: a linguagem poética e a científica ou ordinária (ou comum das duas).

A questão da verdade e da poesia (fato que me chamou a atenção ao reler Através, novo poemário - pura poesia absoluta - de Rogério) é controversa, e o verso não subsiste à necessidade do cunho da verdade, como selo ou marca para legitimá-lo, nem do cravo da referência, para aceitá-lo, levantá-lo em meio ao cemitério da prosa, do dito.

O verso não deve ser verdadeiro ou falso. Coitado do leitor que mergulhe nessa miragem, porque vai quebrar a cara e arrebentar a cabeça, e sobrar como molambo na água do esgoto. Essa lógica, do é ou não é (toda metafísica) não o abrange. Sobra. Não interessa esse (falso) dilema. Basta ao verso dar prazer estético (e não informação científica ou comunicação qualquer, que é do campo de prova da prosa, que é a linguagem que se usa para dizer ou reclamar).

Na linguagem poética, a questão da verdade e da falsidade não se opõe. Não cabe atribuir valor de verdadeiro ou falso à linguagem poética, ao poema Através. Ela é estranha a tal dilema. A isso. Por isso é poética. Se não são verdadeiras nem falsas, as frases (versos) de Através são (e devem-no ser) destituídas de referências ao real ordinário ou aparente, aquilo que denominamos nosso mundo ou corpos, lugar de nossa alma ou sentimento, físico ou psicológico.

A linguagem poética (e não a que se transveste de...) é isenta (melhor, imune) de uma avaliação ou pesagem lógica quanto a sua validade de verdade, porque se trata de uma linguagem não referencial. E, portanto, de algo altamente imaginário, imagético, imaginímico, isto é, ficcional. Por trás do texto poético não existe o mundo, mas estão mundos (imaginários ou reimaginários).

Daí a conclusão do semanticista, primeiro sistematizador da semântica literária, G. Frege: enquanto na linguagem científica         , o significado depende da referência e do valor de verdade das coisas ou objetos, a que se aplicam ou tratam, o significado poético concentra-se e esgota-se no sentido. Isto é, nele próprio. É algo imanente, não transcende a si mesmo. Limita-se, nele mesmo realiza-se. Daí, sua autonomia.

A linguagem poética é a do sentido puro (ou imagens). Porque os textos poéticos constituem e organizam o sentido. Mas o sentido poético nada tem a ver com a referência, o significado normal da linguagem em geral. Isso demostra a extrema especialidade peculiar à poesia.

Libertar-se das peias, cadeias, algemas, elos, grilhões da referencialidade é papel da linguagem poética (fim da função estética maior da linguagem). Quando exige verdade do texto poético, está-se violentando-o e conspurcando a pureza da linguagem poética, utilizando-a para dar mensagem, recado, reclamação, lição, informação (que pertence ao nível da linguagem ordinária, comum, normal, certa).

Em suma, em Através, obra espetacular e inusitada de Rogério Generoso, estamos diante de algo com pleno sentido poético, porém rejeitando “in extremis” quaisquer modos estandardizados de produção de sentido.nha a tal dilema. A isso. Porisso falso r.

ste vai quebrar a cara e arrebentar a cabeça.