A CRÔNICA HOJE Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Sexta, 07 Março 2014 11:48

A crônica é um gênero do jornalismo contemporâneo, cuja origem localiza-se na história e na literatura, ou mesmo, na comunhão das duas disciplinas radicais do conhecimento humano.

 

 

A crônica histórica (e não a literária, esportiva, política ou de costumes) teve precedência, e os primeiros cronistas, nesse sentido, foram Heródoto e César, entre os mais paradigmáticos.

O tédio, a distância afetada dos fatos, a aparente desimportância do mundo, expresso com acuidade e indiferença, sob o cinzel não da sátira, mas humor, ironia e modernidade, são nutrientes básicos do cronista, cujo objetivo na vida é engendrar dimensão sutil ou nuançada dos acontecimentos, em texto límpido e saboroso, oferecido ao leitor, cansado das tragédias e dos dramas cotidianos bebidos na leitura do próprio jornal.

A crônica como que neutraliza ou amacia essa realidade crua, cotidiana que o jornal ou a revista não criam, apenas espelham.

A versão – ou deformação sutilíssima do fato, que é dada pelo cronista, deve ter o caráter da transitoriedade, de modo que se apague com o tempo, seja marcessível, objetiva, como o jornalismo.

Também, deve ter conteúdo leve – e nunca grave; ameno – e jamais complexo, em suma, comunicável de imediato ao leitor, que necessita sorver a crítica, com gula e sabor, hausto de vista da mídia e não átimo de reflexão filosófica sistemática.

Se o leitor, por suposto, disser, depois de alguns dias: “agora que entendi, digeri a crônica de sicrano”, é que ela é bem indigesta, e talvez deva ficar num arquivo sanitário do autor e jamais estampada em jornais e revistas comuns.

Em síntese, a crônica é o palpite descompromissado de quem, sendo um leitor ativo e perspicaz dos eventos jornalísticos, tem a função e o propósito de reabordar, reordenar, olhar, por outros vieses, os fatos do noticiário (rádio, mídias virtuais, jornal, revista, TV), tudo absorvendo num texto elaborado, com tintas crônicas e mordazes.

Incidência menor a de crônica de costumes, que parte de um fato cotidiano, do acontecimento banal, e transcende-os, supera o tom sério, o tema grave, remexe-os, desmistifica, demitifica, extraindo deles lições (ilações) igualmente sérias e insuspeitas, mas nunca empolgadas e graves.

Fazer crônica para uns é vaticínio, destinação dos dias, quase como o ar que se respira; para outros, incômodo ou incômoda rotina.

O cronista diário ou semanal do jornal dirige-se, por natureza, a um leitor real, que separa o jornal com as mãos e nele despeja suas ansiedades, colhendo saídas ou encruzilhadas, apelos, dissipações, certezas (daquelas que duram pelo menos um dia, 24 horas).

Quase sempre, o cronista comete seu texto pensando num leitor ideal, especial, artificial, perante o qual pretende desnudar-se, exibir-se, confessando, procedendo como se a crônica fosse teatro; o seu autor, apresentador de circo, domador de pulga ou palhaço, e o leitorado, plateia hipnotizada, cativa, perfeita. O que denuncia logo o falso cronista.

O anacrônico cronista de hoje em dia vê o texto como álibi ou chance de conversar-se, falando de si mesmo, como num processo de autoanálise lírica e desapiedosa, psicanalisando-se às escâncaras, como se isso interessasse ao leitor. Quanto mais longa, menos crônica. Quanto mais êunica, mais equívoca.

Acrescento com efeito que sou cronista no pior sentido. Meu texto (poético ou não) não é que seja complexo, é sim complicado. Indigerível. Sou, ao menos em poesia, ilegível e ininteligível. De propósito. Isto é, não disponho de opções. Pois se o leitor (qual?) me entende, me derrota. Entre os cronistas, um representa todos (de ontem e hoje): meu amigo ido Ronildo Maia Leite.